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Silêncios cubanos
Leonardo Padura*

Havana, Cuba, outubro/2012, (IPS) - Pela chamada "intranet" cubana, composta por vários sites e um sistema que dá acesso a correio eletrônico sem comunicação com a internet, circulam nas últimas semanas a caricatura do homem que se apresenta nos escritórios de emigração pedindo para validarem seu passaporte para viajar "livre" ao estrangeiro.

Mas o cubano da caricatura não conseguirá seu propósito porque, na realidade, é vítima da soma de uma esperança e de uma confusão: a esperança de que a anunciada reforma da lei migratória cubana seja finalmente executada, como várias vezes anunciou o governo da ilha, e a confusão da palavra "sal" (o popular cloreto de sódio) com a ação de "salir" (sair).

Como parte da chamada "atualização do modelo econômico cubano" empreendido pelo atual governo de Raúl Castro, se contempla a probabilidade de uma "flexibilização" das condições exigidas da maioria dos cubanos para viajar. Embora a flexibilização tenha sido anunciada como uma modificação "com reservas", isto é, mudanças parciais e não totais, o que equivalerá (suponho) a cidadãos que poderão viajar e outros que não, sua implantação é adiada.

Um reflexo dessa preocupação por migrar também é o grupo de cartas circuladas por essa mesma "intranet", a partir da escrita pelo diretor de uma importante revista sociocultural a um hipotético, mas muito rico, jovem cubano que deseja emigrar, a qual é respondida por cartas de jovens reais que emigraram, que desejam emigrar e até de quem não quer emigrar, nas quais estes membros das mais recentes gerações expõem os diversos argumentos e inconformidades que os levam, os levarão ou poderão levá-los a deixar o país.

O fato de a circulação destas cartas e caricaturas ocorrer pela "intranet" cubana continua sendo o resultado da dificuldade ou impossibilidade que representa para a maioria dos habitantes do país o acesso à internet.

O complicado da situação atual é que se supõe que há meses deveria estar funcionando o cabo de fibra ótica estendido da Venezuela até Cuba, que multiplicaria por vários milhares a capacidade e velocidade das conexões na rede. Mas o estado desse cabo, ou da decisão governamental de como será, ou seria, sua utilização, tampouco é comentado nos meios oficiais. Como se o cabo, mais do que estendido no mar, tivesse sido devorado pelo mar.

Enquanto isso, o propósito da nova lei de aduanas, vigente desde o dia 3 de setembro, que limita ou encarece a capacidade de importação dos viajantes ou dos volumes enviados desde o exterior, tampouco se falou mais, a não ser para comentar que as novas medidas agilizarão os trâmites aduaneiros.

Porém, muitas pessoas consideram que a lei as afetará de maneiras muito concretas, pois quase tudo o que antes importavam a preços menores agora aumentará quando tiverem de pagar em moeda forte, isto é, uma moeda à qual tem acesso muito difícil, ou nenhum, a maior parte da população de um país onde o salário médio é de 440 pesos (cerca de 16 euros) e o quilo do importado ou recebido acima das cotas agora estabelecidas pode ser cobrado a nove euros o quilo.

Igual silêncio cerca a nova lei tributária aprovada pelo parlamento cubano há cerca de dois meses e da qual nem mesmo os funcionários dos escritórios tributários têm uma ideia clara de seu conteúdo, pois foi ratificada mas ainda não publicada.

Não foi por acaso, neste clima de silêncios oficiais com relação a leis, medidas, investimentos que afetam a maioria da população cubana e das quais só nos chegam boatos, um sociólogo do país ter colocado para circular nessa mesma "intranet" um comentário em que qualifica a imprensa oficial de Cuba de deficiente, esquemática, sigilosa e insípida (no que concorda com um julgamento feito pelo próprio presidente Raúl Castro).

O curioso é que por essa mesma via digital local outras vozes se levantam para considerar que aqueles que escrevem sobre os problemas do país fazem o jogo do "inimigo". Esta reivindicação da atitude de trincheiras e a linguagem de guerra, que chega à acusação de mercenarismo, procura desqualificar qualquer descontentamento por parte dos que (a meu ver) têm o direito, no mínimo, de se sentirem descontentes e, se podem, expressar minimamente os motivos de sua insatisfação com os modos como são aplicadas (ou não aplicadas, ou adiadas) as regras de jogo com que devemos conviver todos os que, pela razão que for, decidimos "não emigrar" e pensamos que deveríamos ter direito de estar melhor informados sobre o que muito nos diz respeito... Ainda que seja pela "intranet". Envolverde/IPS

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas, e sua obra mais recente, O Homem que Amava os Cães, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ramón Mercader. (FIN/2012)

 
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