BANGLADESH:
A agricultura está no ar
Naimul Haq
Chapainawabganj, Bangladesh, 25/2/2013 (IPS) - O Sol começa a se esconder e vários agricultores se reúnem em torno de um pequeno rádio portátil, no jardim da Escola Secundária Nachol Pilot, no distrito de Chapainawabganj, a 300 quilômetros de Daca, capital de Bangladesh.

As vozes de Kauser Ali e Dhiren Karmakaur, dois agricultores de Nachol sentados em um estúdio a cerca de 15 quilômetros dessa plateia ansiosa, chegam claramente quando dão as boas-vindas no Krishi O Jibon (Agricultura e Vida), seu programa diário na rádio Mahananda.

O apresentador começa apresentando uma canção popular conhecida como gambhira, uma variedade de música folclórica interpretada no dialeto nativo por artistas locais, antes de iniciar um debate sobre um problema comum nesta comunidade de aproximadamente cinco mil produtores: os ataques da peste às plantações de milho. "O sentimento aqui é absolutamente elétrico", diz o apresentador, Selim Kabir, um agricultor local que usa este programa para promover a produção em Chapainawabganj.

A rádio Mahananda, criada em abril de 2012, se converteu em uma ferramenta indispensável para a comunicação em uma região quase totalmente dependente da agricultura e onde o analfabetismo atinge 50%. O longo braço do desenvolvimento ainda não chegou a esta parte de Bangladesh, localizada a centenas de milhas dos pujantes centros industriais do país e onde há pouca infraestrutura e poucos planos para construí-la.

Chapainawabganj se estende parcialmente dentro da árida região de Barind, de 7.780 quilômetros quadrados, no nordeste do país, onde eventos extremos causados pela mudança climática transformaram em um enorme desafio a dedicação à produção agrícola. Com densidade populacional excepcionalmente alta, Barind também se vê obrigada a enfrentar severas secas nos meses de verão, chuvas inadequadas durante a temporada de monções, excessiva extração e esgotamento de águas subterrâneas, perda gradual da umidade dos solos e desmatamento progressivo.

Em uma tentativa para confrontar estes desafios, o governo criou o Serviço de Informação Agrícola (AIS), que derivou na instalação de cerca de mil clubes de produtores - cada um com 30 a 50 membros - nos 64 distritos, para facilitar intercâmbios regulares de informação sobre como impulsionar a produção e adaptar as práticas tradicionais e os ciclos de semeadura a um clima mutante. Agora, com a ajuda da Rádio Mahananda, a iniciativa do governo tem um impacto ainda maior.

A emissora comunitária rural cobre um raio de 17 quilômetros e ajuda os agricultores a compartilharem suas próprias pesquisas sobre cultivos com o público, e inclusive convida outros colegas a participarem do estudo em debates sobre desenvolvimento de capacidades, cultivo de variedades melhoradas de sementes, promoção do uso de fertilizantes orgânicos, menor uso de água para irrigação e potencialização dos rendimentos.

Ahmed Moin, produtor do programa Krishi O Jibon, de 30 minutos, disse à IPS que "cerca de 60% de nossos programas se centram em desenvolver a agricultura. Usamos os benefícios da transmissão pelo rádio para conscientizar e superar as crises na produção agrícola". No começo deste ano, em resposta à maciça demanda popular, a emissora produziu outro programa especial, A Masher Krishi (Agricultura este Mês), que se centra nos cultivos sazonais.

"Vimos horas de programas diários, e como Chapainawabganj é uma importante zona agrícola criamos nossos programas para maximizar os benefícios para os agricultores locais", afirmou Moin à IPS. Os programas de rádio costumam começar depois das três horas da tarde, para permitir que os agricultores se reúnam ao final do dia de trabalho, para ouvi-los ao vivo. Entre um programa e outro são transmitidos conselhos úteis como para evitar pestes ou usar sementes resistentes à seca.

A televisão é um luxo incomum nesta parte do país, e o elevado analfabetismo entre os produtores torna quase impossível divulgar notícias relacionadas à sua atividade na imprensa, por isso a rádio oferece uma excelente alternativa para as comunidades, que inclusive podem sintonizar a rádio usando seus telefones celulares.

"Certamente nos beneficiamos ouvindo os programas. Por exemplo, há dois anos uma peste atacou meus cultivos de mostarda. Na temporada passada consegui evitá-lo buscando assessoria adiantado de especialistas que discutem estes problemas ao vivo" na emissora, contou à IPS o agricultor Habibur Rahman, assíduo ouvinte que vive na aldeia de Delbari.

Os agricultores são orientados a participar enviando perguntas à emissora, por telefone ou mensagem de texto. Há "um entusiasmo enorme entre os produtores. Os pedidos de conselho continuam chegando e muitos informaram sobre melhores colheitas de grãos" após a criação dos programas, destacou Moin. Mohammad Mosharaf Hossain, de um instituto local de pesquisa sobre a manga, disse à IPS que "unimos esforços com a rádio Mahananda para divulgar informação sobre nossa pesquisa, e recebemos uma resposta incrível".

Só neste ano, o instituto desenvolveu quatro novas variedades de manga doce, popularizada entre os agricultores locais por meio dos programas de rádio. Essa informação é crucial em Chapainawabganj, onde se produz cerca de 90% da manga de Bangladesh. "Participamos de debates ao vivo para informar e incentivar os agricultores de manga a usarem as novas variedades de sementes", explicou Hossain à IPS. Segundo o agricultor Enayet Khan, a "Mahananda uniu o agricultores locais e desempenha um papel importante ao contribuir para impulsionar a produção agrícola local". Envolverde/IPS (END/2013)