67 minutos de vergonha no aniversário dos 94 anos de Nelson Mandela, ícone Sul-Africano
Jedi Ramalapa
Joanesburgo, 23 de agosto, (IPS) - Wendy Hlophe* ainda está visivelmente entristecida com a morte da sua amiga de longa data, Sanna Supa, de 28 anos, que foi assassinada a tiro fora de casa em Braamficherville, uma cidade sul-africana.
Hlophe culpa-se a si própria pela morte inesperada de Supa. Supa, uma lésbica que tinha tornado pública a sua identidade sexual há três anos, era uma das poucas mulheres lésbicas que assumira publicamente a sua identidade a residir naquela na cidade.
Era administradora escolar no Liceu de Snake Park em Dobsonville, no Soweto, e foi assassinada quando parava o seu carro à porta de casa no dia 1 de Julho.
Hlophe disse à IPS que se sentia responsável pela morte de Supa porque era conhecida como lésbica na sua cidade e que tinha apoiado Supa quando esta revelara a sua identidade publicamente. Supa receia que o facto de serem amigas pode ter levado Supa a ser vista como um alvo.
"Crescemos na mesma rua e muitas vezes as pessoas viam-nos juntas," contou à IPS.
"Fiquei chocada e não podia acreditar que ela tinha morrido. Era uma pessoa muito boa," acrescentou.
Na altura da morte de Supa, o Fórum para a Autonomização das Mulheres (FEW) referiu que o motivo do crime se baseava na identidade sexual da vítima, uma vez que nem o seu veículo nem os seus pertences tinham sido roubados.
"Será que somos as únicas pessoas neste país que falamos destas mortes ... as pessoas que são assassinadas não são suficientemente humanas ou cidadãos de pleno direito?" perguntou a FEW num comunicado emitido na altura.
O crime certamente que não é algo de novo na África do Sul. Supa é uma das 10 lésbicas que foram mortas em toda a África do Sul no último mês devido à sua identidade sexual, afirmou Jabu Pereira, activista dos direitos humanos e do género. Os homossexuais são vitimizados diariamente em toda a África do Sul.
Em Fevereiro, quatro homens sul-africanos foram condenados a penas de 18 anos por terem apredejado e esfaqueado até à morte em 2006, Zoliswa Nkonyana, uma adolescente lésbica de 19 anos que tinha assumido abertamente a sua identidade sexual. A violência contra as lésbicas é comum num país com elevados indíces de "violações correctivas" cometidas por homens que acreditam que podem "curar" as lésbicas da sua orientação sexual.
Portanto, quando o aniversário que marcou os 94 anos do primeiro presidente eleito democraticamente na África do Sul e ícone mundial teve lugar no dia 18 de Julho, os activistas que defendem os direitos dos homossexuais afirmaram que não tinham nada a celebrar.
E os 67 minutos que os Sul-Africanos são encorajados a contribuir para um serviço comunitário neste dia, símbolo dos 67 anos que Mandela passou a lutar pela liberdade do seu povo, foram considerados um falhanço.
Os activistas do género e as organizações de direitos humanos apelidaram o aniversário como um dia de vergonha para o governo sul-africano e o Congresso Nacional Africano (ANC) no poder, do qual Mandela ainda é membro, devido à incapacidade de impedirem crimes de ódio contra as pessoas lésbicas, homossexuais, bissexuais e transexuais (LGBT).
Os activistas acusaram o actual governo de ter virado as costas a tudo o que o Presidente Mandela defendeu, durante uma manifestação pacífica nos Jardins da Biblioteca no centro da cidade de Joanesburgo no dia 18 de Julho.
Mais de cem pessoas LGBT e várias organizações civis e de direitos humanos juntaram-se para protestar contra a crescente violência, violação, intolerância e falta de resposta por parte do governo para resolver este problema. Referiram que o silêncio do governo, no meio da crescente onda de crimes de ódio, tinha exacerbado a situação.
"Temos vergonha dos nossos líderes e estamos fartos do seu silêncio," disse Pereira, referindo-se à falta de resposta do governo.
Os organizadores dos protestos também condenaram os comentários homofóbicos feitos por um membro do ANC no parlamento, Nkosi Patekile Holomisa, depois da apresentação de um documento apresentado pela Câmara dos Líderes Tradicionais e entregue ao Comité de Revisão Constitucional do parlamento, que propõe a eliminação das cláusulas constitucionais que protegem as pessoas da discriminação com base na sua orientação ou identidade sexual.
Holomisa é um advogado que trabalha no Tribunal Supemo, líder tradicional, presidente do Comité de Revisão Constitucional e ainda presidente do Congresso dos Líderes Tradicionais da África do Sul.
Holomisa disse igualmente numa entrevista em Maio de 2012: "O ANC sabe que a grande maioria dos Sul-Africanos não quer promover ou proteger os direitos dos homossexuais ou lésbicas." Na entrevista, afirmou que não iria retrair os seus comentários, acrescentando que "Na região de onde venho, estas coisas não são apoiadas nem aceites."
Contudo, o partido no poder distanciou-se destas opiniões. "O ANC acredita que qualquer lei que recusa às pessoas o seu direito de expressão sexual as desvaloriza na nossa sociedade abrangente e, como tal, é uma afronta à sua dignidade e uma violação do Artigo 9° da nossa Constituição."
Entretanto, Wandile Ntubeni* sentou-se perto dos Jardins da Biblioteca a ver o grupo de manifestantes a cantar e a dançar na praça.
Ntubeni, de 35 anos e com três filhos, afirmou que o que ouvira sobre a discriminação e a violência contra os homossexuais o deixara aborrecido. É trabalhador migrante do Cabo Oriental onde, segundo afirma, não tinha contacto com homossexuais e lésbicas. Disse ainda à IPS que era errado o governo continuar a manter o silêncio sobre esta questão.
"Culpo o governo, precisa de desempenhar um papel de liderança no debate sobre como resolver a questão e ajudar-nos a compreender como devemos lidar com este problema. Algumas coisas só podem ser aceites se o governo ou o partido no poder nos der liderança."
O próprio Ntubeni não conseguiu explicar a razão porque o assassinato violento parece ser a única resposta que alguns dirigem contra as lésbicas.
"As pessoas têm o direito de decidir o que querem fazer com o corpo," concluiu.
Quando falava, a directora do Projecto de Igualdade dos Homossexuais e Lésbicas, Virginia Setshedi, orientava os manifestantes que protestavam para os escritórios do ANC, em local directamente oposto aos Jardins da Biblioteca.
"Já chega!" gritou a alguns funcionários do ANC, incluindo polícias, que estavam de costas para as paredes do prédio. Alguns troçavam enquanto que outros davam risadinhas e murmuravam "Isto é uma perca de tempo", quanto ela leu as exigências dos manifestantes, que apelaram ao governo que quebrasse o seu silêncio sobre esta questão.
"Isto não é uma brincadeira!" gritou ela com a voz a fraquejar. "Isto é uma questão de vida ou de morte e nós não vamos desaparecer."
O director eleitoral do ANC, Mandla Dlamini, recebeu o memorando e afirmou que o partido iria examinar o documento e formular uma resposta a seu devido tempo.
Entretanto, a tragédia do tratamento frequentemente violento e humilhante das pessoas LGBT na África do Sul continua a ser uma dura realidade.
E a morte violenta de Supa é algo que Hlophe não vai esquecer.
"Era como uma irmã para mim e continuo a não conseguir falar com a mãe," disse quase a chorar.
"Ela estava contente quando veio visitar a mãe," acrescentou.
Uma vigília nocturna teve lugar no dia 18 de Julho no museu da Prisão das Mulhere,s no Tribunal Constitucional, em Joanesburgo.
Foi a altura de relembrar todos aqueles que foram assassinados violentamente durante crimes de ódio entre 2001 e Julho de 2012:
Ivan Johannes,
Zoliswa Nkonyana,
Madoe Mafubedu,
Simangele Nhlapho,
Sizakele Sigasa,
Salome Massoa,
Thokozane Qwade,
Waldo Bester,
Eudy Simelane,
Khanyiswa Loyi Hani,
Desmond "Daisy" Dube,
Neil Daniels,
Sibongile Mphelo,
Girly S'Gelane Nkosi,
Noxolo Magwaza,
Nqobile Khumalo,
Pessoa não identificada,
Nontsikelelo Tyatyeka,
Pessoa não identificada,
Thapelo Makhutle,
Phumeza Nkolozi,
Sasha Lee Gordon,
Andrithat Thapelo Morifi,
e Sanna Supa.
* Alteraram-se os nomes para proteger a identidade das pessoas
(FIN/2012)
|
|
|