COLUNA:
Os telefones da Europa e da América Latina
Joaquín Roy*
Miami, Estados Unidos, janeiro/2013 (IPS) - No final deste mês, os mandatários de 60 países europeus, latino-americanos e caribenhos se reunirão em Santiago do Chile em uma cúpula bicontinental.

No encerramento desse encontro, os latino-caribenhos realizarão ali mesmo a reunião da Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac).

Embora esse calendário esteja ditado pelas agendas, a boa lógica teria aconselhado alterar a ordem. Primeiro os latino-americanos e caribenhos deveriam construir um roteiro comum por consenso. Mas o contraste de interesses já se fará evidente na reunião com os europeus, quando a Celac for iniciada.

A atualidade faz lembrar a anedota atribuída a Henry Kissinger, que quando era secretário de Estado norte-americano (1973-1977) lhe foi recomendado consultar a Europa. Sarcasticamente, respondeu que lhe dessem o número do telefone europeu. Agora, Kissinger teria pedido os telefones europeus e latino-americanos.

O bloco latino-caribenho, é evidente, que superou com juros o europeu em número de telefones.

Embora no caso da União Europeia (UE) se pudesse pensar que cada um dos Estados-membros tem um telefone com o qual se comunicar, na realidade, no terreno da representação global, é mais simples, como ficou demonstrado na cerimônia de entrega ao bloco do Prêmio Nobel da Paz, em dezembro.

Três foram receber o prêmio: os presidentes do Conselho, da Comissão e do Parlamento. São os que, na verdade, contam na soberania comum. Em Santiago, a outra parte apresentará uma impressionante variedade de interlocutores.

Alguns chegarão com vantagem a Santiago e presumirão êxitos em suas negociações com a UE, quando começar a cúpula bicontinental, no dia 25.

Em contraste com seu tamanho o ganhador já é a América Central, que estreará seu novo Acordo de Associação com a UE. Por outro lado, quando a América do Sul entrar, os diversos telefones celulares soarão com insistência.

Entretanto, poderão ser observados, em algumas esquinas com o aparelho ao ouvido, os representantes dos países que há anos desfrutam de um favor especial com a UE: México e Chile.

As conversações telefônicas dos representantes mexicanos fazem eco em inglês, pois assim se comunicam com o Canadá e, sobretudo, com os Estados Unidos, em sintonia com a mútua pertinência ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte.

Ao sul do continente, o telefone do Chile tocará em línguas diversas, por estar em contato com meio planeta por uma dezena de acordos de livre comércio.

O Chile continua reticente a voltar à Comunidade Andina (CAN), que parece perder membros (e telefones) por minutos.

Por um lado, a Venezuela de Chávez entrou, como um elefante na loja de louças, no Mercosul, aproveitando que desapareceu o veto do Paraguai. A Bolívia, com telefone bilíngue, já anunciou que também se uniria a este bloco, pelo menos com uma economia de linhas telefônicas.

Neste passo, o secretário-geral da CAN, com sede em Lima, não deverá responder paradoxalmente mais do que aos interesses do Equador, já que Colômbia e Peru parecem mais preocupados em se aproximar de Europa, Estados Unidos e da região Ásia-Pacífico.

O telefone da Aliança Bolivariana dos Povos de Nossa América (Alba) poderá, em breve, responder às nervosas chamadas, e de Santiago do Chile serão passadas diretrizes para uma atuação em comum.

Se a evolução da crise da Venezuela desembocar no desaparecimento de seu líder, Hugo Chávez, a economia com a redução dos presentes petrolíferos desse país poderá facilitar o pagamento da conta telefônica da organização.

Considerando que nenhum de seus membros tem fronteira com outros (caso único nos esquemas de alianças e blocos do planeta), o custo da linha pode ser proibitivo.

Zelosos de sua condição insular, os países caribenhos (majoritariamente de origem colonial britânica) parecem compartilhar sem maiores problemas uma linha telefônica instalada na Comunidade do Caribe.

No entanto, a República Dominicana não renuncia aos seus vínculos com os Estados Unidos e os experimentos centro-americanos, além de receber os elevados benefícios do grupo econômico de nações do grupo África, Caribe e Pacífico (ACO).

Diante da variedade de sub-blocos, pode-se especular sobre a eficácia tanto da Celac ou da territorialmente mais reduzida Unasul (União de Nações Sul-americanas).

Talvez a inata incapacidade para a verdadeira integração supranacional, que os demais esquemas nunca conseguiram sublimar, sirva de conselho para que tanto o órgão latino-americano-caribenho quanto o sul-americano se dediquem a consultas e negociações.

Desde uma Europa também com dúvidas, provavelmente seja o que melhor convém.

No entanto, no meio do subcontinente, outro telefone multiuso destacará a língua portuguesa. O Brasil, reafirmando o dito de que "Deus é brasileiro", está em todas as partes. Seu aparelho, versão último modelo, terá mais aplicativos do que os demais. Não se sabe bem se os receptores de chamadas na Unasul e no Mercosul as transferem para Brasília, mas muitos assim supõem.

Em todo caso, a União Europeia procurará em Santiago chamar oficialmente um interlocutor: a Celac. Seu futuro dependerá de como responder. Envolverde/IPS

* Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu). (END/2013)