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Mudança climática é tabu na campanha eleitoral dos Estados Unidos
Becky Bergdahl
Nova York, Estados Unidos, 25/10/2012 (IPS) - Os Estados Unidos sofreram este ano o verão mais quente de sua história, com secas e incêndios em diversas partes de seu território.

E, segundo um informe da firma de resseguros Munich Re, as perdas com pagamentos de seguros devido a eventos climáticos extremos quase quadruplicaram desde 1980. Diante disto, alguns poderiam esperar que o aquecimento global fosse um dos temas mais importantes da campanha no país para as eleições presidenciais de 6 de novembro.

Entretanto, nos três debates eleitorais, transmitidos pela televisão para todo o país e boa parte do mundo, nem o presidente e candidato à reeleição, Barack Obama, do Partido Democrata, nem seu adversário, Mitt Romney, do Partido Republicano, sequer mencionaram o tema. Houve outro debate, entre os candidatos a vice-presidentes, no qual a mudança climática também foi omitida.

"Está se perdendo a oportunidade de se falar sobre um dos principais desafios que enfrentamos", disse à IPS Bob Deans, assessor do ecologista e não governamental Conselho para a Defesa dos Recursos Naturais. "Segundo um novo estudo da Universidade do Texas, 73% da população norte-americana acredita que a mudança climática está efetivamente ocorrendo. Já em recente pesquisa da Universidade de Yale, 70% dos entrevistados deram a mesma resposta. As consultas foram feitas em setembro.

Assim, o que vemos é que sete em cada dez norte-americanos têm conhecimento do problema", pontuou Deans, que também citou um informe da Munich Re, segundo o qual os desastres naturais aumentaram mais na América do Norte do que em qualquer outra parte do mundo desde 1980. As perdas asseguradas por catástrofes climáticas na região totalizaram US$ 510 bilhões entre 1980 e 2011, segundo a firma alemã, a maior multinacional de resseguros do mundo.

Isto mostra que a mudança climática não é apenas uma questão ambiental, mas também é financeira, segundo Deans, integrante de uma das organizações ecologistas mais poderosas dos Estados Unidos. "Conforme o clima vai ficando extremo, as pessoas vão entendendo que também se trata de um assunto econômico sério, não apenas uma questão de abraçar árvores", afirmou o ativista.

"O aumento do nível do mar pode colocar em risco as casas, e se uma casa está ameaçada não se consegue obter uma hipoteca. Os produtores de milho não conseguem uma boa colheita em anos. Vemos famílias que tiveram fazendas durante anos e agora não podem mais sustentá-las", destacou Deans. Durante os debates públicos, incluindo um centrado em política externa, no dia 22, tanto Obama quanto Romney mencionaram a necessidade de se reduzir os preços dos combustíveis. Porém, nenhum se manisfestou sobre a questão de se reduzir as emissões de gases-estufa responsáveis pela mudança climática.

"Fica cada vez mais óbvio que Obama e Romney não são diferentes. Ambos se equivocam em pensar que qualquer menção ao clima é uma desvantagem política", disse à IPS a ativista Kyle Ash, do Greenpeace Estados Unidos. "Apesar de a última pesquisa ter demonstrando que a vasta maioria do público está muito preocupada pela mudança climática, os dois candidatos preferem atender os interesses dos combustíveis fósseis em lugar de investir em soluções para o problema do clima", apontou.

"A maior diferença entre ambos está na plataforma da campanha republicana, que diretamente nega a mudança climática. Mas, os dois candidatos estão em cargos administrativos que adotaram políticas contra a contaminação", disse Ash, para quem tanto Obama quanto Romney se arriscam a perder votos se continuarem ignorando este assunto tão importante. "Centenas de milhares de norte-americanos solicitaram a Obama e a Romney que expressem suas opiniões sobre política climática, já que é um tema grave e premente para a economia, e inclusive para nosso estilo de vida básico", afirmou Ash.

Em uma tentativa de mobilizar a população e pressionar os líderes políticos, a seção norte-americana do grupo internacional de ação climática 350.org lançou uma nova campanha, denominada Do The Math Tour (Gire Faça os Cálculos), que começará em 7 de novembro, dia seguinte às eleições, e incluirá atividades em 20 cidades. Conta com apoio de celebridades, como a jornalista e ativista canadense Naomi Klein e o arcebispo anglicano sul-africano Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz.

"Se vamos enfrentar as campanhas pelos combustíveis fósseis, precisamos de um movimento. Elas têm todo o dinheiro, por isso precisamos testar algo diferente. Este giro está criado para gerar um movimento suficientemente forte para vencer", disse à IPS o ativista Daniel Kessler, da 350. Org. "É um cálculo simples. Podemos queimar até mais 565 gigatoneladas de carbono e manter o aquecimento global abaixo dos dois graus. Qualquer coisa além disso colocará em risco a vida na Terra", disse Kessler. "As corporações agora têm 2.795 gigatoneladas em suas reservas, cinco vezes mais do que a quantidade segura. E planejam queimar tudo isso, a menos que atuemos rapidamente para detê-las", acrescentou.

Kessler também disse que, embora nenhum candidato fale abertamente sobre a mudança climática, há claras diferenças entre Obama e Romney. "Parece que Romney como presidente seria um desastre tanto para o meio ambiente quanto para o clima", afirmou. "Disse que quer tirar da EPA (Agência de Proteção Ambiental) a autoridade para regular as emissões de carbono, acabar com os créditos fiscais para energia renovável e manter os enormes subsídios às firmas de petróleo e carvão, que já estão entre as mais lucrativas do mundo", recordou Kessler.

"As políticas de Obama não são suficientemente fortes para enfrentar o problema da mudança climática, mas ele tem que lutar para proteger a EPA e fazer o maior investimento em energias limpas na história mundial", enfatizou. Os comandos das campanhas dos candidatos não responderam aos pedidos da IPS para que comentassem este assunto. O aquecimento global "é completamente ignorado pelo presidente Obama e por Romney nos debates públicos", disse Scott McLarty, coordenador de mídia para o Partido Verde. "Mas, nos debates alternativos, a candidata do Partido Verde, Jill Stein, falou sobre a mudança climática várias vezes. E continuará falando", disse McLarty à IPS. Envolverde/IPS (END/2012)