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Dinheiro para reconstrução do Iraque sumiu pelo ralo
Jim Lobe
Washington, Estados Unidos, 7/3/2013 (IPS) - Os esforços dos Estados Unidos para reconstruir o Iraque, país que invadiu há quase uma década, ficaram muito pequenos.

É o que diz o informe final do inspetor-geral especial para a Reconstrução do Iraque, Stuart Bowen. Ele já havia calculado que foram mal gastos, por incompetência ou fraude, entre US$ 6 bilhões e US$ 8 bilhões dos mais de US$ 60 bilhões dos contribuintes norte-americanos para os planos de estabilização e reconstrução do Iraque.

Além disso, em seu informe final, divulgado no dia 5, intitulado Learning from Iraque (Aprendendo com o Iraque), diz que pelo menos outros US$ 8 bilhões do próprio dinheiro iraquiano que era administrado pela Autoridade Provisória da Coalizão (APC), estabelecida após a invasão em 2003 e liderada pelos Estados Unidos, também foram desperdiçados.

A investigação conclui que "o governo dos Estados Unidos não está hoje mais preparado para a próxima operação de estabilização do que estava em 2003", e pede a criação de um Escritório para Operações de Contingência que cuide de planejar e preparar melhor futuras tarefas de reconstrução. Centenas de projetos não atingiram todo seu potencial, e em alguns casos não foram concluídos, deixando "um legado de amarga insatisfação entre muitos iraquianos", diz o documento de 184 páginas.

"Você pode ir a qualquer cidade do Iraque e não encontrará um só prédio ou construção" financiado por Washington, disse o ministro interino do Interior do Iraque, Adnan al-Asadi, segundo o informe. "Pode voar de helicóptero sobre Bagdá ou outras cidades, mas não conseguirá apontar um só projeto que tenha sido construído e completado pelos Estados Unidos", destacou.

Baseando-se em centenas de auditorias, inspeções, investigações e entrevistas com quase 50 altos funcionários iraquianos e norte-americanos, bem como legisladores responsáveis por vários aspectos da reconstrução, o informe faz uma série de recomendações. Os esforços de reconstrução só devem começar após estar garantida a segurança no país, e com pequenos projetos e programas, sugere o documento. Além disso, é necessário estabelecer sistemas uniformes de contratação e administração da informação, bem como uma rígida supervisão desde o começo.

O informe diz que a administração do ex-presidente George W. Bush (2001-2009) estava particularmente mal preparada para os particulares desafios de estabilização e reconstrução que enfrentava após a invasão. "A ideia predominante entre os planejadores do Departamento de Defesa era liberar e partir", baseando-se no que consideravam um exitoso precedente no Afeganistão, onde os Estados Unidos, aliados com forças locais, desalojou o movimento islâmico Talibã em 2001 e lançou um programa de ajuda muito modesto.

Entretanto, diante do colapso do Estado e do rápido aumento da insurgência, a administração Bush e a APC foram obrigadas a canalizar milhares de milhões de dólares, principalmente, mas não exclusivamente, por meio dos militares para inúmeros programas ad hoc. "A natureza improvisada do programa de reconstrução do Iraque, a constante rotação de pessoal e seus instáveis regimes de administração obrigaram os Estados Unidos a mudarem constantemente a velocidade e o curso de sua estratégia, desperdiçando recursos no caminho e expondo dólares dos contribuintes a fraudes e abusos", sinaliza o informe.

O maior projeto no setor da saúde, por exemplo, foi o Hospital Infantil de Basora. Nele se interessou especialmente a mulher do então presidente, Laura Bush. A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) concedeu um contrato à empresa Brchtel em 2004 no valor de US$ 50 milhões para a construção do hospital, que foi equipado com 94 camas e sistemas avançados de oncologia pediátrica.

As obras de construção terminaram em 2010 ao custo final de US$ 165 milhões. O hospital começou a fornecer tratamento de forma limitada. E, até o ano passado, continuava esperando equipamento fundamental e capacitação para seu pessoal, segundo o informe. O primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, informou ao inspetor-geral que algumas obras do hospital continuam inconclusas.

Em outro caso, a APC concedeu à empresa Parsons Delaware contrato de US$ 80 milhões para construir a prisão de Khan Bani Sa'ad, na província de Diyala, que acrescentaria mais 3.600 vagas a um centro penitenciário já existente no lugar. Três meses depois da data prevista para conclusão das obras, em 2006, a firma pediu mais dois anos e meio para concluir o projeto.

Washington não aceitou esse pedido e rescindiu o contrato, argumentando, entre outras razões, "enormes sobrecustos", e assinou novos contratos para concluir as obras. Mas estas foram suspensa em 2007, quando o projeto foi transferido para o Ministério da Justiça do Iraque, apesar de esta pasta ter deixado claro que não tinha planos para se ocupar do novo edifício. Envolverde/IPS (END/2013)