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Palestinos festejam triunfo na ONU com dúvidas
Jillian Kestler-D'Amours,
Ramalá, Palestina, 3/12/2012 (IPS) - Milhares de pessoas se reuniram na Cisjordânia e na faixa de Gaza, inclusive representantes dos grandes partidos políticos, para celebrar e demonstrar apoio à Autoridade Nacional Palestina (ANP) por ter melhorado seu status dentro da Organização das Nações Unidas (ONU).

"Estou aqui para apoiar. Queremos um Estado como os outros países árabes", disse Amar Qendah, de 28 anos, à IPS na praça do Relógio, no centro de Ramalá, que ficou coberta por bandeiras e cartazes de apoio ao reconhecimento recebido na ONU na quinta-feira passada. "Estamos todos juntos. Todos os partidos políticos estão reunidos. Queira Deus que isto melhor nossa situação", acrescentou Qendah.

Na sessão que começou no dia 29 às 22h30 local, a Palestina se converteu em "Estado observador não membro" com o voto favorável de 138 países, nove contra e 41 abstenções.

"O apoio de vocês ao nosso esforço hoje dará esperanças a um povo assediado por uma ocupação colonial e racista. Seu apoio confirmará ao nosso povo que não está só, e sua adesão ao direito internacional nunca será uma proposta perdedora", disse o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, na Assembleia Geral da ONU, em discurso feito em árabe e que lhe valeu os aplausos do plenário em pé pouco antes da votação. "Fazemos um chamado à Assembleia Geral para que emita um certificado da realidade do Estado da Palestina", pediu Abbas.

Os palestinos já haviam obtido em 1974 o status de "observador permanente" na ONU. A atual melhora de sua situação no fórum mundial lhes permitirá à Palestina participar dos debates da Assembleia Geral e ter mais possibilidades de ser reconhecida dentro das agências das Nações Unidas, assim como recorrer ao Tribunal Penal Internacional (TPI).

A admissão da Palestina no TPI foi o assunto mais sério para Israel, que teme ser acusado de crimes cometidos contra a população palestina que vive sob sua ocupação. Estados Unidos e Israel votaram contra a resolução e condenaram todos os pedidos da Palestina na ONU.

Observando os festejos na praça do Relógio, Koaibah Shtayeh, da cidade cisjordana de Naplusa, disse à IPS que responsabilizar Israel perante um tribunal internacional é sua principal razão para apoiar a decisão da ANP de melhorar seu status dentro da ONU. "Podemos acusar os dirigentes israelenses que assassinaram milhares de palestinos. tantas coisas mudariam. Isto afetará o futuro dos jovens palestinos. terão um futuro diferente do que eu tive", afirmou, otimista, à IPS.

Pressionar para melhorar seu status dentro da ONU foi a última medida das várias adotadas pela ANP em sua tentativa de conseguir um Estado palestino independente, composto por Cisjordânia e faixa de Gaza e tendo Jerusalém oriental como sua capital. Em setembro de 2011 Abbas apresentou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas um pedido para que a Palestina fosse aceita como Estado, mas não foi atendido por seus membros, que não chegaram a um acordo para dar uma recomendação unanime.

A agência de notícias palestina Ma'na informou que milhares de pessoas saíram às ruas na cidade cisjordana de Hebron na quinta-feira em apoio à melhoria de status na ONU. o partido Fatah, majoritário dentro da ANP, também fez sua primeira manifestação na faixa de Gaza desde 2007, quando se distanciou de seu arquirrival inimigo Hamás (Movimento de Resistência Islâmica), que desde então controla Gaza.

Por seu lado, dirigentes israelenses disseram que a mudança de status da Palestina dentro da ONU nada modificará. "A decisão das Nações Unidas não muda nada no terreno. Não promoverá a criação de um Estado palestino, a afastará", afirmou o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Muitos palestinos também se mostraram cépticos sobre a possibilidade de sua situação pessoal melhorar. "Estamos sob o jogo da ocupação. A comunidade internacional continua apoiando Israel", disse Fathy Khdeirat, coordenador da campanha de Solidariedade com o Vale do Jordão. "Israel é um Estado criado através da ONU que não respeita e viola as resoluções" do fórum mundial, acrescentou.

O vale do Jordão cobre 30% da Cisjordânia. Costuma ser considerado o "celeiro da Palestina" por seu enorme potencial agrícola. Mas Israel controla 86% do território e quase todos seus abundantes recursos, e impõe rigorosas restrições sobre as comunidades palestinas da área.

Khadeirat disse à IPS que o fato de viver sobe estas condições difíceis fez com que a maioria dos palestinos do vale do Jordão não se interessasse pela iniciativa nas Nações Unidas. "Não significa que depois de ir à ONU haverá mudanças. Não creio que algo mudará. Se compararmos com ficarmos calados ou aceitar a situação, é melhor dizer ao mundo o que ocorre aqui", acrescentou. Envolverde/IPS (END/2012)