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Operação israelense em Gaza se depara com outro Egito
Adam Morrow e Khaled Moussa al-Omrani
Cairo, Egito, 26/11/2012 (IPS) -
A reação do novo governo do Egito diante da
campanha militar de Israel contra o território
palestino de Gaza, interrompida no dia 21 graças a
um cessar-fogo, contrastou claramente com a
posição do regime anterior.
"O governo do deposto
Hosni Mubarak participou de forma descarada do
sítio imposto por Israel à Faixa de Gaza, sem
perder uma oportunidade de pressionar o Hamás
(Movimento de Resistência Islâmica)", disse à IPS
o especialista em assuntos israelenses Tarek
Fahmi, do Centro Nacional de Estudos sobre o
Oriente Médio, com sede no Cairo. "Por outro lado,
os novos governantes egípcios expressaram seu
apoio incondicional ao Hamás e ao povo de Gaza, e
trataram de acabar com o bloqueio", acrescentou.
O presidente Mohammad Morsi foi eleito nas urnas
no último verão, 16 meses depois da saída de
Mubarak em fevereiro de 2011, após 30 anos no
poder. Morsi pertence à Irmandade Muçulmana do
Egito, vinculada ideologicamente ao Hamás, que
controla Gaza desde 2007. E, ao contrário de seu
antecessor e da maioria dos governantes
ocidentais, rapidamente denunciou o último
derramamento de sangue em Gaza.
Ao participar do sermão semanal islâmico do dia
16, Morsi prometeu que o Egito não deixará a Faixa
de Gaza "por sua conta" para enfrentar a
"descarada agressão" de Israel. Em clara alusão às
mudanças ocorridas neste país em matéria de
política externa após a revolta popular que derrubou
Mubarak, disse que "hoje o Egito é muito diferente
do de ontem".
O último episódio de violência começou no dia 14,
quando as forças israelenses assassinaram Ahmad
Jabari, comandante de operações das Brigadas
Ezzedine al-Qassam, vinculadas ao Hamás, ao que
a resistência armada palestina respondeu com
foguetes contra o sul de Israel. Os dias seguintes
de incessantes bombardeios, por ar, terra e mar,
deixaram mais de 150 palestinos mortos, na
enorme maioria civis, e centenas com ferimentos
graves. Os foguetes lançados desde Gaza contra o
sul de Israel mataram cinco israelenses e deixaram
vários feridos.
Após o anúncio do cessar-fogo, o chefe político do
Hamás, Jaled Meshaal, expressou sua gratidão a
Morsi pelo papel de mediador desempenhado pelo
Egito para acabar com a violência, bem como por
suas "decisões e posição a respeito da última
agressão de Israel contra Gaza". Desde o começo
do último enfrentamento, a reação do Egito ficou
reduzida a declarações fortes.
Desde o primeiro dia, Cairo anunciou a retirada de
seu embaixador em Israel, enquanto Morsi pediu ao
Conselho de Segurança da Organização das
Nações Unidas (ONU) e à Liga Árabe, com sede
nesta capital, para realizarem reuniões de
emergência. Dois dias depois, o primeiro-ministro
egípcio, Hisham Qandil, fez uma curta visita ao
atribulado território palestino, de 40 quilômetros de
comprimento por 14 de largura, em uma
demonstração de solidariedade.
O Egito também abriu a passagem da fronteiriça
cidade de Rafah, a única ligação de Gaza com o
mundo exterior. Israel manteve suas fronteiras
rigidamente controladas desde sua "retirada
unilateral" do território palestino em 2005. Agora,
pessoas e mercadorias, incluindo os tão
necessários suprimentos médicos, entram na Faixa
de Gaza pelo Egito, enquanto doentes palestinos
podem se dirigir a este país para realizar
tratamento médico.
Segundo Fahmi, a reação do novo governo frente ao
último ataque contra Gaza corresponde à posição
declarada de Morsi, e por extensão da Irmandade
Muçulmana, diante do eterno conflito árabe-
israelense. "A reação de Morsi está de acordo com
sua plataforma eleitoral e com suas declarações
posteriores à sua eleição", observou Fahmi. "Sob
sua lideranç,a o Egito apoiará o povo palestino
contra a contínua ocupação por parte de Israel e
trabalhará para garantir suas aspirações nacionais",
acrescentou.
A atual resposta do Egito contrasta claramente
com a do regime de Mubarak diante da Operação
Chumbo Derretido, lançada por Israel no final de
2008 e começo de 2009. Durante aquela
campanha, em que os israelenses usaram armas
proibidas, morreram 1.500 palestinos, na maioria
civis, e milhares ficaram feridos.
Apesar da violência nessa oportunidade, Mubarak
manteve a fronteira de Rafah fechada. Nem mesmo
feridos graves puderam ser levados para tratamento
no Egito. "Por pressão dos Estados Unidos e de
Israel, Mubarak completou o bloqueio da Faixa,
mesmo durante o pior do massacre, com a
esperança de destruir o Hamás", disse à IPS o
analista Magdi Hussein, ex-presidente do Partido
Trabalhista Islâmico Egípcio, de tendência islâmica.
"Por outro lado, Morsi apoia abertamente a
resistência em Gaza e começou a tomar medidas
para abrir a fronteira, mesmo antes desta última
agressão", ressaltou Hussein, que esteve preso por
dois anos durante o regime de Mubarak, por ter
cruzado para Gaza sem permissão durante a
Operação Chumbo Derretido.
O apoio do Egito ao povo de Gaza e à resistência
local não se reduziu a círculos oficiais. Além disso,
"o Egito agora apoia o Hamás", enquanto o "regime
de Mubarak apoiou seu arquirrival Fatah, que
insiste em manter infrutuosas 'conversações de
paz' com Israel e que fracassaram totalmente em
melhorar a situação dos palestinos", pontuou
Hussein.
Centenas de ativistas egípcios de todos os partidos
políticos fizeram uma breve visita a Gaza no dia 18
para expressar solidariedade aos seus irmãos
palestinos. Dois dias antes, manifestações contra o
ataque reuniram dezenas de milhares de pessoas.
A política do Egito mudou após a revolta popular,
mas, ao que parece, a comunidade internacional
não. Como ocorreu com a Operação Chumbo
Fundido, o Conselho de Segurança não emitiu
nenhuma resolução pedindo o fim das hostilidades.
No dia 20 deste mês, um dia antes do cessar-fogo,
os Estados Unidos bloquearam uma declaração do
Conselho condenado a escalada de violência.
"Alguns governos europeus pareceram mais
favoráveis ao Hamás e a Gaza desta vez. Mas o
apoio de Washington a Israel parece total, como da
outra vez", enfatizou Fahmi. Envolverde/IPS (END/2012)
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