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Superestrelas por um mundo com menos pobreza
Becky Bergdah
Nações Unidas, 16/11/2012 (IPS) -
A iniciativa Why Poverty? (Por Que a Pobreza?) reúne
30 curtas-metragens documentários, de premiados
diretores e de novos talentos do cinema, sobre
diferentes aspectos da miséria, como desigualdade de
gênero, segregação residencial, ajuda e comércio.
Bosse Lindquist é um deles. De 25 a 30 deste
mês, os filmes serão transmitidos para todo o
mundo por intermédio de 62 canais nacionais,
chegando a 500 milhões de pessoas. Depois
haverá um debate na internet sobre o assunto.
A Why Poverty? foi lançada em 27 de setembro na
Organização das Nações Unidas (ONU) e é
administrada pela Steps, uma entidade com sedes
na Dinamarca e na África do Sul. A agenda não
busca arrecadar dinheiro ou impulsionar uma
solução única para a pobreza mundial, mas
provocar discussões sobre todos os aspectos
possíveis da pobreza.
Em sua colaboração, o cineasta sueco Bosse
Lindquist aborda o ponto de vista da caridade, com
o documentário Give us the Money (Nos Dê
Dinheiro). Lindquist conversou com a IPS sobre o
filme e o fato de focar nas estrelas de rock
irlandesas Bob Geldof e Bono, que há anos
defendem os mais pobres.
IPS: Como lhe ocorreu a ideia do filme?
BOSSE LINDQUIST: Fui convidado pela BBC, a
SVT e demais editores encarregados, para lançar
um olhar para a solidariedade e o desenvolvimento.
Após ter explorado o mundo dos famosos, me dei
conta de que Geldof, que iniciou de muitas
maneiras a participação das celebridades na luta
contra a pobreza, era um dos poucos atores
consistentes no longo prazo. Ele é ativista desde
1984, quando começou arrecadando dinheiro para
as vítimas da fome e depois trabalhando pela
mudança de sistema. Logo ficou claro que Bono
unira-se a ele nesta luta, já nos anos 1990, e que
ambos, cooperando com muitos outros indivíduos e
organizações, conseguiram êxitos destacáveis. E
ainda o fazem.
IPS: Os shows e as campanhas iniciadas por
artistas como Bono e Geldof conseguiram ajudar os
pobres?
BL: Sim, e também é importante mencionar que
não há estudos científicos mostrando exatamente o
impacto que causaram. Lamentavelmente, o
mesmo ocorre com a incidência geral da ajuda para
o desenvolvimento econômico na África. Estes são
assuntos muito complicados, que dependem de
múltiplos fatores. De todo modo, fica claro que
Bono e Geldof tiveram um papel importante ao
conseguirem que, em 2005, fosse cancelada a
elevada dívida da África com o mundo rico. Eles
também ajudaram o presidente dos Estados
Unidos, George W. Bush, a criar o Pepfar (Plano de
Emergência do Presidente para Alívio da Aids) e a
fazer com que o mundo rico financiasse a Gavi
(iniciativa mundial para a vacina contra a aids).
Estes dois projetos, juntos, financiam uma grande
parte dos medicamentos que salvam vidas e que
atualmente chegam a oito milhões de africanos
infectados com o vírus HIV, causador da aids.
IPS: Uma superestrela rica e branca pode se
converter em porta-voz dos pobres da África?
BL: Bono e Geldof se tornaram hábeis defensores e
lobistas que trabalham por maiores recursos para
os extremamente pobres da África, bem como por
uma mudança de sistema em nível mundial para
conseguir legislação importante a respeito da
transparência da ajuda. Mas porta-vozes, não. Este
trabalho deve ser feito por africanos.
IPS: Quanto do ativismo dos artistas se utiliza para
potencializar sua imagem e quanto para ajudar?
BL: Pouquíssimas celebridades participam de
atividades solidárias para se beneficiar
artisticamente. Não há provas de que Bono e
Geldof façam isto. Mas, naturalmente, seu genuíno
ativismo, sem dúvida, não prejudica suas imagens
nem suas vendas recordes de álbuns.
IPS: Dos países mais ricos, 20% consomem 80%
dos recursos naturais do mundo. Alguns vivem no
luxo absoluto, outros passam fome. É possível
conseguir a igualdade?
BL: Simplesmente devemos trabalhar por um
mundo mais justo e equitativo. Qualquer outra coisa
será injusta. Também, esta é a única maneira, se
queremos fazer o mundo mais pacífico e seguro.
Creio que isto também é um requisito para fazer
com que todos juntem esforços e combatam os
perigos ambientais e o aquecimento global.
IPS: Como podemos conseguir isto?
BL: O combate tem que se desenvolver em
numerosas plataformas. Uma luta muito importante
tem a ver com aprovar leis para enfrentar a
corrupção e o roubo nas transações entre países
com recursos minerais ou agrícolas e os
compradores no mundo rico. Outra luta enorme tem
a ver com dar educação a cada criança na Terra. E
uma terceira luta, obviamente, é para garantir que
as mulheres tenham as mesmas oportunidades que
os homens.
IPS: O que diz sobre o conceito de "armadilha da
ajuda", teoria segundo a qual os países pobres
podem ficar dependentes da ajuda externa?
BL: Não é tanto o caso de os países mais pobres
se tornarem dependentes, mas sim de os
funcionários de seus governos ficarem
dependentes. Há um elemento corruptor em todas
as grandes transferências de dinheiro, e há um
perigo constante de que a pessoa seja seduzida
por isto. Mas o fato de tal "armadilha da ajuda"
existir não é motivo para freá-la, embora seja um
motivo muito forte para cobrar transparência em
relação a quanta ajuda se dá e se distribui, com
meios inerentes para que os próprios receptores
controlem como se desembolsa o dinheiro dado a
um país. Envolverde/IPS (END/2012)
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