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A guerra do Caribe
Peter Richards
Nações Unidas, 8/10/2012 (IPS) - Seus discursos na Organização das Nações Unidas (ONU) não foram manchetes, como o do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, nem foram polêmicos, como o do mandatário iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

No entanto, os líderes caribenhos esperam que sua furiosa declaração de guerra à mudança climática tenha eco em todo o mundo. Durante o 67º período de sessões da Assembleia Geral da ONU, que acaba de acontecer, os líderes da Comunidade do Caribe (Caricom) formaram uma frente unida contra o aquecimento global e pediram que fossem levados mais a sério os problemas dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS).

"As ilhas de nosso planeta estão em guerra contra a mudança climática, o aumento das temperaturas e a elevação do nível do mar", disse aos delegados o primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves. "Esta guerra não é algo que ocorrerá no futuro, mas é algo presente e em andamento. A sobrevivência de nossas ilhas está em jogo", acrescentou.

A Caricom espera que, quando a comunidade internacional se reunir na Terceira Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável dos SIDS, haja progresso em várias recomendações que, por exemplo, surgiram da cúpula da Rio+20, realizada em junho deste ano. "O fracasso registrado até esta data em alcançar um resultado legalmente vinculante em matéria de mudança climática é de grave preocupação", disse o embaixador de Dominica, Vince Henderson. "Enquanto o debate continua, os desafios de nossas ilhas ficam cada vez maiores", destacou.

Dados da Caricom mostram que na última década os danos causados por eventos meteorológicos extremos custaram à região meio trilhão de dólares. "Em termos reais, as ameaças às possibilidades de desenvolvimento da região do Caribe são severas, e agora se reconhece que a adaptação exigirá um importante e sustentado investimento de recursos", disse o ministro do Meio Ambiente e Mudança Climática da Jamaica, Roberts Pickersgill, durante um painel realizado no dia 2 deste mês em Kingston.

Por sua vez, a especialista em manejo de recursos ambientais Sandra Prescod Dalrymple concorda que a comunidade internacional deveria sentir-se na obrigação de apoiar o Caribe, mas, acrescentou, os países do Norte industrial estão "cada vez menos dispostos" a fazê-lo. "A região precisa aproveitar seus próprios recursos e buscar novos esforços de financiamento em matéria de mudança climática. Está claro que estamos sofrendo o impacto do aquecimento global e que nosso setor econômico sofre", afirmou à IPS.

O primeiro-ministro de Antiga e Barbuda, Baldwin Spencer, acaba de participar da cúpula da Aliança de Pequenos Estados Insulares (Aosis), na qual afirmou: "Não podemos esperar que nossas terras desapareçam. Devemos agir agora e responder à crise da mudança climática, garantindo que nem um só país seja sacrificado, não importa o quanto seja pequeno".

Spencer alertou que "está ocorrendo um branqueamento de corais em nossas costas e os furacões são cada vez mais severos e recorrentes". Acrescentou que "o desejo de meu governo é que esta egoísta falta de ação termine em Doha, e que um resultado positivo das negociações sobre mudança climática traga novas esperanças para a humanidade e compaixão em relação ao nosso planeta". Em Doha, capital do Catar, acontecerá a 18ª Conferência das Partes (COP 18) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática.

Por sua vez, o primeiro-ministro de São Cristóbal e Neves, Denzil Douglas, lamentou que os países que mais contribuem com gases-estufa, responsáveis pelo aquecimento global, ainda não assumam suas responsabilidades pela degradação costeira, o branqueamento dos corais, os danos à infraestrutura e pela perda de vidas. "É enorme a carga física, mental e financeira que o uso energético de outras nações colocou sobre países como o meu, nos arrastando para uma dívida maior e frustrando severamente nossos esforços para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio", destacou Douglas na Assembleia Geral.

"Embora uma mudança para as energias renováveis não solucione imediatamente a miríade de problemas causados pela economia global, baseada fundamentalmente em combustíveis fósseis, a adoção de uma economia verde, na verdade, ajudará a frear a espiral descendente na qual se encontra nosso planeta", acrescentou Douglas.

Por sua vez, o presidente da Guiana, Donald Ramotar, que assinou um contrato multimilionário com a Noruega para implantar um plano contra o desmatamento, disse que, "apesar dos fortes argumentos científicos e econômicos a favor de uma ação, a resposta global à crise climática se mostra curta, tanto em escala quanto em urgência". Segundo Ramotar, as reduções de gases-estufa projetadas são muito menores do que o necessário, e destacou que os cientistas preveem consequências catastróficas se as emissões não forem reduzidas.

"Alguns Estados já enfrentam uma extinção iminente. Para acrescentar insulto à injúria, a promessa de um financiamento de trâmite rápido feita em Copenhague há alguns anos não se concretizou", acrescentou Ramotar, em referência à conclusão da COP 15, realizada na capital dinamarquesa em 2009. Entretanto, Prescod Dalrymple acredita que o Caribe deveria continuar se concentrando em desenvolver capacidade de resistência e encontrar novas vias de acesso aos recursos necessários.

"A responsabilidade não deve ser apenas dos governos, mas também o setor privado deve estar completamente comprometido. Necessitamos tecnologia, capacitar nossa mão de obra e usar nossa grande população de jovens que buscam oportunidades e trabalho decente", disse à IPS. "Eu apoio as associações com o setor privado, e desejo que a região avance para estabelecer padrões e procedimentos obrigatórios", acrescentou.

Os países da Caricom também destacaram a importância de estender e reformar o Protocolo de Kyoto antes que perca sua vigência, no final deste ano. A chanceler e ministra de Comércio Exterior de Barbados, Maxine McClean, disse que seu país comemora a decisão adotada no ano passado na COP 17, em Durban, de lançar negociações sobre um novo acordo legalmente vinculante para entrar em vigor a partir de 2020.

Porém, lembrou que um acordo para depois de 2020 carece de significado "se não houver ações ambiciosas para reduzir as emissões globais e fornecer financiamento e tecnologia aos países em desenvolvimento vulneráveis. Isto é essencial se quisermos nos adaptar aos cada vez mais graves impactos da mudança climática". Envolverde/IPS (END/2012)