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Jornalistas também foram alvos de Israel em Gaza
Jillian Kestler-D'Amours
Ramalá, Palestina, 23/11/2012 (IPS) - Enquanto se observa um cessar-fogo entre Israel e o Hamás (Movimento de Resistência Islâmica), organizações de direitos humanos pedem a investigação de abusos cometidos durante a ofensiva israelense em Gaza, incluindo assassinatos de jornalistas.

"Queremos uma investigação internacional sobre o ocorrido", disse à IPS o presidente do Sindicato de Jornalistas Palestinos, Abdal Nasser Najjar. "Queremos acabar com esta política israelense de matar e ferir jornalistas. Não há diferença entre jornalistas, sejam israelenses, palestinos ou internacionais. Apenas queremos fazer nosso trabalho", protestou.

Na última operação, Pilar de Defesa, 162 moradores de Gaza morreram e 1.100 ficaram feridos. Três jornalistas palestinos morreram e mais de dez ficaram feridos em ataques aéreos seletivos. Segundo o Centro Palestino para o Desenvolvimento e as Liberdades da Mídia, o exército israelense matou, na última década, 18 jornalistas, incluindo dois estrangeiros. "Classificam os jornalistas como inimigos. Não querem que o mundo saiba o que estão fazendo em Gaza, nem quais são os crimes dos soldados israelenses. Acredito que não querem que a informação saia de Gaza", disse Najjar, editor-chefe do jornal Al Ayam.

No dia 20 deste mês, dois repórteres cinematográficos palestinos do canal de televisão Al Aqsa morreram quando um míssil israelense atingiu o carro em que estavam, que supostamente levava o emblema "TV" em letras fluorescentes. Ambos, Hussam Mohammad Salama, de 30 anos, e Mahmoud Ali Al Koumi, de 29, se dirigiam ao hospital Shifa na cidade de Gaza para documentar a assistência aos palestinos feridos. Neste mesmo dia, um terceiro jornalista, Mohammad Abu Aisha, diretor da Rádio Educativa Al Quds, morreu quando um míssil atingiu seu carro.

A organização Repórteres Sem Fronteiras disse, em uma declaração do dia 21, que esses ataques foram "deliberados", e destacou que "os jornalistas têm direito à mesma proteção que os civis e não devem ser considerados objetivos militares". Quase dez de jornalistas foram feridos em uma série de ataques aéreos israelenses na cidade de Gaza, que atingiram edifícios onde havia escritórios de meios de comunicação locais e estrangeiros, como Al Arabiya, Rússia TV e as agências de notícias AFP (Agence France Presse) e a palestina Ma'na, entre outros.

"Exigimos que a Organização das Nações Unidas (ONU) forme um comitê para realizar uma completa investigação desses ataques, e adote medidas contra o governo israelense. Além disso, a comunidade internacional deve responder de imediato a este ato terrível", disse o presidente da Federação Internacional de Jornalistas, Jim Boumelha, em uma declaração. No dia 21, o escritório do porta-voz militar de Israel publicou a seguinte mensagem no Twitter: "Advertência aos jornalistas em Gaza: afastem-se de operações e de instalações do Hamás. Este grupo terrorista os usará como escudos humanos".

O governo israelense também insinuou que os trabalhadores do canal palestino Al Aqsa TV, um dos meios de comunicação atacados em Gaza, não eram jornalistas de verdade, já que a emissora está vinculada ao Hamás. "A estação do Al Aqsa é um centro de comando e controle do Hamás. Como em outros regimes totalitários, a mídia é usada com fins de segurança. Do nosso ponto de vista, esse não é um jornalismo legítimo", disse o porta- voz do governo israelense, Mark Regev, em uma acalorada entrevista transmitida pela rede de televisão Al Jazeera. "Não temos por objetivo jornalistas, mas o Hamás", ressaltou.

Segundo o diretor do Centro Almezan para os Direitos Humanos, de Gaza, Issam Younes, o questionamento israelense à legitimidade dos jornalistas palestinos é apenas um pretexto para justificar seus ataques indiscriminados em Gaza. "Imagine se o Hamás dissesse que os comentaristas (das emissoras de notícias israelenses) Canal 2 e Canal 10 são gente do Shabak (agência de inteligência e segurança interna de Israel). Então são legítimos objetivos do Hamás? É apenas um pretexto", disse à IPS.

A saída e a entrada de pessoas na Faixa de Gaza estão quase totalmente controladas por Israel. O Egito administra o posto fronteiriço de Rafah, ao sul. No começo desta última ofensiva, Israel permitiu a entrada de dezenas de jornalistas internacionais. Isto foi uma mudança em relação a antigas políticas do Estado judeu. Durante sua ofensiva anterior em Gaza, em 2008 e 2009, Israel proibiu a entrada de repórteres estrangeiros e declarou uma ampla área fronteiriça como "zona militar fechada".

Israel também utilizou de extrema violência contra jornalistas de Gaza que cobriram aquela ofensiva de três semanas. A emissora de Al Aqsa, na Faixa de Gaza, foi destruída por completo naquela operação, chamada Chumbo Derretido, com perdas de aproximadamente US$ 6 milhões. Os escritórios do semanário Al Risala também foram danificadas. "Já não há limites. Tudo pode ser um objetivo, sempre que houver cobertura política e enquanto os israelenses continuarem acreditando que são imunes, que estão acima da lei e que podem fazer o que querem se sofrerem uma investigação", enfatizou Younes. Envolverde/IPS (END/2012)