Fukushima, uma mancha difícil de limpar
Kim-Jenna Jurriaans
Nações Unidas, 29/11/2012 , (IPS) - O engenheiro industrial aposentado Yastel Yamada
tem 73 anos. Este japonês, junto com outros 700
contemporâneos, está ansioso para trabalhar como
voluntário na limpeza da central nuclear de Fukushima
Daiichi, para livrar os mais jovens dos efeitos da
radiação extrema.
Essa usina, localizada no nordeste do Japão, foi
danificada por um fortíssimo terremoto e posterior
tsunami no dia 11 de março de 2011.
Yamada e seu exército de samaritanos da radiação
são de alguns dos, cada vez em maior número,
grupos da sociedade civil em todo o Japão que
adotam medidas para informar o público sobre os
perigos da radiação, promovendo uma resposta
governamental mais forte ao maior desastre nuclear
ocorrido desde a explosão da central ucraniana de
Chernobyl, em 1986.
"Quando desenvolvermos câncer, já estaremos
mortos de qualquer forma", disse Yamada à IPS,
após uma viagem aos Estados Unidos para
promover os esforços para que sua organização,
chamada Corpo de Veteranos Qualificados para
Fukushima, tenha acesso ao local, o que até agora
é negado. Um dos objetivos de seu grupo é gerar
pressão política internacional para forçar o governo
japonês a assumir o desastre e dar participação a
especialistas mundiais no processo de recuperação
da usina que, segundo se estima, levará 20 anos
de limpeza e 40 de controles. "Chernobyl foi maior,
mas bem menos complicado", afirmou.
No entanto, até agora a responsabilidade sobre a
central continua em mãos da privada Companhia de
Eletricidade de Tóquio (Tepco), uma empresa com
pouca perícia em matéria de limpeza, alertou
Yamada. São cerca de 400 firmas que atualmente
realizam tarefas de limpeza em Fukushima Daiichi,
acrescentou o engenheiro, explicando que a
elaborada e complexa estrutura das
subcontratações se interpõe no caminho dos
veteranos que querem trabalhar na usina.
Yamada culpou o íntimo vínculo entre as
autoridades japonesas e o setor empresarial pela
negativa governamental de retirar o processo de
limpeza da órbita da Tepco. O êxito ou fracasso
dessa limpeza afetará as gerações futuras em todo
o planeta. Os laços próximos com a indústria, a
vacilante informação sobre segurança, as duvidosas
contagens sobre a radiação e as contraditórias
atualizações sobre a situação de Fukushima
contribuem para aumentar a desconfiança quanto à
vontade do governo japonês de proteger seus
próprios cidadãos.
Enquanto os médicos continuam ignorando
problemas sanitários emergentes e altos
pesquisadores se negam a atribuir as
anormalidades à radiação, o sistema médico
japonês também perdeu a confiança de um setor
cada vez mais consciente da população japonesa.
Este mês, a prefeitura de Fukushima apresentou as
conclusões de sua última pesquisa sobre saúde,
segundo as quais 42% dos 47 mil menores
examinados têm nódulos ou quistos na glândula
tireoide. Este número é muito superior ao 1,6%
registrado em outro estudo desse tipo feito em
2001, em Nagasaki.
Contudo, quando foi questionado sobre o vínculo
com a exposição à radioatividade, Shinichi Suzuki,
pesquisador da Universidade Médica de Fukushima
que dirigiu a pesquisa, sugeriu ao canal alemão de
televisão ZDF que as conclusões podem ser um
reflexo da dieta das crianças japonesas, rica em
mariscos. Suzuki mente ao povo japonês", disse à
IPS a pediatra Yurika Hashimoto, que tem 15 anos
de experiência. "As pessoas já não acreditam
mais", acrescentou.
A médica não escondeu sua desconfiança com boa
parte da informação divulgada pelo governo e pelas
altas esferas do sistema médico. Há pouco, para
limitar sua própria exposição à radiação, mudou-se
de Tóquio para Osaka. Diarreia, hemorragia nasal,
infecções na pele e conjuntivite são alguns dos
muitos sintomas que viu em seus pacientes, tanto
dentro quanto fora da prefeitura de Fukushima,
desde o desastre de março de 2011.
Porém, quando os pacientes apresentam estes
sintomas a outros médicos, frequentemente são
ridicularizados ou ignorados, afirmou Hashimoto.
Kazko Kawai, moradora em Shizuoka, que leva
cinco horas para chegar a Fukushima, sentiu-se
alheia à crise nuclear até que funcionários do
governo local decidiram começar a queimar
escombros contaminados que haviam inundado sua
região, conforme contou à IPS durante uma visita a
Nova York.
Kawai entrou em contato com vários médicos
internacionais para convidá-los a percorrer cinco
cidades, em uma espécie de clínica ambulante e
centro de informação para cidadãos
comprometidos. "Em toda parte em que íamos,
havia os mesmos sintomas", disse Dörte
Siedentopf, médica alemã aposentada que durante
20 anos trabalhou com crianças sobreviventes do
desastre de Chernobyl, em uma entrevista filmada
com Kawai.
Nessa entrevista, Siedentopf, falando ao lado de
seu colega norte-americano Jeffrey Peterson,
professor do Departamento de Medicina Familiar da
Universidade de Wisconsin, apresentou uma lista
de conclusões que coincidem amplamente com as
de Hashimoto. Embora seja muito cedo para dizer
quais dos sintomas são causados pela radiação
nuclear, estes demonstram a necessidade de
realizar pesquisas epidemiológicas mais amplas,
bem como de maior empatia por parte dos médicos
que fornecem atendimento primário, indicou
Peterson.
"Não faz nenhum bem às pessoas dizer que não
precisam se preocupar. Estas ansiedades e
preocupações são muito reais", ressaltou Peterson,
acrescentando que os médicos japoneses têm a
oportunidade única de definir verdadeiramente os
efeitos da radiação de uma maneira que não era
possível depois de Chernobyl, há 26 anos.
Em comunicado divulgado no dia 26, o relator
especial das Nações Unidas sobre direito à saúde,
Anand Grover, que há pouco regressou de uma
missão de 11 dias no Japão, pediu urgência ao
governo desse país no sentido de controlar um
setor mais amplo da população. Grover, cujo
informe independente completo será apresentado
ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em
2013, se reuniu com diferentes atores, entre eles
governo, médicos, representantes da sociedade
civil e moradores das áreas afetadas.
O relator se mostrou preocupado pelo fato de os
residentes implicados não terem influência "nas
decisões que os afetam", e enfatizou que essas
pessoas deveriam participar dos processos de
tomada de decisões, o que inclui "procedimentos
de implantação, controle e responsabilização".
Por sua vez, os cidadãos céticos continuam se
protegendo da melhor maneira possível, no que se
tornou a nova normalidade desde março do ano
passado. Diante da pergunta sobre como sua vida
mudou desde o desastre, Kawai tira do bolso um
dispositivo digital na forma de vara. "Mede os raios
gama. Agora todos têm um", explicou, com total
naturalidade. Envolverde/IPS (FIN/2012)
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