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REPORTAGEM
Mapuches lafkenches ainda resistem a projeto de Pinochet
Marianela Jarroud, enviada especial

PUERTO SAAVEDRA, Chile, 26 de dezembro de 2012, (IPS) - (Tierramérica).- A Rota Costeira nada mais é do que um caminho longitudinal para unir o longo e estreito território do Chile, o mais perto possível do Oceano Pacífico.


Crédito: Marianela Jarroud/IPS
Luis Aillapán e sua mulher, Catalina Marileo, foram processados em 2002 por defenderem seu terreno
Indígenas mapuche da região chilena de La Araucanía lutam há mais de duas décadas contra a construção da Rota Costeira, um megaprojeto concebido pela ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990) e que traz consigo perdas arqueológicas e culturais. A Rota Costeira nada mais é do que um caminho longitudinal para unir o longo e estreito território do Chile, o mais perto possível do Oceano Pacífico. O traçado total supera os 3.340 quilômetros, e até o momento já são mais de 2.600 quilômetros pavimentados.

Este projeto viário se converteu em um dos desafios centrais de vários governos que sempre encontraram oposição por parte de comunidades indígenas. Em La Araucanía, 674 quilômetros ao sul de Santiago, a Rota Costeira compreende 41,6 quilômetros do trecho Puerto Saavedra-Toltén, justamente onde fica a Área de Desenvolvimento Indígena do Budi. As autoridades afirmam que a iniciativa integrará áreas isoladas, reduzirá o tempo de viagem e potencializará o desenvolvimento de novas áreas de atração turística.

Estudos da Universidade de La Frontera indicam que a área possui "uma longa história cultural e um vínculo claro com ela, comprovadas pelos testemunhos arqueológicos e pela reprodução cultural, com alta prevalência de aspectos de identidade e cosmogônicos dentro da região". Seus habitantes ancestrais são os mapuches lafkenches, palavra da língua deste povo que significa "gente do mar" ou que vive na costa. Um deles é Leonardo Calfuneo, "lonko" (autoridade máxima) da comunidade Konin Budi, de aproximadamente 60 famílias.

"Nos opusemos a este megaprojeto porque para o povo mapuche não significa progresso e desenvolvimento, mas a destruição irreparável de nossa cultura", afirmou ao Terramérica. Calfuneo mora, com sua mulher, em uma pequena área onde fica uma acolhedora casa de madeira, na qual oferecem mate e sopaipillas (massa de farinha de trigo frita) aos visitantes. "Vivemos da pequena agricultura, somos camponeses, somos um povo milenar e nossa vida foi sempre da terra", contou.

Calfuneo enfrentou pessoalmente os avanços do projeto que não é executado por uma construtora, mas pelo Corpo Militar do Trabalho, vinculado ao exército. Em março, as máquinas desse órgão militar realizaram trabalhos em suas terras sem autorização, destruindo cercas vivas de plantas medicinais e um espaço sagrado para a comunidade. "Aqui vão destruindo para abrir os caminhos, e não se perde apenas as terras, mas também as plantas medicinais e as vertentes", protestou.

Em sua comunidade, "cada família conta com três, cinco ou dez hectares para viver", um espaço escasso considerando que há apenas algumas décadas regia a propriedade comunitária no território mapuche. Pelo decreto-lei 2.568 de 1979, o regime do general Pinochet dividiu e titulou as terras mapuches. Muitas dessas áreas foram adquiridas por particulares, principalmente associados a empresas florestais, de energia e piscicultura.

A estrada costeira criará uma ligação eficiente no litoral, potencializando o desenvolvimento econômico da região, afirmaram as autoridades locais. "Trata-se de um projeto que já tem bastante tempo e que queremos destravar logo", disse ao Terramérica o intendente (governador) de La Araucanía, Andrés Molina. "Por diferentes motivos, o projeto nos interessa muito, mas, na prática, não conseguimos uma avaliação em termos de rentabilidade social e econômica com esses caminhos", admitiu.

Embora tenha melhorado a qualidade dos caminhos, "hoje em dia estamos trabalhando para obter um estudo de rentabilidade social para conseguir pensar em pavimentar. Não poderemos fazer nada enquanto não tivermos internamente uma avaliação social que nos permita investir como país", explicou o intendente. Sua expectativa é "fazer isso o mais rápido possível e, oxalá, deixar iniciado o projeto no próximo ano".

Os prazos de Molina assustam Luis Aillapán, "gempin" (dono da palavra) de Konin Budi. Para este homem dotado de conhecimentos sobre a cultura, espiritualidade e filosofia de seu povo, a construção da estrada é "uma grande dor". Ele disse ao Terramérica que "estamos acostumados à natureza, a caminhar um pouco e ter acesso ao mar e pescar o que precisamos". Aillapán possui plantações e alguns animais. Sua família se alimenta do que a terra e o mar fornecem. De sua casa se vê o Oceano Pacífico, de um lado, pradarias verdes de outro e alguns montes que fazem parte da cordilheira da costa. E, aos pés de suas terras, os militares trabalham e as máquinas abrem caminho.

"Gente do nosso próprio povo nos deu as costas e à noite ouve-se disparos feitos para nos amedrontar", denunciou. Sua mulher, Catalina Marileo, e seu filho de quatro anos foram acusados, em 2002, de agredirem funcionários do Ministério de Obras Públicas que realizavam estudos de viabilidade do projeto. Mais tarde, Aillapán e sua mulher; sua cunhada, Margarita Marileo e seu marido, foram processados pela lei antiterrorista, herdada da ditadura e que hoje é aplicada quase exclusivamente ao povo mapuche em conflito.

A comunidade de Saavedra, de 401 quilômetros quadrados entre o Pacífico e o lago salgado Budi, tinha 13.481 habitantes em 2009, segundo dados oficiais. Mais de 80% vivem em zonas rurais e 73,2% se declaram mapuches. Na Área de Desenvolvimento Indígena do Budi vivem 3.295 pessoas, que constituem 24,4% da população da comunidade. E na ilha Huapi, localizada no lago, há 43 comunidades habitadas por cinco mil mapuches. Um estudo da Universidade da Fronteira, encomendado pelo governo em 2001, mostra que 45,2% dos habitantes estavam a favor da Rota Costeira e 52,9% eram contra.

A situação mudou quando o agora ex-prefeito de Saavedra, Ricardo Tripainao, percorreu as comunidades explicando os benefícios da estrada, como preço melhor a ser pago por seus produtos e os milhões que o Estado lhes pagaria pela expropriação de suas terras. O Terramérica constatou que hoje muita gente está descontente pelo fato de o Estado não realizar esses pagamentos e pelo aumento da extensão dos terrenos a serem expropriados, que inicialmente era de 13 metros, mas que em muitos setores chega a 20 ou 25 metros.

Entre os habitantes da cabeceira municipal de Puerto Saavedra, uma localidade urbana com atrações turísticas, há um sentimento favorável em relação à estrada, pois atrairá mais visitantes e reduzirá o isolamento. O acampamento dos militares que trabalham na obra fica em uma margem do Budi, área protegida por seu patrimônio cultural.

O intendente Molina garante que "está contemplada" a consulta às comunidades, como estabelece o Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho, já que "a ideia é que o projeto seja participativo". Esse Convênio, adotado em 1989 e que entrou em vigor no Chile em 2009, estabelece garantias para as comunidades originárias, especialmente a de serem ouvidas sobre atividades ou projetos em seus territórios. Porém, o intendente adverte que "não vamos consultar enquanto não tivermos o projeto com todas as aprovações".

* (FIN/2012)

 
Terramérica - Meio Ambiente e Desenvolvimento
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