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ECONOMÍA-GRÉCIA
A moeda da solidariedade
Leonidas Ntilsizian

Ierapetra, Grécia, 16/3/2012, (IPS) - “Cuidado. A soda cáustica é perigosa”, grita Rea Pigiaki enquanto mistura o líquido com lavanda para preparar seus sabonetes aromáticos, que são muito famosos nesta pequena localidade do sudeste de Creta.


Crédito: Leonidas Ntilsizian/IPS
Mesas e cadeiras de madeira à venda em Iarepetra, na Grécia, ostentam preços na moeda kaereti.
Pigiaki, mãe de três filhos, oferece seus produtos artesanais a integrantes da Rede de Moeda Alternativa de Ierapetra. Ela cobra 1,5 kaereti (a moeda local, digital e também chamada “social” de Ierapetra) por barra de sabonete, e normalmente recebe mel e laranjas em troca de seus produtos. “Em nossos caixas já não há euros. O kaereti parece ser uma resposta ao que está ocorrendo na economia grega”, disse à IPS.

Todos os intercâmbios da rede são registrados em um computador central, onde os membros publicam o que podem oferecer, cobrindo uma ampla variedade de produtos e serviços. Os integrantes anotam os que precisam. Quando dois membros decidem fazer a troca, cada um completa a conta do outro com a quantia acordada em kaereti. O ponto-chave é que não circulam nem euros e nenhuma outra moeda oficial, e que todos os intercâmbios são feitos exclusivamente em kaereti. A palavra “kaereti” pertence ao dialeto local e significa “oferece uma pequena ajuda a alguém que necessita, sem esperar um benefício”.

Pescado fresco, vinho, o famoso licor raki de Creta, café árabe, produtos agrícolas locais, móveis de madeira, artesanato, sabonete biológico, óleos essenciais, chocolate caseiro, joias… Tudo que se imagina é oferecido e trocado rapidamente por meio da rede digital. A rede de produtos tangíveis foi completada com um grande número de serviços e uma força de trabalho bem equipada e pronta para oferecer suas habilidades na hora: eletricistas, encanadores, pedreiros, pintores, jardineiros, artistas gráficos, advogados, contadores, professores de idiomas, dança e música. A lista é interminável.

O mais incomum parece ser alguém que “oferece seus estudos em arquitetura marinha”, contou Alexis Machairas, um dos criadores da rede, que é plenamente autossuficiente e profissional. “A moeda local foi criada em agosto de 2011, e até agora tem participação de mais de 300 membros da sociedade legal”, explicou. “Especialmente nas últimas semanas – quando a economia da Grécia mostrou uma grande queda – a quantidade de membros e transações aumentou rapidamente. No último mês, os membros da rede aumentaram em um terço, e se registra pelo menos uma transação por dia”, acrescentou.

Sem dúvida, a transparência no sistema monetário local é uma grande vantagem. Todos os membros têm acesso à planilha principal, que mostra a hora da transação, os preços e a quantidade de trocas realizadas a cada momento. Um kaereti equivale a um euro, mas os euros não são permitidos dentro da rede. “As moedas alternativas estão dirigidas principalmente aos pobres”, explicou o professor e economia política George Stathakis, da Universidade de Creta.

“Todas as redes alternativas são uma base muito séria para superar os obstáculos que as camadas mais pobres da sociedade enfrentam”, afirmou Stathakis. Assim, ressurgem velhas atividades que ganham um novo valor, gerando emprego simultâneo. “Todos os intercâmbios se baseiam na confiança, transparência e simplicidade. Atualmente, na Grécia funcionam 26 redes diferentes de trocas, embora a do kaereti seja a mais ambiciosa”, destacou. “Até o final do ano, haverá cerca de cem dessas redes na Grécia. Os 300 a mil integrantes de uma rede têm uma boa perspectiva sobre como ter êxito na sociedade local, e, sem dúvidas, receberão grandes benefícios”, acrescentou.

Embora a chamada “moeda social” dê esperanças aos pobres, não soluciona os problemas macroeconômicos da Grécia, já que carece de uma base institucional ou estatal. A qualquer momento, as redes podem ficar à mercê de um centro de arrecadação de impostos, por isso precisa de uma regulamentação legal com urgência, alertou Stathakis. “O kaereti não é um substituto do euro. Funciona em paralelo à economia comum”, esclareceu. Além disso, este tipo de economia tem profundas raízes na região. Até 1960, o sistema de troca ainda regulava o setor agrícola de Creta. “Minha mãe recorda que, até 1959, quando minha família alugava uma casa em Chania, o aluguel era pago em azeite”, recordou o professor.

A economia de escambo permite que os participantes se beneficiem mutuamente. Por exemplo, Kostas, membro da rede kaereti, organiza excursões em seu barco durante o verão, e no inverno cultiva em suas terras, o que lhe permite oferecer azeite e azeitonas na rede. Por outro lado, Dimitris, outro integrante, fornece a Kostas serviços de seguro de automóvel em troca de óleo de oliva. “Ambos ganharemos”, disseram. “Em condições normais, o comerciante cobra 1,80 euro por um litro de azeite de oliva, e o cliente no supermercado normalmente compra a mesma quantidade por cinco euros. Ambos fizemos um acordo por 2,5 kaereti o litro, e entre nós não há intermediário”, explicou Dimitris.

O intercâmbio fica imediatamente registrado na rede, Kostas somará mais kaereti à sua conta e, após alguns meses vendendo seu azeite, pedirá a Dimitris que faça um seguro anual para seu carro. Atualmente, em Ierapetra, “os membros da rede pagam as contas dos idosos, oferecem traslados a outros habitantes do lugar e inclusive cuidam de seus filhos”, conta Ioanna, uma funcionária social da rede. “Os vínculos entre os integrantes se fortalecem a cada dia. Eles tomam conta das necessidades reais dos demais. Além disso, cada um pode mostrar as habilidades que possui. Há integrantes que podem consertar cadeiras de madeira e agora se sentem úteis e produtivos”, ressaltou.

A falta do euro abre a porta para a solidariedade entre os integrantes da comunidade do kaereti, o que representa uma efetiva via de saída de uma crise econômica nascida da especulação financeira. Os membros da rede kaereti citam com frequência o prêmio Nobel de Literatura, Giorgos Seferis, que afirmou que, em um mundo cada vez menor, cada um necessita de todos os demais. Envolverde/IPS (FIN/2012)

 
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