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Nome do Papa fica fora da publicidade da jornada da Juventud
Fabiana Frayssinet

Rio de Janeiro, Brasil, 15/2/2013, (IPS) - A única consequência que terá no Brasil a renúncia de Bento XVI como chefe da Igreja Católica será a mudança dos cartazes anunciando sua presença em julho nesta cidade para participar da Jornada Mundial da Juventude, ironizou Frei Betto.


Crédito: Site oficial de Frei Betto
Frei Beto: “Bento XVI nunca teve sensibilidade para as questões sociais”.
O prelado alemão Joseph Ratzinger, que se retirará este mês após quase oito anos de papado como Bento 16, imprimirá seu selo na eleição de seu sucessor, disse o religioso brasileiro em conversa com a IPS.

Frei Betto, pseudônimo de Carlos Alberto Libânio Christo, e outros destacados pensadores, sacerdotes e bispos expoentes da Teologia da Libertação, uma linha progressista do catolicismo originada na década de 1960 na América Latina, foram os alvos preferidos de críticas e até censuras de Bento XVI.

Ratzinger foi o mais férreo opositor desta corrente, que enfatiza a necessidade de enfrentar as injustiças sociais a partir do compromisso cristão de opção pelos pobres, inclusive desde sua anterior função como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora da Inquisição, a partir da qual proibiu que personalidades como o suíço Hans Küng e o brasileiro Leonardo Boff ensinassem teologia.

"Sou muito pessimista" quanto ao novo papa mudar o rumo conservador da Igreja Católica e modernizá-la, opinou Frei Betto, autor, entre outros livros, de Fidel e a Religião, amigo e ex-assessor especial no começo do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) em programas como o Fome Zero.

IPS: Quais repercussões terá para a Igreja Católica, especialmente para o Brasil e o resto da América Latina, a renúncia anunciada pelo papa Bento XVI?

Frei Betto: Creio que para o Brasil em especial a única consequência será refazer toda a propaganda da Jornada Mundial da Juventude, que acontecerá de 23 a 28 de julho no Rio de Janeiro, trocando a imagem de Bento XVI pela de seu sucessor, que será escolhido em março. A renúncia em si mesma não tem maiores efeitos. A eleição de um novo pontífice sim, dependendo da orientação que imprima à Igreja Católica.

IPS: Nesse sentido podemos antecipar uma modernização da Igreja?

FB: Não sou otimista, pelas seguintes razões: Bento XVI desempenhará um papel principal na eleição do novo papa. E decidiu continuar vivendo no Vaticano. Assim, a Igreja corre o risco de ter um duplo poder durante algum tempo. O novo papa jamais fará algo que desagrade seu antecessor. Portanto, manterá a proibição de se debater na Igreja temas como aborto, fim do celibato sacerdotal, direito das mulheres ao sacerdócio, uso de preservativos, aplicação de células tronco, união homossexual, etc. Depois da morte de Bento XVI, então conheceremos o pensamento e o que quer o novo papa.

IPS: Como Joseph Ratzinger imprimiu seu conservadorismo na América Latina e no Brasil?

FB: Não afirmo que Bento 16 deu continuidade a João Paulo II (1978-2005) porque, na verdade, era o inspirador e teórico das medidas conservadoras tomadas pelo polonês Karol Wojtyla. Os dois se negaram a implantar as decisões do Concílio Vaticano II (1962-1965), um encontro realizado há 50 anos! Os dois descartaram bispos progressistas e nomearam conservadores, deram mais importância a movimentos como o (ultraconservador) Opus Dei do que à Pastoral Popular ou às Comunidades Eclesiais de Base. E os dois eram eurocêntricos. A diferença é que João Paulo II tinha a cabeça de direita e o coração de esquerda, ou seja conservador na doutrina e progressista nas questões sociais, tanto como ser crítico do neoliberalismo e elogiar a Revolução Cubana. Bento XVI, por outro lado, nunca teve sensibilidade pelas questões sociais.

IPS: Que rumo podem tomar a partir de sua renúncia as linhas progressistas dentro da Igreja, como a Teologia da Libertação, com grande peso na América Latina?

FB: A linha progressista perdura nas bases da Igreja Católica, por meio das Comunidades Eclesiais de Base e das pastorais populares (operária, indígena, idosos e outras), na produção dos teólogos da libertação. Contudo, esta estrutura perdeu nas últimas décadas o apoio de bispos e cardeais.

IPS: O último censo no Brasil indica que a Igreja Católica perdeu 1,7 milhão de fieis entre 2000 e 2010. Assim, 64,6% dos 192 milhões de habitantes do país se declaram seguidores desta fé, quando em 1970 eram 90%. Como o senhor explica esta franca debilitação, que também acontece no restante da América Latina?

FB: Estamos em uma mudança de época, na passagem da modernidade para a pós-modernidade. Entretanto, a Igreja Católica ainda arrasta consigo resquícios medievais, com a divisão territorial em paróquias, e mal dialoga com a modernidade. Daí sua dificuldade para entender e inserir-se dentro da modernidade. A Igreja Católica nem mesmo sabe lidar com as novas tecnologias eletrônicas essenciais para o trabalho de evangelização. É nesse ponto que as igrejas neopentecostais são mestres, embora seu conteúdo seja alienante.

IPS: Nesse contexto, que possibilidades tem a Igreja Católica, com um novo papa, de reverter essa redução de crentes no Brasil?

FB: A Igreja Católica no Brasil se torna cada vez mais vaticanista. A Conferência Nacional dos Bispos, que teve um papel profético sob a ditadura militar (1964-1985)* e até a década de 1990, agora se recolhe à sacristia, deixando de ser a voz dos que não têm voz. Envolverde/IPS

* Por sua atuação política de oposição, Frei Betto foi preso em duas oportunidades pela ditadura. (FIN/2013)

 
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