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Sudão do Sul busca se autoabastecer de petróleo
Charlton Doki
Juba, Sudão do Sul, 30/11/2012 (IPS) - O Sudão do Sul mantém negociações com seu vizinho do norte para reiniciar a produção e o transporte de petróleo, mas o governo informou que também desenvolve sua própria indústria e que em oito meses produzirá combustível para uso doméstico, a fim de cortar a dependência.

O ministro de Petróleo e Minas do Sudão do Sul, Stephen Dhieu Dau, disse à IPS que, com o reinício do fluxo de óleo, uma das prioridades do governo é criar infraestrutura para processar o combustível por sua conta. "Nosso objetivo é garantir que parte do petróleo seja processada no país para atender a necessidade interna e acabar com a escassez de diesel e gasolina", afirmou Dau.

O Sudão do Sul interrompeu sua produção de petróleo em janeiro, após uma disputa com Cartum pelo custo do traslado do combustível até o porto. Os dois países acordaram reiniciar a produção e o intercâmbio no dia 27 de setembro, depois que o ex-presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, encabeçou os esforços de mediação da União Africana para tentar distender uma série de acordos que alcançaram seu ponto máximo em janeiro e que puderam terminar em uma guerra aberta em abril.

As vendas de petróleo representaram 98% da renda do Sudão do Sul. Entretanto, apesar de ficar com 75% após sua independência em 2011, este país depende das refinarias e dos oleodutos sudaneses para processar e transportar o combustível para o mercado internacional.

O presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, disse, no dia 26, em uma reunião de governadores, que a produção de petróleo recomeçou este mês, como previsto, devido às demandas do Sudão para que Juba desarme o rebelde Movimento pela Libertação do Povo do Sudão-Norte. E acrescentou que o caso se resolverá logo porque, após conversar com o presidente do Sudão, Omar al-Bashir, no dia 25, ambos acordaram que autoridades dos dois países se reunirão em breve para tratar do assunto.

Mas em uma tentativa de reduzir a dependência do Sudão, Kiir deu início no dia 20 deste mês à construção de uma refinaria de petróleo em Melut, uma zona produtora no Estado de Alto Nilo. Outra refinaria está sendo construída em Tharjath, outra região produtora no vizinho Estado de Unidade. Ambas as instalações poderão produzir dez mil barris por dia.

Dau informou que a previsão é que as duas refinarias estejam operando em julho de 2013, quando o governo pretende começar a produzir combustível para uso interno. Também "permitirão criar oportunidades de emprego para os jovens, que é uma das coisas que queremos para que as pessoas se beneficiem de nossos recursos naturais", destacou.

Edmond Yakani, da Empoderamento Comunitário para a Organização do Progresso, afirmou que, além das refinarias, este país, sem saída para o mar, precisa construir seu próprio oleoduto até o porto de Lamu, no Quênia. "Não creio que melhorem as relações com Cartum e, portanto, o Sudão do Sul deve se esforçar para construir seu próprio oleoduto", disse à IPS.

O ministro das Finanças, Kosti Manibe Ngai, disse há três meses que o trabalho no oleoduto começaria em junho de 2013 ao custo de US$ 3 bilhões. "O governo também deve construir tanques para que em caso de problemas com o Sudão tenhamos combustível para que o país continue funcionando", acrescentou Iakani.

Apesar de suas reservas provadas de quatro bilhões de barris, a maior da África oriental, o Sudão do Sul deve superar enormes problemas de capacidade. O diretor-geral do Ministério de Energia e Mineração, Simon Chol Martin, disse à IPS que o governo está preocupado com a pequena quantidade de pessoas empregadas nas companhias petroleiras em operação.

O consórcio sino-malásio Dar Petroleum é atualmente o maior em operação no Sudão do Sul, mas só emprega cidadãos chineses e da Malásia para cargos altos e técnicos. Antes da independência, os sudaneses ocupavam esses postos de trabalho, mas muitos abandonaram o país.

Paul Adong, diretor executivo da estatal Nile Petroleum Corporation (NilePet), do Sudão do Sul, disse à IPS que a prioridade do governo é garantir que o setor empregue sul-sudaneses e que esteja criando a capacidade necessária para "garantir o aumento de cidadãos capazes de assumirem o setor no longo prazo". Para isto, o governo negocia um acordo com a Pedrad, da Noruega, para que ofereça capacitação, afirmou.

"Só há uma forma de construir uma companhia de exploração e produção de petróleo e é mediante o manejo de questões práticas. É um processo intensivo de conhecimento, e é necessária não apenas a formação adequada, mas experiência em engenharia", afirmou Adong. Quando Juba reiniciar a produção de petróleo, a NilePet gerará experiência sul-sudanesa na indústria, ressaltou.

Com a criação de capacidade, Adong espera que, em cinco anos, a NilePet seja uma companhia de sucesso. "Espero que então contemos com o conhecimento técnico. Será um êxito se a NilePet puder operar um campo inteiro sozinha", opinou.

Por outro lado, comunidades locais e ativistas pedem às empresas de petróleo que protejam o meio ambiente nas áreas de produção e também querem a investigação de informes sobre contaminação. John Lam Obur, estudante da Universidade de Juba mas originário de Melut, disse que as atividades petroleiras contaminam o meio ambiente em sua localidade natal. "O gado morre quando bebe água de chuva perto dos campos de petróleo, as pessoas sofrem doenças nunca vistas antes e o ar cheira mal por causa dos dejetos", contou à IPS.

Segundo Adong, as empresas sabem dos problemas e trabalham para solucioná-los, pois não querem repetir os mesmos erros de outras companhias em outras partes da África. "Melhor renunciar aos dólares para manter saudável nossa comunidade e nosso meio ambiente", afirmou. Envolverde/IPS (END/2012)