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O mundo editorial alternativo se une e se consolida na Argentina
Marcela Valente
Buenos Aires, Argentina, 9/1/2013 (IPS) - Sustentadas por editores e leitores convencidos de que outra comunicação é possível, as revistas independentes crescem e se fortalecem na Argentina, optando por um enfoque diferenciado dos grandes meios em coberturas políticas, da vida cultural e na defesa de direitos diversos.

À sombra de mais de 450 revistas pertencentes a 40 grandes consórcios editoriais, vários deles multimídias, circulam na Argentina outras 241 publicações dedicadas a literatura, filosofia, cinema, humor, discussão ideológica e partidária, história, música, artes visuais, artes cênicas, desenho ou gênero.

Não se trata de empreendimentos vocacionais, que progridem nos tempos livres do editor, mas de um setor econômico pujante, com um número total estimado de 1,4 milhão de leitores mensais, que dá emprego a pequenas gráficas de todo o país. Publicações como Barcelona, THC, Alternativa Teatral, El Ojo del Músico, Haciendo Cine, La Garganta Poderosa, Clítoris, El Teje e Diario de Poesia são apenas uma pequena mostra da diversidade da oferta.

Não recebem subsídios estatais ou do mundo empresarial e têm pouca publicidade. Praticamente vivem da venda de cada exemplar, um recurso esquecido pelas revistas comerciais, transformadas em catálogos publicitários que se contentam em se exibirem ou apenas circular entre o público leitor. Desde 2011, a grande maioria destes meios está unida na Associação de Revistas Culturais Independentes da Argentina (Arecia) e reclamam a discussão de um projeto de lei que contribua para fortalecê-los como um setor sem fim lucrativo, mas sustentável.

"O propósito da entidade é mostrar que somos um setor economicamente ativo, que oferece condições dignas de emprego, que vive da venda e paga em dinheiro", disse à IPS a jornalista Claudia Acuña, presidente da Arecia. Ela é editora da revista independente Mu, nascida no calor da crise econômico-social do final de 2001 no contexto da cooperativa La Vaca, que hoje leva adiante outros projetos de comunicação alternativa.

A cooperativa também realiza cursos de capacitação em projetos de autogestão, um serviço que não consta do curso de formação de jornalistas e que, segundo Acuña, representa um vazio na grade curricular. Um censo realizado pela Arecia, em outubro do ano passado, mostra que existem na Argentina 241 revistas culturais independentes, 95% delas publicadas em papel e as restantes só na internet. O fenômeno não está restrito a Buenos Aires, tanto que 48% das publicações surgiram no interior do país e respondem a interesses locais.

Os editores reunidos na Arecia conseguiram assinar convênios com o serviço de correio para a distribuição e resistiram a múltiplas tentativas das revistas comerciais para eliminá-los dos canais de distribuição e venda, estabelecendo novos custos. Acosta apontou, particularmente, o grupo empresarial Clarín e também o La Nación. Entre ambos se concentra 60% do mercado gráfico, afirmou, além de serem donos de redes de distribuição e pontos de venda.

"Há pouquíssima concentração e as revistas comerciais já não vendem exemplares. Vivem da pauta publicitária oficial e privada. São quase catálogos de anúncios que ganham apenas com sua exibição, embora não sejam vendidos", explicou Acuña. "Esse setor foi perdendo credibilidade junto aos leitores. Eles próprios admitem isso. Por outro lado, nós temos um mercado sustentado pelos leitores, um mercado disperso, de muitos títulos. Somos algo diferente e estamos crescendo", assegurou.

No contexto deste debate, a presidente da Arecia acredita que contar com uma lei pode ajudar a fortalecer projetos e fazer surgirem novos. "Não queremos tratamento especial, mas igualdade de tratamento, sem discriminações", a iniciativa, que começaria a ser discutida em março, pede benefícios na área de impostos, melhor acesso a financiamento, bonificação de taxas de juros e cota do Estado para compras destinadas às mais de três mil bibliotecas públicas do país.

Em seus fundamentos o projeto afirma que uma nova lei serviria para saldar a dívida que tem com o setor a Lei de Serviços Audiovisuais, sancionada em 2008, cuja aplicação encontra resistência no grupo Clarín, por meio de manobras perante a justiça. A lei democratiza espaços na televisão e no rádio, "mas omite as publicações impressas e via internet, independentes e autogeridas, sem as quais essa lei não teria contado com canais de debate e difusão", reclamam esses editores.

O texto afirma que fortalecer essas revistas é um modo de "lutar contra a monopolização, não apenas de produtos, mas de conteúdo", e também é uma maneira de "consagrar socialmente a ideia de que outra comunicação é possível. Uma comunicação que não incentive a competição, mas a sobrevivência de diferentes modos de sentir e expressar a vida". Envolverde/IPS (END/2013)