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A hora do café em Uganda
Fred Ojambo
Kampala, Uganda, 2/10/2012 (IPS) - Uganda, maior exportador de café da África, corre contra o relógio para aumentar em 60 mil toneladas anuais sua produção nos próximos três anos.

Contudo, atores do setor acreditam que tal façanha será impossível de ser conseguida. O objetivo desta nação da África oriental é aumentar a produção anual até 4,5 milhões de sacas de 60 quilos, e pretende fazer isso mediante um programa governamental de replantio que já está em curso.

Francis Chesang, gerente de produção da estatal Autoridade de Desenvolvimento do Café de Uganda (UCDA), disse à IPS acreditar que o país logo cumprirá sua meta. "Nosso programa para replantio está dando resultados, e devemos poder aumentar a produção anual em 2015, porque estão sendo produzidas mais das novas árvores de rápido crescimento e alto rendimento", afirmou.

Uganda, segundo maior produtor de café do continente, atrás da Etiópia, lançou seu programa para replantar café em 1994, um ano depois de ter detectado a doença traqueomicose, que devastou metade de suas árvores da variedade Robusta. O programa pretende "substituir gradualmente as árvores de café velhas e doentes por variedades novas, geneticamente puras e de alto rendimento, ao ritmo de 5% ao ano para Robusta e de 2% anuais para Arábica".

Atualmente Uganda tem reservas combinadas de 300 milhões de árvores dessas duas variedades, segundo a Autoridade. Nos últimos 18 anos foram plantados pelo menos 140 milhões de pés de café, principalmente do tipo Robusta, com o objetivo de chegar a um total de 200 milhões de árvores até 2015, informou Chesang. Esta campanha busca "otimizar a entrada de divisas no país, bem como o pagamento aos agricultores", acrescentou.

O cultivo representa de 20% a 30% da renda nacional anual com exportações. Entre 1º de outubro de 2010 e setembro de 2011, Uganda arrecadou US$ 448,9 milhões a partir da exportação de 3,15 milhões de sacas de café, segundo a UCDA. Nesse período, o país foi o nono maior exportador mundial do grão, seguido por Etiópia, no décimo lugar, de acordo com a Organização Mundial do Café.

Segundo David Muwone, subdiretor-executivo da União Nacional de Agronegócios e Empresas Agrícolas Cafeeiras, é improvável que Uganda cumpra seu objetivo de aumentar a produção, já que os rendimentos são menores do que o potencial. Isto porque o país ainda não substituiu as árvores destruídas pela traqueomicose em 1993. "Será difícil atingir essa meta, porque ainda precisamos plantar 60 milhões de árvores", afirmou. Muwonge acrescentou que a insuficiente quantidade de árvores, mais o envelhecimento de outras, as más práticas agrícolas e os efeitos da mudança climática tornam pouco real um aumento da produção cafeeira em um milhão de sacas nos próximos três anos.

Fred Kyobe, agricultor de 64 anos que vive no distrito de Wakison, na Região Central de Uganda, disse à IPS que demorou muito conseguir que os volumes de produção se recuperassem da devastação causada pela traqueomicose, já que os jovens não tiveram paciência para se aventurar no cultivo de café. O atrativo dos empregos de pagamento rápido em centros urbanos fez com que os jovens abandonassem essa atividade, porque consome mais de três anos fazer com que o cultivo comece a dar rendimentos, explicou. "Meus filhos abandonaram a agricultura por um negócio de táxis em motocicleta na cidade, e como sou velho tenho menos energia. Além disso, o golpe que recebi quando a traqueomicose atacou minha plantação me fez perder o entusiasmo", lamentou o agricultor.

Em Uganda há pelo menos meio milhão de produtores de pequena escala que cultivam café. Destes, 90% são donos de terras entre 0,5 e 2,5 hectares, segundo a UCDA. O setor emprega 3,5 milhões de pessoas. Em seu site, a UCDA diz que "o café continua tendo um papel crucial na economia do país, contribuindo imensamente com os ganhos de exportação, em torno dos US$ 449 milhões entre 2010 e 2011, e proporcionando sustento a cerca de 1,32 milhão das 3,95 famílias agrícolas".

O café é um produto de exportação fundamental para Uganda, embora antes representasse 60% da entrada de divisas e agora apenas de 20% a 30%, destacou Muwonge. "Um investimento maior no setor poderá dar frutos nos programas governamentais de redução da pobreza", acrescentou. Uganda reduziu sua forte dependência do café como caminho para obter divisas promovendo exportações não tradicionais, entre elas pescado, milho e cacau.

O presidente Yoweri Museveni destacou na semana passada a importância do cultivo, afirmando que todo aquele que for encontrado contaminando a qualidade do café será preso e levado à justiça. No passado, alguns agricultores foram acusados de colher grãos verdes, e comerciantes de misturar café de baixa qualidade com variedades mais sofisticadas e vendê-lo como se fosse de qualidade superior.

"A urgência de colher o café verde está pautada pela pobreza, já que, às vezes, surgem necessidades urgentes antes que o grão amadureça totalmente", contou à IPS Sunday Mugaga, que planta café no distrito de Kayunga, na Região Central. Sua renda com café basta para apenas manter sua família, por isso a complementa vendendo os pescados que tira do Rio Nilo, que corta seu distrito.

A Mugaga atrai a ideia de expandir sua área de plantio de café de quase um hectare, mas se vê limitado pela falta de terra disponível. "Meus dois irmãos e eu herdamos apenas quatro hectares de nosso pai, o que limita minha expansão. No entanto, com o tempo plantaria mais café, quando adquirir mais terras", afirmou. "Aprecio muito o café porque o dinheiro que ganhei com ele permitiu enviar meus cinco filhos à escola, mas devo admitir que não é suficiente para cobrir meus gastos", acrescentou.

Porém, Uganda ainda pode contar com este cultivo para a maior parte de sua arrecadação de divisas nos próximos três anos, já que planeja iniciar sua produção petroleira comercial apenas em 2016, disse à IPS o pesquisador independente Robert Kasozi. Também se prevê que o país se beneficiará do aumento da demanda mundial, que, pelas projeções, superará a produção nos próximos anos. Isto está especialmente guiado por uma demanda maior por café na Rússia, Índia e China, pontuou Kasozi.

Enquanto isso, em meio ao aumento da demanda mundial, muitos produtores seguem comprometidos com o café devido aos altos preços que cobram por seus cultivos, disse à IPS o agricultor Isaac Ntumwa, do distrito de Masaka, na Região Central. "Muitos produtores do meu distrito se dedicam a este cultivo com a esperança de obter melhor colheita nos próximos anos", afirmou. Envolverde/IPS (END/2012)