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Poligamia, Mentiras e Disparidade do Género no Senegal
Issa Sikiti da Silva

DAKAR, 02 de novembro, (IPS) - Fatou (40), Awa (32) e Aissatou Gaye (24) estão sentadas com uma atitude meditativa no chão ladrilhado no exterior da sua casa matrimonial em Keur Massar, cidade dormitório nos arredores da capital senegalesa, Dakar.

"Estas são as minhas três mulheres e brevemente vou ter uma quarta de acordo com a lei islâmica," gaba-se Ousmane Gaye (50), um homem de negócios com interesses comerciais nesta nação da África Ocidental e também no vizinho Mali e na Gâmbia.

"Como podem ver, elas gostam umas das outras e vivem em harmonia e paz como três irmãs," afirmou. Mas a paz e a harmonia têm um significado estranho no vocabulário de Ousmane Gaye.

"Na noite passada, Fatou e Awa espancaram Aissatou repetidamente e insultaram-na," disse uma fonte da família à IPS sob condição de anonimato.

"Acusaram-na de ter enfeitiçado o marido e de o fazer amá-la muito. De facto, quando o senhor entrou, preparava-se para as censurar. Falando honestamente, desde que Ousmane trouxe Aissatou para casa há três anos, o seu lar não conhece a paz e o sossego.

As mulheres estão proibidas de falar com estranhos, incluindo vizinhos, activistas de direitos das mulheres ou conselheiros matrimoniais, sobre problemas matrimoniais. Também não podem protestar desnecessariamente desde que tenham "tudo", o que inclui alimentos, roupas e sexo.

A actividade sexual na casa deste polígamo consiste em Ousmane Gaye passar duas noites por semana com cada mulher. O domingo é dia de descanso ou o dia "quando não há sexo" para o homem, que procura constantemente medicamentos tradicionais para satisfazer as três esposas.

"Este é o modo de vida no Senegal," afirmou Adama Kouyate, proprietário de um cibercafé no bairro de classe média de Golf Sud. Há dois anos, Kouyate "herdou" a mulher e os seis filhos do seu falecido irmão. Acabou de ter um filho com a mulher do falecido irmão, aumentando o número de crianças sob a sua responsabilidade o para 14.

"Isto nada tem a haver com o Islão, mas é a nossa cultura e um dia um dos meus irmãos também vai herdar a minha mulher e os meus filhos depois de eu ter morrido. E nenhuma mulher tem o direito de se opor a este estado de coisas porque será amaldiçoada para o resto da vida," disse ele em Wolof , a língua mais falada em Dakar.

Animata*, uma mulher de Dakar que dá aconselhamento e orientação secretamente a mulheres casadas, afirma: "A poligamia é uma forma de escravatura moderna, acreditem em mim, não é tão fácil como parece. As mulheres envolvidas neste tipo de casamento não têm voz e não têm nenhum canal qa ue possam recorrer para se queixar."

Rokhaya*, licenciada universitária de 23 anos que no início deste ano foi obrigada a casar com um homem rico de 48 anos, concorda: "A poligamia é um inferno e um monte de mentiras."

"Olhem para mim, sou jovem e deveria estar a fazer coisas que a maior parte das raparigas com a minha idade faz. Tinha sonhos e aspirações de ser proprietária de uma pequena companhia e de viajar pelo continente. Tudo isso parou devido a este casamento artificial."

"Estou presa e sinto que estou a ficar louca porque este homem rico e analfabeto não me deixa realizar os meus sonhos," disse a chorar.

Daya* afirma que quer continuar a estudar mas tem medo que o marido não o permita. Deixou de ir à escola na sétima classe aos 15 anos, quando foi entregue em casamento a um primo, um clérigo muçulmano. Agora tem 30 anos e sete filhos.

Aminata, uma divorciada que esteve envolvida num casamento polígamo durante 18 anos, afirma que a poligamia viola o princípio da igualdade, promove a disparidade do género e compromete o progresso das mulheres na sociedade. "E está a ficar pior no Senegal," aponta.

"Em virtualmente todos os sectores da vida aqui no Senegal - quanto a questões de herança, envolvimento em negócios e acesso à terra e à educação - as mulheres estão a ficar para trás, apesar da nossa constituição assegurar a igualdade entre os homens e as mulheres.

De acordo com o Índice Global da Desigualdade do Género produzido pelo Fórum Económico Mundial desde 2006, o Senegal ocupa o 102° lugar de um total de 134 países. O índice mede a posição das mulheres relativamente aos homens nas áreas de participação económica e oportunidade, nível educativo, capacitação política, saúde e sobrevivência.

E o país encontra-se na 108ª posição de um total de 155 países quanto ao Índice de Desenvolvimento Ajustado ao Género, incluído no Relatório de Desenvolvimento Humano produzido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

O relatório da "Avaliação do Género USAID-Senegal de 2010" (http://senegal.usaid.gov/sites/default/files/2010%20USAID%20Senegal%20Gender%20Assessment.pdf), publicado em Abril de 2012, aponta igualmente para a continuação de disparidades do género em muitas áreas neste país.

"Refere-se com regularidade que a implementação das diversas leis nacionais e internacionais referentes à igualdade do género e aos direitos das mulheres é fraca e que o governo não tem um plano adequado para cumprir as suas políticas," diz o relatório da USAID.

Segundo o relatório, 39 por cento das raparigas no Senegal com idades compreendidas entre os 20 e os 24 anos já estavam casadas aos 18 anos, estando o país no 27° lugar de um total de 68 países inquiridos quanto à questão do casamento das raparigas antes dos 18 anos.

A maioria dos jovens do sexo masculino entrevistados na Place de l'Independance, no centro da cidade de Dakar, afirmam que escolherão a poligamia quando estiverem prontos para o casamento.

Lamine Camara, de 22 anos e estudante na Universidade de Cheik Anta Diop, em Dakar, afirma que prefere ser polígamo e "assumir oficialmente todas as minhas relações em vez de ter uma série de namoradas e arriscar-me a contrair doenças como a SIDA."

Issa Diop, condutor de camiões polígamo de 28 anos, afirma que os jovens como ele tornam-se polígamos por opção.

"É como a moda, nós seguimos a tendência. Além disso, o número de mulheres ultrapassa o dos homens no Senegal. A poligamia ajuda muito. Quase todos os homens na minha zona, jovens ou pobres, são agora polígamos. E depois?"

Um pouco mais de metade da população do Senegal de 12.9 milhões são mulheres. Na faixa etária entre os 15 e 64 anos há 3.6 milhões de mulheres por comparação aos 3.2 milhões de homens, de acordo com o perfil demográfico do país em 2012.

"A prática, que no passado era muito comum nas áreas rurais, chegou às zonas urbanas em proporções alarmantes. E o abuso está a aumentar, em grande parte em Dakar, onde os polígamos estão a tornar-se cada vez mais novos," relatou Fanta Niang, assistente social e activista do género na cidade de Thies, a terceira maior do Senegal.

"Que eu saiba, não há estatísticas oficiais sobre os casamentos polígamos no Senegal. Costumava dizer-se que um em cada quatro casamentos nas áreas urbanas e um em cada três casamentos nas áreas rurais era polígamo, mas estes números têm deficiências visto que desvalorizam a gravidade da situação," afirmou Niang.

Acrescenta que, infelizmente, a maioria das esposas em casamentos polígamos são anafabetas e desconhecem os direitos das mulheres e o direito à igualdade.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura revelou em 2010 que aproximadamente uma em cada seis mulheres no Senegal (61 por cento) tem falta de conhecimentos básicos de alfabetização. Metade da população adulta do Senegal é analfabeta, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância.

A lei da paridade do género do Senegal de Maio de 2010, adoptada pelo governo de Abdoulaye Wade apesar de críticas de tradicionalistas e de muçulmanos adeptos da linha dura, abriu o caminho para 64 mulheres terem assento no parlamento com o recentemente eleito governo de Macky Sall. A lei exige que os partidos políticos assegurem que metade dos seus candidatos nas eleições locais e nacionais sejam mulheres.

"Não tem havido progresso em termos da emancipação das mulheres no Senegal e a poligamia continua a desempenhar um papel relevante a este respeito," afirmou Niang. "A capacitação das mulheres deve começar pelas bases e não no topo. Estas 64 deputadas são só a ponta do iceberg. E o que se faz com os 61 por cento que não sabem ler nem escrever?"

"Interagimos com estas mulheres diariamente e vemos coisas que vôces nem querem ouvir. É por isso que digo que não há progresso."

Alguns defendem que a poligamia constitui uma ameaça aos princípios constitucionais do Senegal quanto à igualdade do género e à Estratégia Nacional para a Igualdade e Equidade do Género, que foi desenvolvida em 2005.

Moussa Kalombo, analista do género e perito em questões religiosas, disse à IPS que a poligamia viola os princípios constitucionais da igualdade do género em todos os países.

*Nomes alterados para proteger a identidade dos entrevistados. (FIN/2012)

 
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