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República Democrática do Congo: Reabilitação de Antigas Crianças-Soldado que "Gostavam" de Matar
Kristin Palitza
Bukavu, República Democrática do Con, 12 de novembro (IPS) - A vida de Murhula* mudou para sempre quando tinha nove anos de idade. Foi o ano em que aprendeu a matar, a torturar e a violar. Foi o ano em que as milícias entraram na sua escola numa pequena aldeia perto de Bukavu, no Sul do Kivu, na República Democrática do Congo (RDC), e o obrigaram, juntamente com outras crianças, a acompanhá-las para os campos na floresta onde foram treinados a tornarem-se soldados. "Aconteceram muitas coisas sobre as quais não consigo falar. Foi muito desumanizador," recorda Murhula, agora com 25 anos. Durante nove anos lutou contra grupos militares diferentes: primeiro a Coligação Congolesa para a Democracia, depois o Mudundo, os Mai-Mai e finalmente o Exército Nacional Congolês.

Perto de 30.000 crianças da RDC, mais de um terço raparigas, foram treinadas a ser crianças-soldado para ajudar a luta numa guerra pelo poder tribal e político, assim como pelos recursos naturais, guerra essa em que quatro milhões de pessoas morreram até hoje.

A RDC ratificou uma série de tratados internacionais para proteger os direitos das crianças. Em 2001, esta nação da África Central assinou a Resolução 1341 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que exige o fim do recrutamento das crianças-soldado e a sua desmobilização e reabilitação. Mas, segundo a Amnestia Internacional, o governo congolês pouco tem feito para implementar estes acordos.

Depois das eleições democráticas na RDC em 2006, e especialmente depois do acordo de paz de Goma em 2008, que trouxe alguma paz ao leste da RDC, as organizações de ajuda internacional, como o Fundo das Nações Unidas para a Infância, a Caritas, agência de ajuda humanitária católica, e outras organizações decidiram ajudar a desmobilização das crianças-soldado. (O país vai regressar às urnas no dia 28 de Novembro para a sua segunda eleição democrática desde a independência).

Mas o apoio psicológico a milhares de jovens traumatizados e submetidos a lavagens cerebrais que necessitam de ajuda para regressar a uma vida normal não faz parte da desmobilização.

A RDC tem agora uma geração de crianças e jovens adultos que não se lembram de uma vida sem violência. Traumatizados por acontecimentos que nem os adultos nem as crianças deviam testemunhar, as antigas crianças-soldado transformaram-se em agressores temidos, ladrões e drogados que têm dificuldade em voltar a fazer parte da sociedade. Até os pais se recusam a aceitar estas crianças de volta ao convívio da família porque, como demonstra o exemplo de Murhula, há sinistras verdades escondidas no passado de muitas antigas crianças-soldado.

Completamente submetido a uma lavagem cerebral pela ideologia rígida e hierárquica das milícias, o rapaz começou a gostar de infligir a dor, justificando os seus actos como "normais em tempo de guerra."

"Gostei de ser soldado. Não sei quantas pessoas matei. De qualquer forma, só estava a seguir ordens," disse num tom de desafio.

É uma contradição surpreendente ter de enfrentar esta realidade - a maior parte das crianças-soldado são vítimas traumatizadas e agressores violentos ao mesmo tempo.

A forma como o perfil deste conflito se desenrola nos seus espíritos e como precisa de ser abordado está agora a ser investigado por Tobias Hecker e Katharin Hermenau, psicólogos da Universidade de Konstanz. Actualmente trabalham com soldados num centro de reabilitação em Goma, a capital regional do Norte do Kivu, no leste da RDC.

"Chegámos à conclusão que aqueles que se divertiram com a violência sofrem menos perturbações pós-traumáticas mas é mais difícil reintegrá-los na sociedade porque estão preparados a tornarem-se violentos mais uma vez," relatou Hermenau.

Com base em mais de 200 entrevistas, os investigadores constataram que um número surpreendemente baixo de antigas crianças-soldado - 25 por cento - tinham a síndrome de stress pós-traumática. Isto significa que três em cada quatro continuam a ligar a violência a emoções positivas.

"Vemos muito orgulho, sentimentos de vingança e poder. Muitos falam da vontade de matar," afirmou Hermenau.

O resultado da investigação sublinha como é problemático reintegrar as crianças-soldado na sociedade.

Uma organização que tem esta difícil tarefa é o Centro para a Aprendizagem Artesanal e Profissional (CAPA) em Bukavu, a capital provincial do Sul de Kivu, localizada a 100 quilómetros a sul de Goma. Esta organização sem fins lucrativos ensina às antigas crianças-soldado uma série de ofícios, incluindo aplicação de tijolos, carpintaria, trabalhos em couro e estofos.

O director da CAPA, Vital Mukuza, não tem ilusões sobre a reabilitação das antigas crianças-soldado.

"É muito difícil. São agressivos, irritáveis e propensos à violência e vandalismo, representando uma ameaça constante aos outros.

"Não respeitam as normas ou a autoridade e estão habituados a apoderarem-se de tudo o que querem," acrescentou. "A adaptação à vida normal demora vários meses."

É aqui que Murhula está a tentar iniciar uma nova vida, aprendendo a construir guitarras.

Nos últimos dois anos, dedicou-se a aprender esta nova profissão, com a esperança de poder abrir uma pequena loja um dia, talvez constituir uma família.

"Não quero pensar mais no passado," disse.

Mas a maioria das 30.000 crianças-soldado não tem acesso a uma rede de apoio psicológico, social e económico. Depois de desmobilizados, têm de sobreviver por si próprios e muitas vezes vivem isolados e em pobreza.

Mulume*, de 22 anos, que foi recrutado à força pelos Mai-Mai quando tinha 17 anos, está agora desempregado e admitido que se sente perdido. Embora tenha sido autorizado a regressar à sua aldeia natal de Kahungu, a 65 quilómetros a norte de Bukavu, sente muita desconfiança à sua volta.

Quando lhe perguntam se vê um futuro para ele, abana a cabeça e diz "não".

"Tenho simplesmente de aceitar o meu destino," afirmou.

*Os apelidos foram omitidos para proteger a identidade das pessoas. (END/2012)