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CHINA
Mas, se move...
Clarissa Sebag-Montefiore

Pequim, China, 13/7/2012, (IPS) - A sociedade civil chinesa se lança cada vez mais em protestos de rua, apesar dos riscos, como forma de defender seus direitos e rechaçar funcionários corruptos ou excessivamente ambiciosos.

Dezenas de milhares de moradores da cidade de Shifang, na província de Sichuan, foram às ruas há alguns dias, enfrentando a polícia.

O protesto se tornou violento, os manifestantes atacaram veículos oficiais e escritórios do governo. Duas pessoas morreram, segundo a organização não governamental Defensores Chineses dos Direitos Humanos. Em um recuo incomum, o governo local anunciou que abandonava o plano de construir uma fábrica de cobre, que, segundo a população local, liberaria emissões altamente contaminantes. Das 27 pessoas detidas durante o protesto, 21 já foram liberadas.

Em dezembro do ano passado, o povoado de Wukan esteve na primeira página da imprensa internacional pelos protestos em massa contra funcionários locais que, de acordo com os manifestantes, roubavam suas terras. Após um impasse, estes foram removidos por seus superiores, e, em um fato surpreendente, a população obteve o direito de eleger suas próprias autoridades.

Em agosto de 2011, cerca de 12 mil pessoas protestavam contra uma fábrica de produtos químicos na cidade de Dalian, o que levou ao seu fechamento. Um mês depois, a população de Haining, na província de Zhejiang, protestou durante três dias contra uma fábrica de painéis solares que jogou lixo tóxico no rio e matou os peixes. Após este episódio, a unidade foi fechada.

"Informes oficiais registraram uma quantidade crescente de protestos nos últimos cinco anos", disse à IPS Michael DeGolyer, professor do Departamento de Estudos do Governo e Internacionais na Universidade Batista de Hong Kong. "A instabilidade social (a possibilidade de haver focos repentinos de comportamentos maciços cobrando mudanças estruturais) aumenta devido a numerosos fatores. Basta apenas um acontecimento, ou vários, para desatá-la", explicou.

O rápido crescimento dos meios sociais teve um papel significativo na maior conscientização cívica da população. Os microblogs serviram de inspiração para grandes concentrações de manifestantes. Os usuários, muitos dos quais nasceram depois da década de 1990 e têm conhecimentos técnicos, rapidamente divulgaram detalhes e imagens das mobilizações em todo o país, obrigando os governos locais a reagirem.

"Vejo a conscientização pública do povo chinês amadurecendo", observou Li Yonglin, de 19 anos, que viajou da cidade de Mianyang até Shifang para participar do protesto. "Há vários anos, quando o governo local decidia implantar um projeto prejudicial ao meio ambiente, a população suportava. A luta do povo de Shifang é apenas o começo. O ressentimento da população esteve por muito tempo reprimido", afirmou à IPS.

Li disse ter visto a polícia usando cassetetes para dispersar a manifestação. Quando a situação se deteriora, os policiais usam gás lacrimogêneo e granadas de atordoar. O rapaz tentou por muitas vezes divulgar pela internet o que vira, mas era apagado. A palavra "Shifang", que o governo não bloqueou, foi uma das mais buscadas nos microblogs da China. Os manifestantes compartilhavam detalhes dos incidentes na medida em que estes aconteciam, incluindo denúncias de desmandos policiais e o uso de gás pimenta.

Imagens de pessoas com o rosto e o peito ensanguentados, após serem atingidas pelas forças de segurança, se espalharam no blog Sina Weibo. Contudo, os comentários foram apagados desde então. "A respeito do incidente de Shifang, é culpa do governo", escreveu um usuário do Weibo chamado Skaterboy. "Caso se comunicassem bem, teríamos chegado tão longe? As pessoas são razoáveis, os policiais não são jagunços, o governo é que se equivocou", acrescentou.

O milionário piloto de automóveis, escritor e blogueiro Han Han escreveu um comentário sobre o ocorrido em Shifang, com grande repercussão. "A reclamação das pessoas no sentido de melhorar seu meio ambiente deve ser respeitada", afirmou. "Vocês, os dirigentes, mudam de tempos em tempos. Destroem o meio ambiente com lindos certificados de méritos. Se trabalham bem, são promovidos, se não, vão para a prisão. Os melhores emigram, os piores são mortos. Mas, nenhum de vocês vive na contaminação. Apenas as pessoas comuns", acrescentou.

"Graças à divulgação de informação, mais pessoas estão conscientes de seus direitos", disse Li Yonglin. "As pessoas traçaram uma linha entre elas e o governo. Já não acreditarão nos enlatados do governo e deixarão de segui-lo. Espero que a experiência de Shifang se propague. A China melhorará, pouco a pouco", ressaltou. Envolverde/IPS

(FIN/2012)

 
Terramérica - Meio Ambiente e Desenvolvimento
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