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Grupos religiosos do Brasil condenam ataques ao Islã
Fabiana Frayssinet
Rio de Janeiro, Brasil, 19/9/2012 (IPS) - A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Brasil (CCIR) condenou o filme Innocence of Muslims (A Inocência dos Muçulmanos) por seu conteúdo "desrespeitoso" contra seu profeta, no contexto de uma série de atividades para reforçar a diversidade de culto no país.

A organização "repudia qualquer manifestação que deprecie crenças e falte com o respeito ao sagrado das religiões", diz um comunicado da CCIR, que é formada por diversas entidades, como Federação Israelita do Rio de Janeiro, Congregação Espírita Umbandista e outras vinculadas aos credos protestante, católico, muçulmano, do candomblé, budista e grupos ciganos e indígenas.

"A CCIR também destaca que não apoia atitudes violentas e que, pela convivência com os seguidores do Islã, afirma a seriedade e o respeito que os muçulmanos têm pela pregação do amor, da religiosidade e dos valores que ajudam a construção de um mundo melhor", acrescenta a nota. O filme produzido nos Estados Unidos por grupos ainda não identificados, mas repudiado por Washington, está gerando uma série de manifestações pacíficas e violentas diante de sedes diplomáticas norte-americanas em várias partes do mundo.

Alguns trechos reproduzidos na internet mostram Maomé, o profeta dos muçulmanos, como violento, mulherengo, homossexual e corrupto. "É um filme altamente ofensivo, e de maneira gratuita ofende Maomé, mostra os muçulmanos como bárbaros e incentiva o ódio", disse à IPS o integrante da Sociedade de Beneficência Muçulmana do Rio de Janeiro, Sami Isbelle. Integrante da CCIR, a Sociedade condenou da mesma maneira as reações violentas, "contrárias à postura islâmica", geradas pelo filme.

Para Sami a reação deveria ser expressa "por via pacífica e legal", por exemplo, com campanhas nos meios de comunicação para mostrar "quem foi o profeta Maomé e seu legado à humanidade". É precisamente este caminho que tenta a CCIR, que nasceu em 2008 com o objetivo inicial de defender grupos religiosos de matriz africana dos ataques de setores majoritários vinculados a igrejas neopentecostais.

No dia 16, cerca de 200 mil pessoas convocadas pela CCIR, e pertencentes a cerca de 25 grupos religiosos, percorreram a Praia de Copacabana em uma Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa. Os manifestantes pediram o fim dos preconceitos e atos de violência contra praticantes de diversos credos e também um compromisso com a diversidade religiosa dos candidatos à prefeitura da cidade nas eleições de outubro.

Além disso, diante da polêmica gerada pelo filme, expressaram sua solidariedade com os seguidores do Islã. "Não pode haver falta de respeito contra nenhuma religião", disse à IPS Maria Isabel Carvalho, praticante do candomblé, religião de origem africana. "Qualquer manifestação ofensiva contra uma religião deve ser combatida", destacou o sacerdote católico Leonardo Holtz, que recordou à IPS um caso no Brasil que considera "similar" ao de Innocence of Muslims.

Holtz se referia ao Segundo Filho de Deus, um projeto cinematográfico anunciado pelo humorista Renato Aragão, mas do qual teria desistido depois da reação de grupos católicos e evangélicos. No filme Renato representaria um suposto segundo filho de Deus que viria ao mundo realizar a missão na qual Jesus fracassara. No Brasil, com mais de 192 milhões de habitantes e conhecido como o país com maior quantidade de católicos do mundo, essa religião perde fiéis diante do crescimento das igrejas neopentecostais e do setor de pessoas que se declaram agnósticas.

O Censo de 2010 mostra que a proporção de católicos caiu de 93%, em 1960, para 65% atualmente. Já os evangélicos, que em 1960 eram apenas 4% da população, em 2010 chegavam a 22%. A maioria pertencente a credos neopentecostais, como Assembleia de Deus ou Igreja Universal do Reino de Deus. A proporção de pessoas sem religião também aumentou nesse período, de 0,6% para 8%, 2% se declararam espíritas e os seguidores dos ritos de umbanda e candomblé ficaram em 0,31%, embora seus seguidores considerem que esses números indicam um sub-registro.

Embora a religiosidade de origem africana seja reconhecida no Brasil como um importante componente da identidade nacional, seus praticantes ainda são vítimas de preconceitos e ataques. Ricardo Rubim, porta-voz da CCIR, disse à IPS que a entidade recebeu 118 denúncias de intolerância religiosa, incluídos ataques a centros espíritas, de umbanda e candomblé. Para alertar a sociedade sobre preconceitos desse tipo, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva estabeleceu, em 2007, o dia 21 de janeiro como Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, que foi aprovado pelo Congresso.

Desde então, diversos grupos afro-brasileiros buscam a aprovação de um plano nacional de combate à intolerância, que sejam cumpridas leis vigentes para promover o respeito aos cultos africanos e que se repare política e historicamente esses grupos para garantir a liberdade de culto prevista na Constituição. A Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial é encarregada da promoção desse tipo de ações, incluindo o registro de todos os templos de umbanda e candomblé do país. Envolverde/IPS (END/2012)