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Mulheres se apoderam da bicicleta
Pamela Sepúlveda*
SANTIAGO, Chile, 5 de março de 2012, (IPS) - (Tierramérica).- Andar de bicicleta exige equilÃbrio, confiança e autocontrole, atributos necessários para que as mulheres se apropriem do espaço público, proclama um grupo de ciclistas feministas da capital chilena.
O que tem a ver os direitos das mulheres com pedalar sobre duas rodas? A bicicleta é uma poderosa ferramenta de transformação social, afirma a organização feminista chilena Macleta, que promove o ciclismo e um olhar de gênero para os meios de transporte. Menos de 5% da população da capital chilena usa a bicicleta como transporte, e destes apenas 20% são mulheres, segundo a Pesquisa de Origem e Destino de Viagens Grande Santiago, publicada pelo Ministério de Transporte e Telecomunicações, com dados de 2001 a 2006.
“Em minha casa, andar de bicicleta era coisa de homensâ€, contou ao Terramérica a comerciante Magali Lagos, que aos 46 anos decidiu aprender a andar de bicicleta. Há dois, soube da existência da Escola Bici Mulher, da Macleta. Contudo, pensava que “ia fazer papel ridÃculo†e só há algumas semanas decidiu acompanhar as aulas. “É difÃcil (ter confiança), quando não se sabe, é bastante difÃcilâ€, confessou. Não tem medo de ir à rua, mas de não conseguir. É um desafio pessoal e, se o superar, comprará sua primeira bicicleta. Ela servirá não apenas como meio de transporte e passeio, mas também porque “ao andar de bicicleta se tem liberdadeâ€.
É essa liberdade que perseguem as integrantes da Macleta, que já estão na sétima edição de sua Escola Bici Mulher para ensinar as mulheres a vencerem medos e terem confiança na cidade. Não se trata de promover “um pedaço de ferro (sic), mas do poder da mulher por meio da bicicletaâ€, ressaltou ao Terramérica a coordenadora da Macleta, SofÃa López. As alunas já são mais de uma centena, com idades entre 18 e 68 anos.
Algumas não sabiam andar, porque não tiveram bicicleta ou porque viveram más experiências na infância. Outras “sabiam usar a bicicleta, mas não se atreviam a pedalar porque tinham medo dos carros, ou sentiam que não possuÃam as habilidades necessárias. São muitas que têm vontade, e não se sentem capazesâ€, explicou Sofia. Por isto, uma das áreas de trabalho é a pesquisa. Com dados e informação sobre as mulheres, seus medos e suas motivações, pode-se elaborar metodologias de ensino e estratégias para incentivá-las a combater seus medos.
“Aprenda a pedalar†é o primeiro nÃvel, dedicado à s não iniciadas, e “Saia da calçada†dirige-se à s que, sabendo andar, não se atrevem a usar a bicicleta para se locomover. “Acreditamos que a bicicleta, mais que um fim em si mesma, se converte em meioâ€, afirmou López. “Uma mulher que começa a andar de bicicleta fica mais contente, mais consciente de seu espaço público, quer ocupá-lo, interagir com outras pessoas... Promove um empoderamentoâ€, acrescentou. Além disso, é um meio de transporte econômico, “e isto também nos permite avançar em justiça, porque de bicicleta somos todos iguais e nos movemos iguais, e no fundo se beneficia o que tem menos para investir em um meio de transporteâ€, enfatizou.
O transporte e sua relação com a forte poluição atmosférica estão entre os principais problemas desta cidade de quase sete milhões de habitantes. A inauguração, em 2007, do sistema público-privado Transantiago causou inúmeros protestos sociais, por não responder à s necessidades de deslocamento nem à descontaminação da cidade, e por seu elevado custo. A passagem custa cerca de US$ 1,5. Nesta realidade, a bicicleta traz enormes benefÃcios para esta cidade: não emite substâncias tóxicas, contribui para descongestionar o trânsito e é silenciosa. Estas vantagens são reconhecidas pelas autoridades.
Em sua prestação de contas de dezembro, o ministro de Transportes e Telecomunicações, Pedro Pablo Errázuriz, expôs a vontade de “potencializar†a bicicleta e anunciou a ligação de ciclovias, para formar uma rede de 200 quilômetros em Santiago, e em outras cidades, para “fortalecer o uso deste meio não contaminante e acessÃvel a todosâ€. No entanto, a Macleta vai além. Na polÃtica pública de transportes devem ser consideradas as necessidades femininas, já que a mulher “é uma usuária diferente, como os idosos e as criançasâ€, disse Sofia.
Há diferenças de mobilidade entre os usuários e formas de deslocamento segundo o gênero, enfatizou Sofia. Mais de 40% das viagens das mulheres são a pé, e mais de 60% se deslocam fora das horas de pico, por isso se considera que a maioria “não viaja por motivos profissionais, mas relacionados com tarefas domésticas ou com suas responsabilidades de cuidadoras do larâ€, concluiu.
* A autora é colaboradora da IPS. (FIN/2012)
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