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O povo guarani sofre pelo subsolo de sua terra
Pascuala Mena Trigo
Camiri, Bolívia, 19/11/2012 (IPS) -
O povo guarani, que sente pertencer à terra e não o
contrário, vive na Bolívia em permanente emergência
desde que no subsolo de seu habitat foram
descobertos hidrocarbonos, cuja exploração prejudica
suas comunidades e cujos benefícios as marginaliza.
Com mobilizações, bloqueios de estradas ou de
campos petroleiros, e participação em pequenas ou
grandes marchas, os guaranis buscam ser ouvidos
pelo governo de Evo Morales, pelas autoridades dos
departamentos do sul do país onde estão
assentados, e pela estatal Yacimientos Petrolíferos
Fiscales Bolivianos (YPFB).
Desde 19 de outubro, moradores de comunidades
rurais guaranis próximas realizam um bloqueio do
campo exploratório de Caigua, sul do departamento
de Tarija, exigindo que sejam consultados e
considerados sobre os traçados de estradas e
outras infraestruturas vinculadas a este
empreendimento. Um mês antes, moradores
guaranis bloquearam por vários dias uma
importante estrada internacional que une este país
à Argentina, no vizinho departamento de
Chuquisaca, em um protesto das 27 capitanias
guaranis pela desatenção por suas demandas e
pelo descumprimento de promessas sobre o
desenvolvimento do Chaco boliviano, onde vivem.
"Apostamos sempre pelo diálogo, mas este tipo de
ação é o único recurso que temos para que
respondam às nossas demandas quando o diálogo
fracassa", disse à IPS o presidente da Assembleia
do Povo Guarani (APG), Faustino Flores. Cesar
Aguilar, presidente do Conselho de Capitanias
Guaranis de Tarija, explicou que os trabalhos de
exploração em Caigua já contaminaram uma
represa que fornece água para as comunidades
vizinhas, enquanto as estradas que são abertas
invadem terras agrícolas de 400 famílias da área.
Também em setembro foi bloqueada a construção
de uma unidade separadora de líquidos associados
ao gás natural, em uma área que é Terra
Comunitária de Origem, uma figura jurídica que
concede a propriedade coletiva a um povo indígena
sobre um território e impede ali qualquer atividade
sem seu consentimento. Jorge Mendoza,
presidente da APG de Yacuiba, na província do
Gran Chaco, em Tarija, onde se constrói essa
unidade, explicou que mais de 17 comunidades
guaranis foram afetadas.
Mobilizações como estas no Chaco boliviano
buscam denunciar que a YPFB, suas subsidiárias,
concessionárias e terceirizados descumprem as
leis nacionais e internacionais que obrigam à
consulta e ao apoio indígena nos projetos em seu
habitat. Os líderes citam especialmente duas: a
"Constituição de 2009 que declara a Bolívia um
Estado plurinacional e o Convênio 169 da
Organização Internacional do Trabalho, que protege
os direitos dos povos indígenas e fixa a
obrigatoriedade de consulta prévia sobre atividades
em seu território".
As empresas sempre afirmam contar com as
permissões legais e ambientais para seus
trabalhos, mas os líderes guaranis destacam que
este aval de órgãos públicos locais ou nacionais
não incluem as obrigações com as comunidades
do Chaco, onde fica a maior província petrolífera do
país. O Chaco boliviano, repartido pelos
departamentos de Chuquisaca, Santa Cruz e Tarija,
integra a região do Grande Chaco Sul-Americano,
que inclui partes da Argentina e do Paraguai. Seus
127.775 quilômetros representam 15% dessa
região, onde fica a maior floresta xerofítica (de
clima seco) do mundo.
No Chaco boliviano vivem apenas cerca de 300 mil
habitantes, em 16 municípios. Deles,
aproximadamente 84 mil são indígenas, quase
todos guaranis e o restante weenhayeks e tapietes,
dos quais 75% vivem na pobreza, segundo
indicadores oficiais. Flores explicou que os
guaranis compreenderam pouco a pouco que sua
sobrevivência dependia de saberem se organizar e
se fortalecer como povo e daí nasceu, em 1987, a
APG, cujos dirigentes são eleitos a cada dois
anos. Flores, de apenas 29 anos, é um exemplo da
nova liderança surgida graças à auto-organização.
Com a APG, os guaranis reivindicam deixar de
serem marginalizados na tomada de decisões que
os afetam, como saúde, educação, moradia,
serviços básicos e também o tipo de
desenvolvimento em seu território ancestral. Ele
recordou que o analfabetismo e o fato de os
guaranis sentirem que pertencem à terra onde
vivem, e não esta a eles, facilitaram que até há
pouco tempo fossem usados em trabalho escravo
ou semiescravo na agricultura, recebendo como
pagamento apenas comida e roupa, por fazendeiros
crioulos (não indígenas).
Flores também afirmou que a nacionalização de
hidrocarbonos, pela qual a YPFB retomou o
controle acionário de todas as atividades
petroleiras, estabelecida por Evo Morales em 2006,
ano em que iniciou seu primeiro mandato, se
transformou de esperança em decepção para sua
nação. "A nacionalização não trouxe nenhum
benefício e estou certo de que várias comunidades
continuam sendo iluminadas por velas, lampiões e
fogueira", enfatizou. "No processo de mudança,
nada mudou, quando muito o nome, e meu povo
continua enfrentando pobreza e recebendo
problemas", apesar de ser o originário da grande
província petrolífera boliviana, cuja capital informal é
Camiri, de 70 mil habitantes, no departamento de
Santa Cruz.
Para mudar essa realidade, a APG lutou para
conseguir que 5% do lucro com hidrocarbonos
fosse destinado a um Fundo de Desenvolvimento
Indígena (FDI), que possui iniciativas como a
chamada "renda dignidade", um bônus para os
idosos. Flores destacou que o governo ouviu suas
demandas e diversos ministros se reuniram com as
autoridades guaranis, mas estas iniciativas não se
traduzem em soluções reais para os problemas, o
que "nos força a atos de pressão para obter
respostas".
O líder guarani deu outro exemplo dos problemas
que enfrentam pelo fato de os recursos do FDI
estarem centralizados em La Paz, sua distribuição
ser muito desigual entre os 36 grupos
etnolinguísticos bolivianos, e também de que boa
parte fique nas mãos de colonizadores e
camponeses não indígenas. Pelos seu cálculo,
apenas 11% dos recursos do fundo chegam aos
povos das terras baixas, entre as quais o Chaco, e
apenas 1% aos guaranis.
Outro problema é ambiental. "Os trabalhadores das
empresas petroleiras danificaram o ecossistema,
as águas dos rios, os riachos agora contaminados,
a flora e a fauna, e por tudo isto o povo está
sofrendo", contou Flores. "O governo fala de
consulta e é o primeiro a violar este direito, como
acontece com a unidade separadora em Yacuiba.
O povo não está contra a atividade, mas exige ser
consultado como dono do território", ressaltou. O
governo também descumpriu as promessas de
compensar com terras públicas as terras
comunitárias afetadas e com melhoria do
saneamento.
Segundo Flores, "o Estado deve garantir o serviço
de água assim com retira hidrocarbono através de
tubulações, deveria fornecer dessa forma água à
população". Flores, nascido em uma pequena
comunidade, onde estudou até o segundo grau
antes de ganhar uma bolsa para formar-se em
direitos indígenas no Equador, destacou que "os
guaranis não pedem favores, mas que se cumpra a
obrigação e a justiça de participarem dos benefícios
que nossa terra dá". Envolverde/IPS (END/2012)
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