Nuvens negras novamente sobre Gaza
Jillian Kestler-D'Amours
Jerusalém, Israel, 16/11/2012 , (IPS) - Os bombardeios israelenses prosseguem contra
Gaza, e os palestinos temem que este seja apenas o
começo de outra grande ofensiva sobre seu território e,
assim, não há para onde fugir.
"As pessoas estão muito preocupadas com o que
virá. Esta manhã ouvimos ataques aéreos, e até
agora a situação é muito tensa", disse ontem à IPS
o subdiretor do Centro Palestino para os Direitos
Humanos (PCHR), Jaber Wichah, por telefone, da
cidade de Gaza. "A população está muito
preocupada, especialmente pelos ataques aéreos e
pelas ameaças do governo israelense",
acrescentou.
Na tarde do dia 14, Israel matou Ahmad Jabari,
chefe do braço armado do Hamás (Movimento de
Resistência Islâmica). Um míssil atingiu o carro em
que viajava na cidade de Gaza. As forças
israelenses disseram que esse foi apenas "o
primeiro objetivo" de uma campanha militar
destinada a dissuadir os combatentes palestinos
de continuarem disparando foguetes contra cidades
do sul de Israel. O Hamás afirmou que a morte de
Jabari "abiu as portas do inferno" para Israel.
Nas primeiras 24 horas do intenso bombardeio
israelense foram informadas as mortes de 13
palestinos, incluindo três menores de idade e uma
mulher grávida. Por sua vez, a mídia de Israel
informou que combatentes palestinos dispararam
mais de cem foguetes contra esse país e que três
pessoas morreram quando um deles atingiu a casa
em que estavam, na localidade de Kiryat Malachi,
25 quilômetros ao norte de Gaza.
"Nossos médicos e nosso pessoal de saúde têm
muita experiência e estão prontos para enfrentar a
situação, mas o problema é a falta de
medicamentos", disse o vice-ministro de Saúde em
Gaza, Hassan Khalaf, acrescentando que os
hospitais locais funcionam com menos de 60% dos
medicamentos essenciais. Khalaf disse à IPS que,
até o meio-dia de ontem, mais de cem palestinos
em toda Gaza ficaram feridos pelos ataques
israelenses.
Segundo Khalaf, as autoridades do Egito estavam
dispostas e preparadas para facilitar o transporte de
feridos através da passagem de Rafah. "Este
ataque contra civis deve parar, e todo o mundo deve
se opor à agressão de Israel", protestou. O Estado
judeu argumenta que foi atacado primeiro pelo
Hamás, cujos combatentes lançaram uma série de
foguetes contra o sul de seu território. Mas um
informe do Instituto para o Entendimento no Oriente
Médio apresenta uma cronologia diferente dos
acontecimentos.
A última explosão de violência começou no dia 8
deste mês, quando soldados israelenses invadiram
a Faixa de Gaza. Então houve um tiroteio com
palestinos, no qual morreu um garoto de Gaza, de
12 anos. Os combatentes palestinos, depois,
explodiram um túnel que atravessa a fronteira entre
Gaza e Israel e dispararam um míssil antitanque
contra um jipe do exército israelense, ferindo dois
soldados. Em resposta, Israel reiniciou os
bombardeios sobre Gaza, enquanto os palestinos
lançaram foguetes contra cidades do sul
israelense.
Na última semana, cinco civis palestinos (incluindo
três crianças) perderam a vida e mais de 50 ficaram
feridos. Com a mediação do Egito, as duas partes
acordaram um cessar-fogo no dia 12, mas a trégua
foi violada com o assassinato de Jabari. "Não
aceitaremos uma situação em que cidadãos
israelenses sejam ameaçados pelo terror dos
foguetes. Nenhum país aceitaria isto. Israel não
aceitará", disse aos jornalistas no dia 14 o primeiro-
ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Israel
batizou esta ofensiva contra Gaza de Operação
Pilar de Defesa.
"Se necessário, o exército de Israel está preparado
para expandir a operação", advertiu Netanyahu,
sugerindo que poderia ordenar uma invasão militar
por terra. Ontem, as forças israelenses lançaram
panfletos sobre Gaza aconselhando os palestinos a
"se responsabilizarem e evitar ficar próximos de
combatentes e instalações do Hamás e de outras
organizações terroristas que possam supor um
risco para sua comunidade".
A Faixa de Gaza, com 1,7 milhão de habitantes em
uma área de 365 quilômetros quadrados, é um dos
lugares mais densamente povoados do mundo. Os
ataques israelenses "poderiam chegar a qualquer
parte, e toda Gaza poderia ficar ameaçada.
Segundo esses panfletos, não há nenhuma área
específica ameaçada. Todas as pessoas são
vulneráveis", disse Jaber Wichah.
O rompimento do cessar-fogo assemelha-se ao
ocorrido em 2008, quando Israel lançou uma
operação contra combatentes palestinos em Gaza
provocando uma resposta do Hamás com foguetes
contra cidades do sul israelense. Isto, por sua vez,
foi usado por Israel para justificar uma ofensiva em
grande escala chamada Operação Chumbo
Derretido, que durou três semanas e deixou mais
de 1.400 palestinos mortos, incluindo pelo menos
300 crianças. A operação recebeu condenação em
nível internacional.
No entanto, hoje Israel enfrenta um contexto
diferente. Os levantes populares da Primavera
Árabe no Oriente Médio e norte da África alteraram
a situação política regional. Agora, o Egito,
governado por Mohammad Morsi, da Irmandade
Muçulmana, retirou, no dia 14 à noite, seu
embaixador de Israel em protesto pelos ataques.
Também há dúvidas sobre os motivos por trás da
ofensiva de Israel, que está em meio a uma
campanha eleitoral.
"É um fato objetivo que a operação serve muito bem
aos propósitos de Netanyahu: desviar a atenção e
fazer com que a agenda pública se concentre em
assuntos militares e não sociais", disse à IPS o
ativista Adam Keller, porta-voz do movimento
pacifista israelense Gush Shalom. Um punhado de
manifestações aconteceu poucas horas depois de
começar a violência, no dia 14. Em Jerusalém,
jovens palestinos gritaram "Netanyahu, os
habitantes de Gaza cavarão seu túmulo".
Envolverde/IPS (FIN/2012)
|
|
|