"Restituir a Vida" às Pessoas nos Bairros de Lata do Uganda
Andrew Green
KAMPALA, 19 de Julho, (IPS) - Logo que Sanyu Nagia se senta na casa de Barbara Namirimu, pede para ver o saco de medicamentos da sua paciente. É demasiado pesado para Namirimu, que está doente e, por isso, é a mãe, Efrance Namakula, que vai buscá-lo e o entrega.
O volumoso saco está cheio de medicamentos anti-retrovirais que mantêm o VIH de Namirimu sob contolo, de medicamentos anti-tuberculose para a curar desta doença, de morfina para aliviar a dor das lesões cutâneas que surgiram com o sarcoma de Kaposi (um tumor canceroso nos tecidos conjuntivos frequentemente associado à SIDA) e dezenas de outras pílulas de diversas cores.
Enquanto Nagia verifica os medicamentos para garantir que Namirimu tem estado a tomá-los de acordo conforme agendado, a sua paciente dá-lhe informações actualizadas da situação. Sente-se fraca e o seu apetite é fraco. O olho direito não abre completamente. Mas está bem disposta, ri-se e conta piadas. Diz a Nagia que tinha tido um sonho na noite anterior.
"Às vezes," disse Namirimu a Nagia, "nem acredito que a senhora seja real."
Nagia é trabalhadora de saúde comunitária junto dos Serviços Cuidados ao Domicílio de Kawempe (KHC). Esta organização está sediada no bairro de lata de Kawempe em Kampala, uma zona com uma das maiores sobrecargas de doenças na cidade, e cuida de quase 1.200 pacientes seropositivos nessa área que também recebem tratamento contra a tuberculose e o cancro.
Os 24 trabalhadores de saúde comunitária que trabalham para a organização visitam o bairro todos os dias, perguntando às pessoas se estão doentes e encorajando-as a procurarem orientações sobre o VIH e a fazerem a respectiva despistagem. A clínica também oferece medicamentos anti-retrovirais e outros medicamentos.
Também visitam pacientes como Namirimu, demasiado fracos para ter acesso ao tratamento nas suas instalações. Nagia visita a casa de Namirimu todas as terças-feiras desde que esta mulher de 26 anos se registou no KHC em Janeiro. Durante as visitas, Nagia recebe informações actualizadas sobre a saúde da sua paciente, ajuda nas tarefas domésticas e conversa.
Embora padeça de tuberculose, de VIH e de uma série de outras infecções que atacam o seu sistema imunitário enfraquecido, Namirimu afirmou saber que está a melhorar. Atribui esse facto ao KHC, especificamente a Nagia.
"Estava quase a morrer," disse à IPS. "Agora voltei à vida."
O KHC vai celebrar o seu quinto aniversário no próximo mês. Em 2007, iniciou o seu trabalho no sentido de ampliar a promessa do país de conceder acesso universal ao tratamento e realização de testes do VIH. Uma promessa que o subfinanciado sistema nacional de saúde, com um número insuficiente de pessoal, não tem conseguido cumprir.
O aconselhamento e os testes voluntários de VIH são gratuitos nas instalações de saúde do Uganda, assim como os medicamentos anti-retrovirais. Mas apenas cerca de 20 por cento dos Ugandeses sabem se são seropositivos ou não, segundo o relatório de progresso mais recente no país sobre VIH/SIDA. O estudo indicou que 6.7 por cento dos adultos com idades compreendidas entre os 15 e 49 anos eram seropositivos neste país da África Oriental sem acesso ao mar.
Quando os pacientes com VIH são inseridos no sistema governamental, que não dispõe de quase metade dos trabalhadores de saúde de que necessita, notam-se lacunas a nível do aconselhamento e tratamento.
Antes de um vizinho ter alertado o KHC acerca da condição de Namirimu como portadora de VIH, ela tinha obtido cuidados de saúde nos serviços governamentais. Os trabalhadores de saúde nestes serviços governamentais não a viam há quase um ano e não não tinham diagnosticado a sua co-infecção de tuberculose.
Oliver Namirimu (não pertence à mesma família) é directora do departamento comunitário do KHC. Ela disse à IPS que as pessoas que vivem na área abrangida pelo KHC têm acesso a três instalações governamentais de saúde, incluindo o hospital de referência nacional.
"Se não conseguem mexer-se, se já estão demasiado doentes.... não conseguem ir para o centro de saúde governamental," observou. "As organizações como Kawempe entram em cena para apoiar os serviços do governo."
No caso de Barbara Namirimu, ela nunca recebeu visitas de acompanhamento por parte do centro de saúde governamental e piorou gradualmente. Quando o KHC a encontrou, já estava demasiado fraca para se deslocar para qualquer lado.
Embora não haja uma base de dados nacional referente aos programas de trabalhadores de saúde comunitária, grupos como o KHC estão presentes no cenário de saúde. Mas, mesmo assim, não são suficientes para cobrir as lacunas no sistema de saúde do Uganda.
O governo formou e apoiou mais de 80.000 membros de grupos de saúde de aldeia desde 2002, mas prevê-se que eles lidem com uma série de problemas superficialmente. O programa do KHC centra-se especificamente no VIH, tuberculose e cancro, com pessoal médico habilitado para prestar assistência médica rápida.
No entanto, o trabalho que efectuam não pode ser realizado a baixos preços, o que dificulta a criação de organizações similares. O KHC consegue funcionar devido ao financiamento dos doadores e à contribuição de medicamentos por parte do governo. Oliver Namirimu explicou que ainda estão à procura de financiamento adicional para suplementar os subsídios que entregam aos trabalhadores comunitários - cerca de 33 doláres por mês, que exclui o custo de combustível.
O serviço que oferecem é crucial em áreas como Kawempe e outras zonas urbanas sobrepovoadas. Pode ser igualmente importante nas zonas rurais que têm um acesso muito mais limitado aos serviços de saúde. Os programas dos trabalhadores de saúde comunitária têm capacidade para levar a cabo o trabalho mais difícil de acompanhamento dos pacientes mais distantes ou esporádicos.
A área de Kawempe, repleta de barracas baratas e temporárias, é exemplo de uma das zonas provisórias de Kampala, cheias de residentes que tentam mudar para zonas mais seguras quando têm mais dinheiro ou quando se sentem melhor.
Durante uma recente visita à comunidade, a barraca da primeira paciente de Nagia nesse dia estava encerrada e vedada com tábuas. O homem que ali tinha vivido era seropositivo e só tinha feito o seu tratamento contra uma co-infecção de tuberculose de forma parcial. Agora Nagia terá de tentar encontrá-lo e convencê-lo a concluir os medicamentos receitados ou arriscar-se a desenvolver uma estirpe da doença resistente ao medicamentos.
O grupo falou com alguns vizinhos, a quem pediu que lhes telefonassem caso o paciente voltasse a aparecer. Mas o grupo ainda tem de visitar mais oito pacientes e não quer perder muito tempo à espera que ele regresse.
"Ele sabe que (não vamos desistir) dele," disse Aidah Nanozi, uma médica que acompanha Nagia.
É um trabalho difícil. O ritmo da agenda dos trabalhadores de saúde comunitária pode levar ao esgotamento, afirmou Oliver Namirimu do KHC.
"Vêem um paciente a morrer e depois outro, enquanto que outro paciente não quer tomar os medicamento e outro não os quer ver. Portanto, às vezes desistem."
Mas isso não acontece muitas vezes, acrescentou. Os conselheiros do KHC existem para dar apoio aos trabalhadores de saúde comunitária e falar das dificuldades do seu trabalho.
Ben Kaboro disse à IPS que, duas semanas após começar a fazer este trabalho, é que compreendeu o desgaste que ele pode provocar.
Antigo paciente do KHC, explicou que a combinação de VIH e tuberculose o tinha deixado "na cama" e "causado muita perturbação." A sua experiência como voluntário do KHC, a organização que tratou dele até melhorar, fez com que quisesse ajudar outros da mesma forma.
Agora acompanha Nagia antes de começar a trabalhar sozinho.
"Não quero ver os outros a passar por aquilo que passei," afirmou.
(FIN/2012)
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