China supera a Grã-Bretanha no lucrativo negócio das armas
Thalif Deen
Nações Unidas, 19/3/2013, (IPS) - Depois de desbancar o Japão do posto de segunda
economia do mundo, agora a China consegue outro
feito: tirar da Grã-Bretanha o lugar de quinto maior
fornecedor de armas do planeta. Em um novo estudo
divulgado ontem, o Instituto Internacional de
Pesquisas para a Paz de Estocolmo (Sipri) afirma:
"Esta é a primeira vez que a China está entre os cinco
principais exportadores de armas, desde o fim da
Guerra Fria".
Diante da pergunta de como comparam as armas
chinesas com os sistemas mais sofisticados
utilizados pelo Ocidente, Paul Holtom, diretor do
Programa de Transferências de Armas do Sipri,
disse à IPS: "Talvez seja mais pertinente perguntar
como são comparadas as armas chinesas de
exportação com as que oferecem Rússia, Ucrânia,
etc., já que é com estes fornecedores que a China
tem probabilidades de competir no curto e médio
prazos". Segundo Holtom, o perfil dos receptores
de armas chinesas são predominantemente
Estados de baixa renda da Ásia, África, América e
Oriente Médio.
A ascensão da China foi impulsionada
principalmente pelas compras em grande escala de
armas feitas pelo Paquistão, país antes descrito
por um delegado chinês como "nosso Israel". Os
Estados Unidos são atualmente o maior fornecedor
de armas de Israel, seu histórico aliado político e
militar, que é fortemente protegido contra toda
forma de sanção no Conselho de Segurança da
Organização das Nações Unidas (ONU).
Segundo o Sipri, os cinco maiores fornecedores de
armas convencionais, entre 2008 e 2012, foram
Estados Unidos (30% das exportações mundiais de
armas), Rússia (26%), Alemanha (7%), França
(6%) e China (5%). Esta é a primeira vez que a
Grã-Bretanha não figura entre os cinco primeiros
desde que o Sipri iniciou seu registro, em 1950. Em
geral, o volume de transferências das principais
armas convencionais importantes aumentou 17%,
tanto no período 2003-2007 como no compreendido
entre 2008 e 2012, segundo o estudo.
Tradicionalmente, os principais exportadores
mundiais de armas são os cinco membros
permanentes do Conselho de Segurança (China,
Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia),
único órgão da ONU com poder para declarar a
guerra e a paz. O grupo também é integrado pela
Alemanha, atualmente o terceiro maior fornecedor
de armas.
Além de exportadora, a China também foi uma
importadora importante de armas no período 2008-
2012. Ásia e Oceania representaram quase a
metade (47%) das importações mundiais das
principais armas convencionais. Os cinco maiores
importadores mundiais deste item foram Índia
(12%), China (6%), Paquistão (5%), Coreia do Sul
(5%) e Cingapura (4%), todos asiáticos. Estas
aquisições ocorrem em um momento de escalada
de tensões em torno de disputas territoriais nos
mares da China do leste e do sul.
Holtom afirmou que é difícil explicar em definitivo se
a maioria dos países em desenvolvimento se via
atraída pelas armas chinesas devido aos preços
menores, ou ao fato de Pequim não impor
condições políticas, incluindo padrões de direitos
humanos. O custo e também os termos do acordo
(por exemplo, empréstimos de longo prazo com
juros baixos, trocas, etc.) obviamente são, e serão,
um elemento importante nas considerações na hora
da compra, destacou.
A questão da "segurança do fornecimento" também
seria um fator. Do ponto de vista de alguns
analistas em Moscou, por exemplo, a decisão da
Rússia de incluir seus sistemas S-300 no embargo
de armas ao Irã prejudicou a reputação dessa
nação como "fonte segura de fornecimento de
armas", e se teme que a China acabe se
beneficiando disto. Holtom apontou que a Wikileaks
- organização com base na internet que divulgou
documentos classificados - aponta que as
empresas chinesas também são sensíveis às
preocupações com os direitos humanos e a
pressão dos Estados Unidos.
"No entanto, é provável que ainda a vejam como
uma 'fonte segura de fornecimento de armas',
comparada com alguns dos outros grandes
fornecedores que avaliam as exportações de armas
com uma gama maior de critérios do que Pequim",
disse Holtom. "Por exemplo, Estados-membros da
União Europeia aplicam os oito critérios da Posição
Comum do bloco sobre sérias violações dos
direitos humanos e do direito humanitário
internacional, o impacto sobre os conflitos e a
instabilidade e os riscos de desvio", explicou.
Segundo o diretor do Sipri, os três princípios da
venda de armas da China são: contribuição para a
capacidade de autodefesa do Estado comprador;
não prejudicar a paz, a segurança e a estabilidade
da região ou do mundo; não interferir nos assuntos
internos do país receptor. Holtom também destacou
que se produziram acontecimentos muito
significativos em relação à indústria armamentista
da China desde suas reformas no final da década
de 1990. Mas também enfatizou que alguns setores
chineses podem oferecer sistemas mais avançados
do que outros, e que também há uma diferença
entre os sistemas produzidos pelo Exército de
Libertação Popular e os que são fabricados para
exportação.
Entre os itens que o Sipri inclui em seus dados
sobre entregas figuram o baixo custo e os sistemas
antiquados, como os aviões de combate F-7.
Porém, o JF-17/FC-1 que desenvolveu e vendeu ao
Paquistão, constituiu um fator importante para a
ascensão da China nas estatísticas do Sipri. E
outros Estados têm interesse no mesmo. Como o
avião de combate J-10, estes elementos contêm
componentes russos que podem ser determinantes
quanto às perspectivas de exportação e suas
possibilidades de competir no mercado.
Em relação aos tanques, blindados, artilharia,
fragatas, mísseis antinavios e Sistemas Portáteis
de Defesa Aérea, a China garantiu alguns clientes,
talvez atraídos pelos custos menores destes
produtos. Também se aponta que tanto os
equipamentos como os termos dos acordos e de
treinamento estão melhorando. Envolverde/IPS(FIN/2013)
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