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Internet em casa é sonho de longo prazo em Cuba
Patrícia Grogg
Havana, Cuba, 17/11/2010 (IPS) - A próxima entrada em operação de um cabo submarino de fibra ótica, que elevará consideravelmente as velocidades de conexão à Internet em Cuba, gera moderadas expectativas entre a sociedade civil do país, onde o acesso privado à rede mundial não figura entre as prioridades oficiais.

“Qualquer medida para melhorar a conectividade e ampliar a capacidade de Cuba de acessar a Internet é positiva, porque permitirá que mais vozes da ilha, institucionais e individuais, sejam ouvidas no mundo”, disse à IPS o jornalista cubano Francisco Rodríguez, autor do blog Paquito El de Cuba.

Em sua opinião, “um maior acesso da sociedade civil, incluindo instituições e pessoas individualmente, contribuirá para demonstrar que a Revolução não é tão ruim como alguns a pintam, nem tão perfeita como outros querem pensar. Para isso precisamos de tecnologia, e também de treinamento na diversidade de pensamento e enfoques”. Entretanto, a blogueira Yasmín Portales Machado não crê que o cabo vai aumentar a conectividade doméstica, “porque esse não é o interesse do Estado”. Tampouco espera que baixem as tarifas, porque “se houver um setor da capacidade do cabo para ser comercializado, será em moeda dura para amortizar os custos e a maior parte da população não poderá pagar”, acrescentou.

O último informe sobre o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio diz que em 2008 havia em Cuba 13 usuários de Internet para cada cem habitantes, embora não se faça diferença entre a rede mundial e a interna (intranet), da qual dispõem muitos profissionais. Por outro lado, um relatório do Escritório Nacional de Estatísticas (ONE) indica que apenas 2,9% dos cidadãos pesquisados, entre fevereiro e abril deste ano, em 38 mil domicílios, teve acesso direto à Internet nesse último ano, e a maioria o tenha feito de seus locais de trabalho ou estudo.

Segundo os resultados divulgados recentemente, 5,9% se conectaram por meios privados, 59,9% de seu local de estudo, 7,4% de seu trabalho e 15,9% utilizando a conta de outra pessoa. A mesma pesquisa conclui que os serviços de correio eletrônico foram utilizados por 5,8% das pessoas ouvidas. O acesso à Internet de lares cubanos inclui um certo número de profissionais dos setores acadêmico, científico, cultural ou jornalístico, bem como diplomatas e residentes estrangeiros, que devem pagar suas contas privadas de conexão em pesos conversíveis, que circulam em substituição ao dólar norte-americano.

Os cubanos podem se conectar em cibercafés dos hotéis, pagando o equivalente a entre US$ 7,5 e US$ 12,5 por hora, segundo o tipo de estabelecimento. Uma resolução ministerial de junho de 2009 autorizou a empresa de correios estatal a fornecer o serviço, mas até agora só é oferecido acesso a correio eletrônico e Internet. O projeto para conectar Cuba e Venezuela por meio de um cabo de fibra ótica de 1602 quilômetros poderá estar pronto em meados de 2011, se for cumprido o cronograma anunciado no começo do mês por Waldo Reboredo, vice-presidente da empresa mista Telecomunicaciones Gran Caribe, em declarações à imprensa oficial cubana.

Segundo Waldo, o lançamento do cabo partindo da Venezuela começará dia 25 de janeiro de 2011 e no dia 15 estará chegando à Cuba, de onde seguirá rumo à Jamaica. A seguir vem “a fase de implementação, para que o cabo submarino entre em operações no começo do segundo semestre do próximo ano”, disse o executivo. Todas as fontes oficiais coincidem que o funcionamento desta rota submarina multiplicará em até três mil vezes as velocidades de transmissão de dados, imagens e voz de que dispõe Cuba atualmente para seu tráfego na Internet. Contudo, alertam que essa melhoria na qualidade não significará “uma extensão” das infocomunicações.

O próprio Waldo alertou, ainda, que a entrada em operações da fibra ótica não implica o fim dos serviços de Internet via satélite, únicos possíveis até agora devido às proibições do bloqueio norte-americano contra Cuba, que impede a conexão às redes de fibra ótica que passam próximo do arquipélago caribenho. Segundo informes oficiais de janeiro, este ano começou com crescimento de 10% na conectividade internacional, graças a uma capacidade maior na conexão por satélite, com velocidade atual de 209 megabits por segundo de saída e 379 megabits por segundo de entrada. Essa capacidade crescerá consideravelmente com o cabo cubano-venezuelano, que disporá inicialmente de 640 gibabytes por segundo, onde cada byte equivale a oito bits.

Porém, as autoridades reiteraram que o país continuará priorizando o uso social das novas tecnologias, isto é, em centros educacionais, associações profissionais ou espaços recreativos, entre outros. Citado pela mídia cubana, o primeiro vice-ministro da Informática e das Comunicações, Ramón Linares, baseou essa política em dificuldades na infraestrutura de telecomunicações cuja solução exige investimentos que o país não está em condições de enfrentar no momento.

Gustavo Andújar, vice-presidente da Signis, Associação Católica Mundial para a Comunicação, sabe “muito pouco” sobre o “uso social” da Internet, embora compreenda “que as universidades e outros centros de saúde, educacionais, culturais, empresas e outras entidades econômicas necessitem prioritariamente desse acesso”. “Espero que na visão dos que tomam decisões neste campo esteja o acesso maciço à Internet para todos os cubanos. Do contrário, perderemos definitivamente o trem”, afirmou à IPS o comunicador, que não se conforma por seu país ficar atrás no uso “doméstico” ou “popular” desta tecnologia. Envolverde/IPS

(END/2010)