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AMÉRICA CENTRAL
Tijolo a tijolo, fomos construindo a paz
Oscar Arias Sánchez*

San José, Costa Rica, setembro/2012 , (IPS) - No dia 12, o governo da Costa Rica estará comemorando 25 anos da assinatura do Acordo de Esquipulas II, que devolveu a paz à América Central ao acabar com um conflito bélico que se prolongou durante 30 anos.

O acordo foi assinado por todos os países centro-americanos.

O ser humano abrigar a prodigiosa virtude da memória é muito mais que um capricho poético da história. É um sinal evolutivo e talvez uma das mais cruciais habilidades da espécie que abandonou o abrigo das cavernas para empreender a maravilha da civilização. Não lembramos para encher as caixas dos arquivos, nem para povoar os contos dos avós. Recordamos para tornar possível uma vida melhor. Isto é, a memória tem sentido com referência à atualidade: nos dá uma vantagem sobre o tempo anterior. A lembrança não é escrivã do passado, mas assessora do futuro.

Pode ser que esta data passe despercebida para milhões de jovens centro-americanos. Isto, mais do que um descuido, é um privilégio. Ser incapaz de reconhecer o tremor da terra estremecida pela passagem de um tanque é um privilégio. Jamais ter sentido o cheiro de sangue trazido pelo vento é um privilégio. Desconhecer o gosto da pólvora, a cor da morte, o choro que se ouve atrás da parede do vizinho é um privilégio. Talvez a importância deste dia possa ser entendida somente em termos de ausências: os soldados que já não morrem, as famílias que já não fogem, os navios que já não trazem ninhos de metralha.

Para os que unicamente conhecem a América Central de nossos dias, seria difícil acreditar nas histórias contadas pelos milhões de refugiados que cruzavam as fronteiras em meados da década de 1980. Povos aniquilados por mãos irmãs, com armas norte-americanas ou soviéticas. Bases de treinamento secretas, onde rapazes que apenas compreendiam as razões da guerra se formavam no ódio e na violência. Um conflito convertido em uma contenda pela preeminência militar de duas superpotências, cujas ambições extenuavam os esforços pela paz promovidos no contexto do Grupo de Contadora (Colômbia, México, Panamá, Venezuela) e do Grupo de Apoio (Argentina, Brasil, Peru, Uruguai), esforços que ao fracassarem deram espaço para que a Costa Rica propusesse o também chamado Plano de Paz.

Foi em meio a este redemoinho de angústias que o povo da Costa Rica emitiu seu voto, em fevereiro de 1986. A guerra centro-americana havia sido um tema central da campanha eleitoral. Era cada vez mais evidente que nosso país não poderia permanecer muito tempo à margem do conflito na região. A disjuntiva era tão crua quanto franca: ou a Costa Rica pegava em armas ou deveria colocar todo seu empenho em alcançar a paz.

Uma e outra vez insisti que a paz centro-americana era parte essencial da agenda de desenvolvimento costarriquenho. Nenhuma iniciativa no interior do país poderia compensar o caos em que nos encontrávamos imersos. Isto é algo que ainda hoje é difícil de entender para alguns: a política exterior não é um atavio com que se adorna a conveniência das nações. A diplomacia é parte essencial do esforço de um governo para construir um futuro mais digno para seu povo. Assim entenderam os costarriquenhos e esse foi o mandato que recebi ao vencer as eleições.

Minha intenção foi propor um plano de paz que reiniciasse o diálogo e promovesse uma solução centro-americana para o conflito. O documento continha dez ações prioritárias, uma das quais dizia textualmente: "simultaneamente com o início do diálogo, as partes beligerantes de cada país suspenderão as ações militares". A tendência mundial em solução de conflitos, nessa época e ainda agora, pretende que as negociações aconteçam precisamente para conseguir o cessar-fogo. O Plano de Paz para a América Central, pelo contrário, propunha o cessar-fogo como uma das condições necessárias para poder dialogar sem pressões, em um ambiente verdadeiramente propício para uma paz duradoura.

O cessar-fogo servia, então, como abertura da paz. Seu leitmotiv, por outro lado, era a democratização da região. Este foi o ponto de distinção do acordo e, em última instância, sua característica decisiva. O governo norte-americano via com simpatia o estabelecimento de um regime democrático como uma condição indispensável para alcançar uma paz duradoura, mas insistia que a única saída para o conflito emanaria do enfrentamento armado entre os Contra nicaraguense e o governo sandinista.

O governo da União Soviética e o regime cubano, por outro lado, rechaçaram desde o princípio a proposta costarriquenha de incluir o estabelecimento da democracia dentro do acordo. Não havia ponto de encontro, já que tanto Ronald Reagan quanto Mikhail Gorbachov desconfiavam da via diplomática. Para eles, a paz esperava atrás de um extenso campo de batalha.

Como conseguimos aprovar um plano que era objetado pelas nações mais poderosas do mundo? Se tivesse que mencionar uma única característica que então compartilhamos, os cinco presidentes centro-americanos, seria um profundo senso de responsabilidade histórica. A capacidade de reconhecer que aquele não era um pulso de poder, mas um ato da mais elementar humanidade. O destino de milhões de pessoas pendia de nossa disposição para dialogar, de nossa vontade para transigir, e de nossa convicção de um futuro de paz para a América Central.

O acordo que alcançamos na Cidade de Guatemala, no dia 7 de agosto de 1987, foi apenas um passo na luta para conseguir que se respeitasse a vontade centro-americana. A implantação do Plano de Paz foi espreitado por facões em busca do fracasso. Mas já havíamos colocado a pedra fundamental, e contávamos com o apoio da comunidade internacional. Tijolo a tijolo, fomos construindo uma paz que ainda necessita de arquitetos e pedreiros.

Nestes dias a América Central celebra um acordo, mas também atiça os carvões de um sonho que ainda construímos como uma espécie. A pretensão que formularam os gregos e que recordou Robert Kennedy no dia da morte de Martin Luther King Jr.: domar a selvageria do homem e tornar agradável a vida neste mundo. Envolverde/IPS

* Oscar Arias Sánchez, ex-presidente da Costa Rica (1986-1990/2006-2010) e Prêmio Nobel da Paz em 1987. (FIN/2012)

 
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