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Lenta ajuda médica para as crianças 'atormentadas' do Uganda
Henry Wasswa

KAMPALA, 10 de outubro, (IPS) - Na terra molhada cheia de fruta fresca proveniente de uma grande mangueira na aldeia de Tumangu, no norte do Uganda, Betty Olana (42) senta-se num tapete de papiro e toma conta de quatro crianças macilentas infectadas com o misterioso síndroma de abanar a cabeça que deixa as vitímas mentalmente deficientes e a abanar a cabeça repetidamente quando vêem comida ou água fria.

Uma delas é a sua filha, Joyce Laram (15), que se senta com a boca aberta com saliva a escorrer pelo queixo. As crianças doentes raramente falam e, quando o fazem, emitem palavras ininteligíveis apenas compreendidas pelos pais.

"Na maior parte das vezes é à noite, quando a lua está visível, que ela delira. Dificilmente consegue dormir à noite. Grita de repente e por isso temos de amarrá-la. Agora está a dizer: 'Estou a ver fantasmas. Os fantasmas estão aqui. Estou a vê-los com os meus próprios olhos. Por favor protejam-me." Olana disse à IPS que a filha era completamente normal até aos 10 anos.

As vítimas desta condição neurológica inexplicável apresentam numerosos sintomas, incluindo abanar a cabeça continuamente, atraso mental, epilepsia, erupções cutâneas e mãos trémulas. Muitos dos infectados também sofrem de subnutrição visto que as suas convulsões são desencadeadas pela comida.

"No início começou a abanar a cabeça. Há muito tempo que toma medicamentos (para a epilepsia). Os médicos dizem que é epilepsia, mas eu acho que não. Penso que esta criança, tal como acontece com as outras na aldeia, é atormentada pelos espíritos dos mortos," disse Olana.

Os especialistas de saúde afirmam que a doença não é contagiosa. Mas os cientistas sabem pouco acerca desta doença fatal que não tem cura e que apareceu primeiro na Tanzânia na década de 60. O governo do Uganda calcula que desde Janeiro já morreram 200 crianças com esta doença.

As crianças têm de ser vigiadas constantemente porque algumas já cairam em fogos e rios, enquanto que outras foram comidas por animais selvagens. Alguns pais amarram os filhos às árvores ou fecham-nos à chave quando têm de trabalhar nos campos ou ir ao mercado. Mas muitos foram abandonados.

Agora, os pais e os trabalhadores humanitários no norte do Uganda, onde o 'síndroma de abanar a cabeça' é prevalecente, estão furiosos pelo facto de o governo não fazer o suficiente para combater a doença.

A região ficou devastada pela guerra contra os rebeldes do Exército de Resistência do Senhor (LRA), dirigido por Joseph Kony. Foi um dos conflitos mais longos em África, que começou em 1978 e passou para o vizinho Sul do Sudão e para a República Democrática do Congo.

O LRA foi acusado de abusos de direitos humanos, incluindo o rapto de 20.000 crianças, o assassinato de quase 100.000 civis, mutilação, escravatura, tortura e violação.

O 'síndroma de abanar a cabeça', que afecta principalmente crianças entre os três e os 18 anos, foi oficialmente referido pela primeira vez no distrito de Kitgum, no norte do Uganda, em 2008.

Mas agora espalhou-se a quatro outros distritos vizinhos. Uma organização de caridade, o Fórum Kitgum NGO, que foi a primeira a anunciar o surto epidémico na área, estima que quase 5.000 crianças estejam infectadas com a doença, mas os funcionários de saúde governamentais dizem que só existem 3.200.

Na aldeia de Tumangu, localizada numa planície pontilhada com arbustos espinhosos, mangueiras e jardins com mandioca, virtualmente cada lar tem uma criança com o 'síndroma de abanar a cabeça'.

Alguns pais em Tumangu, que se sentem divididos entre repartir o seu tempo a trabalhar nas suas pequenas explorações agrícolas de subsistência ou cuidar dos filhos, criaram uma rede comunitária onde as pessoas se revezam para supervisionar os grupos de crianças infectadas.

Isto tornou-se cada vez mais necessário porque tem havido relatos de casos de abuso sexual de raparigas com o 'síndroma de abanar a cabeça'.

Gladys Laker, que dirige o Fórum Kitgum NGO, afirmou que, apesar do governo ter intervindo para conter a doença na área no final do ano passado, "a atenção dedicada ao 'síndroma de abanar a cabeça' está a diminuir e agora vemos vítimas do sexo feminino a serem violadas."

"Temos informação de um relatório recente que indica que as raparigas doentes foram abusadas sexualmente e ficaram grávidas. Os homens aproveitam a condição destas crianças para as violar," disse Laker à IPS.

"Embora estas crianças estejam doentes, as que não estão completamente dominadas pelos sintomas da doença são encorajadas a ir à escola. E é nessa altura que os homens as atacam. Os pais não as podem vigiar a toda a hora e, quando vão trabalhar nos campos, algumas destas crianças são abusadas sexualmente," contou.

A situação deixou William Owacha preocupado com o futuro da filha de 17 anos, Susan.

"Isto é grave," disse, referindo-se aos incidentes de violação. "O governo devia tomar conta da situação rapidamente porque isto é negligência."

"Estou preocupado porque ela não tem futuro. A Susan agora é inútil. Não consegue comunicar adequadamente, não tem apetite, contempla sempre o vácuo de forma abstracta e de repente cai no chão. Não é uma pessoa normal. A situação aqui é alarmante porque os nossos filhos estão cada vez mais infectados. Aqui na aldeia de Lameiti (no norte do Uganda), nós, os pais, choramos," disse Owacha.

Mas a Directora-Geral dos Serviços de Saúde do Uganda, a Drª Jane Achen, disse à IPS que o número de casos de violação era mínimo

"Ouvimos falar de alguns casos. Mas não são incidentes generalizados e não devem causar alarme porque serão resolvidos," declarou.

Rejeitou as alegações que o governo não estava a fazer o suficiente para combater a doença. A Drª Achen disse à IPS que no início de 2012 o governo disponibilizou 1.4 milhões de dólares para a aquisição de medicamentos contra a epilepsia, suplementos contra a subnutrição e alimentos para as vítimas. O governo planeava disponibilizar mais 1.6 milhões de dólares, acrescentou.

A Drª Achen disse ainda que o Ministério da Saúde tinha criado quatro centros de recepção regionais para pacientes e planeava construir instalações de reabilitação para cuidar das crianças com atraso mental.

"As infecções não têm aumentado e o número é 3.200. Fizemos tudo para conter a disseminação da doença e cuidar das vítimas. O resultado é que as pessoas estão sensibilizadas para esta doença e avisam as autoridades logo que um caso suspeito aparece," referiu.

Yeko Lupa, que chefia o Grupo Operacional do'Síndroma de Abanar a Cabeça' em Kitgum, disse à IPS que estavam a ser envidados esforços para proteger as crianças doentes.

"Os pais deixam as crianças em casa e os bêbados aproveitam-se delas e violam-nas. Conheço três raparigas que foram abusadas sexualmente e que ficaram grávidas, e duas já deram à luz," disse Lupa.

"Estamos a tentar resolver este problema - a sensibilizar as pessoas para não abusarem das crianças. Não é fácil porque não conseguimos descobrir quem são os homens que fazem isto. As reparigas não sabem quem é que as (violou) porque têm uma memória muito fraca," disse.

Entretanto, parece que há provas de uma ligação entre o 'síndroma de abanar a cabeça'.e a oncorcecose ou 'doença da cegueira dos rios'. A 'doença da cegueira dos rios' é uma doença dos olhos e da pele que se propaga através da mosca-negra. Os especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Centro de Controlo das Doenças dos Estados Unidos fizeram testes em amostras das vítimas, na sequência de um pedido de ajuda apresentado pelo governo do Uganda no ano passado.

O Director da OMS no Uganda, Dr Joachim Saweka, disse à IPS que, apesar dos testes não serem conclusivos, existem provas de uma ligação entre as duas doenças. Há anos que a 'doença da cegueira dos rios' se propaga rapidamente no norte do Uganda em áreas localizadas ao longo das margens dos rios.

"Noventa e três por cento dos casos do'síndroma de abanar a cabeça' ocorrem em áreas ao longo das margens dos rios onde a 'doença da cegueira dos rios' é comum. Temos casos que demonstram uma forte ligação entre esta doença e a 'doença da cegueira dos rios', mas não estabelecemos uma ligação neurológica. As investigações continuam," afirmou Saweka.

(FIN/2012)

 
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