Negociações climáticas com os dias contados
Stephen Leahy
Uxbridge, Canadá, 20/11/2012, (IPS) - Dois terços das reservas comprovadas de
combustíveis fósseis do mundo não poderão ser
usadas sem arriscar alterações climáticas perigosas,
alerta a Agência Internacional de Energia (AIE). Evitar
o consumo desses dois terços será o primeiro tema
da agenda de negociações climáticas anuais da
Organização das Nações Unidas (ONU), que serão
reiniciadas no final deste mês, no Catar.
Na semana passada, o presidente dos Estados
Unidos, Barack Obama, surpreendeu a muitos
quando declarou que a mudança climática será
uma das principais metas de seu segundo
mandato.
"A reeleição de Obama garante a continuidade do
compromisso dos Estados Unidos de reduzir em
17% suas emissões de dióxido de carbono até
2020, em relação às registradas em 2005", disse
Christina Figueres, secretária executiva da
Convenção Marco das Nações Unidas sobre
Mudança Climática (CMNUCC). "Os Estados
Unidos estão plenamente conscientes da
necessidade de aumentar suas ambições em
termos de mitigação e financiamento para ajudar a
adaptação dos países em desenvolvimento",
declarou Figueres à IPS.
O objetivo em matéria de redução de emissões que
os Estados Unidos se fixaram equivale a uma
redução de 3% em relação aos níveis de 1990, ano-
base utilizado pela maioria dos países. Os gases
contaminantes liberados na atmosfera deverão ser,
em 2020, entre 25% e 40% menores, em relação
aos volumes emitidos em 1990, para evitar que as
temperaturas subam mais do que dois graus,
segundo recomenda a comunidade científica. A
Grã-Bretanha já conseguiu diminuir em 18% suas
emissões e prevê chegar a 34% de queda até 2020.
Em 2010 chegou-se a um acordo vinculante para
limitar o aquecimento global em dois graus, durante
a conferência da ONU sobre mudança climática,
realizada no balneário mexicano de Cancún,
recordou Andrew Steer, presidente da World
Resources Institute (WRI), com sede em
Washington. "Não estamos nem perto de chegar a
esse ponto. A situação é urgente. A mudança
climática não é um problema de amanhã, mas de
hoje. A supertempestade Sandy foi um alerta para
o povo dos Estados Unidos", ressaltou Steer em
entrevista coletiva.
Um aquecimento global de dois graus não é um
cenário seguro, mas superar essa marca é
considerado perigoso. Para poder mantê-lo nos
dois graus, a AIE calculou que a maioria das
reservas de carvão, 22% das de petróleo e 15% das
de gás natural deverão permanecer debaixo da
terra. Dois terços dessas reservas estão na
América do Norte, China, Rússia e no Oriente
Médio, segundo a publicação anual da AIE,
Perspectiva Mundial de Energia.
A temperatura em nível mundial aumentou 0,8 grau.
Este ano era o mais quente já registrado nos
Estados Unidos e a atual seca custa milhares de
milhões de dólares à economia. Os prejuízos
causados pelo furacão Sandy chegam a entre US$
50 milhões e US$ 70 milhões. O custo que implica
a mudança climática em escala mundial é
estimado em US$ 1,2 trilhão ao ano. O maior
impacto recai sobre as pessoas mais vulneráveis
dos países mais pobres, explicou Steer. "A história
julgará duramente aquele presidente que não levar a
sério a luta contra a mudança climática", advertiu.
Não se espera um grande avanço nas negociações
climáticas na 18ª Conferência das Partes da
CMNUCC (COP 18), que começará no dia 26 em
Doha, capital do Catar. Estas conversações
oferecem "uma oportunidade para pressionar a
tecla
de reinício", e, para os Estados Unidos, a de
assumir a liderança que o mundo necessita,
pontuou Steer. E isto poderia acontecer, com as
declarações do presidente Obama, no dia 14, em
sua primeira entrevista coletiva na Casa Branca
após ser reeleito.
Obama também declarou que, nas próximas
semanas, "buscará o que mais se pode fazer para
conseguir avanços no curto prazo" sobre este
assunto. A criação de emprego e o crescimento
econômico continuarão sendo as principais
prioridades, mas, acrescentou, "podemos fazer
isso
e deixar uma marca em matéria de mudança
climática e sermos líderes internacionais, creio que
é algo que terá apoio do povo norte-americano".
Para Cliff Polycarp, do WRI, acabar com os
subsídios para os combustíveis fósseis é crucial
para manter os dois terços das reservas sob a
terra. "O mundo precisa deixar de investir em
energias que liberam grandes quantidades de
dióxido de carbono e optar por fontes renováveis
com baixa emissões", afirmou à IPS. Este ano
serão gastos mais de US$ 600 bilhões em
prospecções de gás e petróleo e em produção,
segundo o estudo Oil: The New Revoution
(Petróleo: A Nova Revolução), da Universidade de
Harvard.
O estudo prevê um auge da capacidade de
produção de combustíveis fósseis que poderia
elevar o aquecimento global ao catastrófico nível de
oito graus, segundo a organização Oil Change
International, com sede nos Estados Unidos. "A
realidade é que a indústria do petróleo faz mais
dinheiro com a extração do que com a venda de
gasolina para os consumidores finais", indicou à
IPS o diretor executivo dessa entidade, Steve
Kretzmann.
Trasladar os investimentos da indústria de
combustíveis fósseis e seus promotores
econômicos para energias com baixas emissões
de dióxido de carbono exigirá a intervenção dos
governos em termos de incentivos às alternativas
renováveis e de uma taxação significativa sobre o
carvão, ressaltou Kretzmann. Uma grande
quantidade de empresários pede ao governo que
elimine os subsídios aos combustíveis fósseis e
crie um imposto sobre o carvão, contou Steer, que
já trabalhou no Banco Mundial. "Sabem que estão
com os dias contados e dizem que estas
mudanças terão que ocorrer mais cedo ou mais
tarde", afirmou. Envolverde/IPS (FIN/2012)
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