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BRASIL
Obstetrícia moderna e parteiras, aliança necessária
Fabiana Frayssinet,

Rio de Janeiro, Brasil, 4/5/2012, (IPS) - Maria dos Prazeres de Souza perdeu a conta do número de nascimentos "sem nenhuma morte" que atendeu como parteira, ofício que atualmente se busca resgatar nas comunidades tradicionais do Brasil, onde o Estado não chega ou que sua ação não é de todo compreendida culturalmente.

Souza tem 74 anos e conta que até 2008 fez mil partos, tanto em Jaboatão dos Guararapes, onde mora, quanto no restante do Estado de Pernambuco e em outros vizinhos do Nordeste.

Embora reconheça a dor da mulher sempre que dá à luz, ainda continua se surpreendendo pela mudança da expressão do choro para o prazer. "A mulher em trabalho de parto sente dor, mas quando o bebê nasce sorri e chora de alegria", contou à IPS, ao recordar todas as lágrimas que ela mesma derramou na emoção de cada nascimento.

Esta parteira de origem indígena aprendeu o ofício por herança cultural. Sua mãe, a avó e a bisavó transmitiram a ela, desde criança, esse conhecimento e a prática. "No começo fazia partos de gatos, cães e outros animais, mas depois comecei a ajudar mulheres em suas casas", recordou. Mais tarde, fez um curso de enfermagem obstétrica e trabalhou em hospitais durante 20 anos. Agora, aposentada, continua atendendo partos em domicílio, às vezes "apenas por um abraço em troca", como muitas de suas colegas que trazem vidas nos rincões mais miseráveis do país.

"Não se pode negar que as tecnologias e práticas do modelo oficial de saúde trouxeram grandes avanços, mas devemos nos esforçar para associar e conseguir um equilíbrio entre o tradicional e o biomédico se quisermos garantir a saúde da mãe e da criança, não apenas física, mas mental e espiritualmente", disse Paula Viana, coordenadora do Programa de Parteiras do Grupo Curumim, em Pernambuco. Por seu conhecimento e sua experiência, as parteiras deveriam ser integradas e não excluídas do sistema de saúde, afirmou à IPS.

Este programa do Grupo Curumim demonstrou, entre outros benefícios, que as parteiras tradicionais contribuem para avaliar mais precocemente problemas da gravidez e que, como líderes naturais, ajudam em casos de mulheres violadas ou em campanhas de vacinação ou prevenção da aids. Seu trabalho ajudou no constatado aumento das consultas pré-natais nos serviços públicos, bem como em práticas saudáveis, como amamentação materna, e em ações terapêuticas leves, como massagens, banhos e contenção afetiva.

O Grupo Curumim, por ocasião do Dia Internacional da Parteira, amanhã, realizará uma campanha para valorizar o ofício das parteiras tradicionais entre os indígenas e em quilombolas, comunidades de habitantes dos antigos quilombos ou refúgios de escravos negros. A campanha também pedirá o reconhecimento do nascimento em domicílio assistido por parteiras tradicionais no Sistema Único de Saúde (SUS) e seu reconhecimento como "patrimônio imaterial". Para Viana, "as parteiras tradicionais são o elo entre a comunidade e os serviços de saúde.

Em muitos lugares onde não há médicos, são elas que atendem a população em geral, e outras vezes são a única ligação para levar um doente a hospitais ou postos sanitários de cidades próximas". Souza conhece muito bem esse isolamento de muitas comunidades rurais, da selva ou ribeirinhas. Já atendeu um parto no primeiro andar de uma casa ainda em construção, sem ainda ter escada, precisando subir por uma corda improvisada por dois policiais. "Depois do parto foi um trabalhão descer sozinha, porque um policial carregava o bebê e o outro a mãe", contou.

Dados do Ministério da Saúde mostram que cerca de 41 mil mulheres dão à luz anualmente em suas casas no Brasil, a maioria assistida por parteiras tradicionais. Contudo, as autoridades admitem que esse número pode ser maior. Apesar de oficialmente esse tipo de parto ser considerado dentro da promoção de políticas e projetos de saúde, "a realidade é que na maioria das vezes ocorrem em situação de exclusão e isolamento, e desarticulados do SUS", observou Viana.

Embora as parteiras "possam ensinar, mais do que aprender", como qualquer profissional de saúde devem ser capacitadas e contar com material adequado de transporte para urgências, destacou Viana. Souza acrescentou que muitas de suas colegas no país não têm direitos trabalhistas nem são reconhecidas por seu trabalho. "O governo tem que se preocupar com este assunto, principalmente em um país em que tivemos até um presidente que nasceu em casa com parteira", enfatizou, referindo-se ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), originário do Nordeste.

Viana enfatizou que "o risco é inerente ao processo obstétrico, independente de o parto ser na casa da mãe ou no hospital". No entanto, o perigo de uma complicação grave de saúde aumenta se "a parturiente não tem apoio destas parteiras tradicionais", explicou. Por isso, pede para "unir os dois modelos de atenção, o tradicional e o biomédico", especialmente para as comunidades isoladas. Para Souza, a gravidez é um "ato ecológico", mas "muitas mulheres colocam na cabeça que estão doentes ou não querem sentir dor e pedem cesariana". Estatísticas do SUS de 2008 mostram que metade dos três milhões de nascimentos registrados nesse ano foram por meio dessa cirurgia.

A mortalidade materna está em franca redução no Brasil desde 1990, quando apresentava 140 casos em cada cem mil nascidos vivos, índice que caiu em 2010 para 68 em cem mil, e já caminha para uma redução histórica. As principais causas dessas mortes são hipertensão, hemorragia e infecções pós-parto. Também caiu a mortalidade infantil até chegar a 15,6 em cada mil nascidos vivos, em 2010, 47% menos do que em 2000, segundo o último Censo.

Nesse contexto, Viana acredita que para melhorar é preciso considerar a diversidade da atenção obstétrica regional. "Na medida em a comunidade científica se esforça para estabelecer o modelo biomédico de saúde, mais do que nunca temos que analisar as consequências da natureza intervencionista e médica em excesso dessa escola de pensamento", alertou, diante da redução do número de parteiras tradicionais. É que, como diz Souza, "fomos abençoadas e continuamos sendo. A nossa é uma história milenar que tem de ser respeitada", ressaltou esta parteira das mais de mil vidas. Envolverde/IPS

(FIN/2012)

 
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