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Governo dos Estados Unidos dividido sobre a Síria
Samer Araabi

Washington, Estados Unidos, 18/2/2013, (IPS) - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, continua reticente a um maior envolvimento na crise síria, mas revelações feitas nos últimos dias sugerem um quase unânime consenso entre seus principais conselheiros sobre a necessidade de uma intervenção militar.


Crédito: Zak Brophy/IPS
Prédio da cidade síria de Aleppo destruído por um bombardeio do regime de Bashar Al Assad.
Um artigo publicado há poucos dias pelo jornal The New York Times revela que a ex-secretária de Estado, Hillary Clinton, e o ex-diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), David Petraeus, elaboraram uma estratégia para envolver diretamente os Estados Unidos na Síria, fornecendo armas e apoio aos rebeldes.

No dia 7, houve novas revelações, quando o secretário da Defesa, Leon Panetta, e o chefe do Estado Maior Conjunto, Martin Dempsey, depuseram perante o Congresso sobre o ataque do ano passado ao consulado norte-americano na cidade líbia de Bengasi. Na audiência, ambos expressaram apoio à ideia de fornecer armas aos rebelde sírios. O diretor nacional de Inteligência, James Clapper, também apoiaria o plano. Isto marca uma clara diferença em relação ao discurso oficial da administração Obama, que publicamente se mostra cética sobre a ideia de entregar armas a grupos sírios.

"Há algum tempo os Estados Unidos aceitaram a estratégia de apoiar os insurgentes como forma de se contrapor ao regime de Bashar Al Assad, ou, pelo menos, aparentar que está fazendo algo pela Síria", disse à IPS a diretora do Grupo de Trabalho sobre o Oriente Médio da New America Foundation, Leila Hilal. "Mesmo não havendo um apoio militar pleno, foram dados passos para permitir que outros armassem os rebeldes. O enfoque indireto não conseguiu uma mudança no conflito e minou a revolução", ressaltou.

Especialistas em política externa chegaram a conclusões diferentes sobre a disparidade de opiniões entre Obama, de um lado, e seus mais altos funcionários em matéria de segurança, de outro. Escrevendo para o independente Conselho de Relações Exteriores, o analista Elliott Abrams afirmou que a decisão do presidente está "tragicamente equivocada". Afirmou que "não se pode fugir da conclusão de que a política eleitoral desempenhou um papel" na opção de Obama de ignorar sua equipe de segurança nacional.

Joshua Landis, professor-adjunto na Universidade de Oklahoma e responsável pelo blog Syria Comment, discorda. "Obama não parece de acordo com os interesses que prevalecem em Washington e com a forma como querem formular nossa política no Oriente Médio", disse à IPS. Landis observou que a pressão do gabinete para intervir, em lugar de influenciar Obama, o convence a se manter "fora da Síria, pois sabe que poderosos interesses rapidamente entrarão em jogo". Obama "parece não confiar no aparato que desenha as políticas sobre Oriente Médio", afirmou Landis.

Quando foram solicitados mais detalhes sobre suas declarações no Congresso, Dempsey explicou que apoiava a ideia de dar armas à oposição síria apenas "conceitualmente", e esclareceu que "há muitas complexidades envolvidas que ainda não resolvemos". O plano intervencionista foi minado por um estudo elaborado pela própria CIA. Uma equipe de analistas de inteligência concluiu que a entrega de armas aos rebeldes sírios não incidiria "materialmente" no terreno.

Landis também afirmou que "as propostas apresentadas a Obama não incluem um plano sobre como sair da Síria ou sobre como responder se as coisas não correrem como o esperado". E acrescentou que "não detalham nenhuma forma para os Estados Unidos poderem ganhar ou alcançar suas metas". Pouco se sabe sobre o real grau de envolvimento de Washington na guerra civil da Síria, que já dura dois anos e na qual morreram mais de 60 mil pessoas.

Altos funcionários da Casa Branca expressaram preocupação pela possibilidade de as armas que entrarem nesse país acabarem em "mãos erradas". A preocupação se agravou pelo aumento do número de combatentes islâmicos, filiados à rede radical Al Qaeda, nas fileiras da oposição síria.

Inclusive os próprios membros do gabinete que expressaram seu apoio à ideia de fornecer armas agora demonstram reservas pelas crescentes inclinações extremistas dos rebeldes. A própria Clinton alertou que a oposição síria "está cada vez mais representada por elementos extremistas da Al Qaeda", algo que considerou "muito alarmante". Até agora, os esforços para marginalizar as facções vinculadas à Al Qaeda fracassaram.

Depois que Washington declarou como organização terrorista o Jubhat Al-Nusra, maior grupo filiado à Al Qaeda que combate contra o regime de Assad, a maioria dos líderes da oposição síria saiu em sua defesa. O presidente da Coalizão Nacional de Forças Revolucionárias de Oposição Síria, Moaz Al-Khatib, defendeu o papel do Jubhat Al-Nusra no levante contra o regime, e destacou que é "essencial para a vitória".

Apesar de tudo, Washington apoia de forma encoberta os grupos rebeldes por mais de um ano, com "ajuda não letal", inteligência e outros meios não informados. Em definitivo, Obama critica abertamente a ideia de uma intervenção armada, mas colabora de maneira silenciosa com a oposição síria. Por outro lado, vários funcionários em Washington apoiam a ideia de uma intervenção direta, mas expressam reservas sobre a ideologia dos rebeldes aos quais querem ajudar.

"Ninguém descartou nenhuma opção em nenhuma conversação da qual participei", contou Dempsey. Landis acredita ser improvável uma intervenção armada direta na Síria. "Claramente, as pessoas que Obama tenta colocar (em seu segundo mandato), todos seus funcionários designados, não estão a favor de uma política de uso da força no Oriente Médio e são contra um maior envolvimento militar", destacou. "São coerentes com seu plano geral, que consiste em não se envolver na Síria e não começar uma guerra com o Irã", assinalou. Envolverde/IPS (FIN/2013)

 
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