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Israel desfolha a margarida da guerra
Pierre Klochendler
Jerusalém, Israel, 20/11/2012 (IPS) -
O ataque de Israel ao Hamás parece um remake da
guerra de 2008-2009 contra a Faixa de Gaza. A
diferença está em se saber se tentará conseguir o que
não conseguiu na ofensiva anterior: derrubar de uma
vez por todas o Movimento de Resistência Islâmica.
Para ampliar a operação, o exército israelense
convocou 75 mil reservistas. Há quatro anos foram
mobilizados menos de dez mil.
O secretário-geral da Organização das Nações
Unidas (ONU), Ban Ki-moon, viajou ontem para
Cairo, somando-se aos esforços mediadores do
Egito para conseguir um cessar-fogo entre Israel e
o Hamás. O atual conflito já causou uma centena
de mortes palestinas e três israelenses.
Quando lançou a operação Pilar de Defesa, no dia
14, com o assassinato do comandante da ala
militar do Hamás, Ahmad Jabari, e a destruição da
maior parte de seu arsenal de mísseis FAJR de
longo alcance, o objetivo declarado de Israel era, de
algum modo, modesto: empurrar o movimento
islâmico para um cessar-fogo de longo prazo que
inclua todas as facções islâmicas, garantindo,
assim, a tranquilidade em sua fronteira sudoeste.
Os meios empregados estão longe de serem
modestos. A força aérea e a marinha de Israel
utilizaram lança-mísseis, bunkers e centros de
comando em centenas de ataques, 200 apenas na
noite do dia 15. No dia seguinte, foi bombardeada a
sede do Hamás, e ontem foi o prédio onde
funcionava o canal de televisão Al Aqsa. Por outro
lado, centenas de mísseis caíram em cidades e
povoados israelenses localizados em um raio de 40
quilômetros de Gaza, matando três civis.
Pela primeira vez desde a primeira Guerra do Golfo
(1991), mísseis de longo alcance chegaram à área
metropolitana de Tel Aviv, sem causar danos.
"Todos os sinais sugerem que Israel se fixou em
um objetivo relativamente modesto: uma trégua de
longo prazo", escreveu o analista de defesa
israelense Ron Ben-Yishai no jornal centrista
Yedioth Ahronoth. Entretanto, não há indícios
plausíveis de que o Hamás esteja pronto para
semelhante trégua.
Há quatro anos, no começo da operação Chumbo
Derretido, Israel ainda gozava de uma relativa
liberdade de ação e do apoio do Ocidente. Um fator
que poderia limitar suas forças armadas agora é o
risco de que a ofensiva leve a um uso ainda mais
desproporcional da força e a uma indiscriminada
matança de civis palestinos. Na guerra, que se
desenvolveu entre 27 de dezembro de 2008 e 18 de
janeiro de 2009, morreram 1.400 palestinos, 300
deles menores de 18 anos.
Em um informe divulgado em setembro de 2009 por
uma comissão investigadora liderada pelo juiz
Richard Goldstone, Israel foi acusado de crimes de
guerra. Na época, o governo israelense argumentou
que havia restabelecido sua capacidade de
dissuasão. De fato, períodos de calma se
alternaram com outros de tensão. Este ano, com
750 mísseis lançados contra Israel pelas guerrilhas
palestinas antes da atual escalada, os parênteses
de tranquilidade duraram cada vez menos.
Além disso, há uma consideração importante nos
planos de contingência israelenses para um
eventual ataque por terra: a Primavera Árabe mudou
a região, cercando Israel em suas fronteiras do
norte e do sul e aguçando a sensação de
insegurança prevalente no país. No prazo de uma
semana, bombardeios errantes lançados pelo
exército da Síria contra posições de grupos
rebeldes desse país aterrorizaram as colinas de
Golã, ocupadas pelo Estado judeu, somando-se ao
ataque com míssil que o Hamás assumiu contra
um jipe israelense. "A faísca" que, segundo Israel,
acendeu o conflito atual. Israel realizou represálias
duas vezes, bombardeando posições sírias.
Também enfrenta ataques guerrilheiros vindos do
Sinai, uma região egípcia vizinha à Faixa de Gaza.
Daí a atual ofensiva também buscar colocar à prova
a reação do Egito, cuja cooperação é necessária
para manter em vigor o tratado de paz de 1979,
bem como a estabilidade no Sinai e em Gaza. Ao
retirar o embaixador egípcio de Israel e solicitar a
intervenção dos Estados Unidos e da Liga Árabe, o
presidente Mohammad Morsi pareceu mostrar sua
preferência pela diplomacia. No dia 16, enviou o
primeiro-ministro, Hesham Qandil, para uma breve
visita de solidariedade a Gaza.
O motivo ulterior de Israel pode ser simplesmente
este: não só enviar uma mensagem de dissuasão
ao Hamás por intermédio do Egito, mas mostrar ao
mundo árabe (incluída a organização xiita libanesa
Hezbolá) e, mais além, o Irã, que o Estado judeu
ainda é forte e ataca quando se sente ameaçado.
Em termos gerais, a operação é funcional para os
interesses dos dois lados. Serve a Israel em parte
porque, enquanto continuar, deixa de ser um
problema a intenção do presidente da Autoridade
Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, de que a
Assembleia Geral da Organização das Nações
Unidas aprove a Palestina como Estado-membro.
Depois de evitar que facções palestinas mais
extremistas bombardeassem Israel durante quatro
anos de incômoda "cooperação" de segurança com
o Estado judeu, o Hamás finalmente pode se
recolocar como vanguarda da resistência contra a
ocupação. Além disso, o repúdio do Hamás a uma
trégua imposta por Israel constitui uma tática
deliberada para arrastar os militares israelenses
para Gaza, em um remake da guerra de 2008-2009,
com a esperança de que a invasão desperte a
condenação internacional. Na noite do dia 16, foram
lançados mísseis Fajr contra Jerusalém e caíram
na Cisjordânia ocupada.
Pelo menos em teoria, a arriscada política do
Hamás poderia levar ao que não conseguiu a guerra
anterior de Gaza: que esse movimento seja
derrubado após cinco anos de mandato, e
substituído pela ANP de Abbas. Mas o Hamás e
Israel sabem bem que é improvável que a ANP
assuma o controle da Faixa nessas condições. E
também é muito difícil que, tendo se retirado de
Gaza voluntariamente em 2005, Israel queira voltar
a ocupá-la. Além disso, com os antecedentes
negociadores do primeiro-ministro Benjamin
Netanyahu, o período de graça que desfruta Israel
terá vida curta se o mandatário ordenar uma
invasão total de Gaza.
Por fim, a perspectiva de que em dois meses
Netanyahu seja reeleito pode ter um efeito
moderador sobre a ofensiva, embora seja funcional,
pelos cálculos do primeiro-ministro, que a
segurança - não a paz nem os assuntos sociais -
ocupe um lugar prioritário na agenda da campanha
eleitoral. No final, Israel continuar enredado em
Gaza por tempo prolongado e muito perto da data
das eleições pode colocar em risco as chances
eleitorais de Netanyahu. Porém, enquanto o Hamás
se negar a acordar uma trégua com Israel, a
ofensiva continuará, com todos os riscos de um
confronto mais profundo e agressivo.
Envolverde/IPS (END/2012)
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