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Estados Unidos abandonarão um Afeganistão quebradiço
Richard Sale
Washington, Estados Unidos, 18/3/2013 (IPS) - A retirada das forças norte-americanas do Afeganistão, que começou este ano e pela previsão deverá terminar em 2014, e a redução da ajuda deixarão o sistema político deste país da Ásia central sem legitimidade nem estabilidade, segundo especialistas, imprensa e diversos estudos.

Apesar de receber dezenas de milhares de milhões de dólares de Washington, o governo afegão não conseguiu manter eficazmente projetos de desenvolvimento de infraestrutura, nem programas de capacitação e equipamento para a polícia e as forças de segurança, afirmam analistas.

Grande parte disto se deve à corrupção dos empreiteiros norte-americanos, aos frouxos controles de Washington e Cabul e à debilidade inata do governo de Hamid Karzai, acrescentam os analistas. "Como se pagará tudo isso?", pergunta Andrew Wilder, especialista afegão no Instituto para a Paz, dos Estados Unidos. "Esta é a questão crucial. Como se poderá pagar a polícia e os programas de infraestrutura quando os recursos fiscais diminuirão no próximo ano?", insistiu.

Para Vanda Felbab-Brown, especialista em Afeganistão na Brookings Institution, com sede em Washington, a ajuda norte-americana que inundou as províncias afegãs de Helmand e Kandahar, distorceu as economias locais e fez disparar a "competição pela pilhagem", em lugar de trazer desenvolvimento sustentável. Se os Estados Unidos fecharem a torneira, acontecerá uma "devastadora restrição econômica no país, que poderá desestabilizá-lo politicamente", alertou.

As notícias sobre casos de corrupção de empreiteiros privados agravaram a preocupação. Em mais de uma dezena de informes trimestrais enviados ao Congresso dos Estados Unidos, 40% dos US$ 56 bilhões destinados a projetos civis no Afeganistão não puderam ser justificados pelo escritório do Inspetor Geral Especial para a Reconstrução Afegã (Sigar). A corrupção tanto de empreiteiros afegãos como norte-americanos consome grande parte da ajuda ao Afeganistão, segundo estudos, funcionários e analistas.

Por outro lado, a polícia afegã não está preparada para enfrentar a responsabilidade de dar segurança. O contrato para treinar a polícia afegã custou aos contribuintes norte-americanos mais de US$ 9 bilhões, mas teve resultados mais do que decepcionantes, disse no Congresso a senadora Claire McCaskill, do governante Partido Democrata. No total, os Estados Unidos gastaram mais de US$ 29 bilhões nas forças de segurança afegãs, um terço desse valor com a polícia.

O problema mais agudo está no fato de o governo afegão carecer de estruturas adequadas para supervisionar a reconstrução. Uma auditoria do Sigar de 2011 indica que o Ministério de Assuntos do Interior do Afeganistão é incapaz de determinar exatamente o número de funcionários policiais e não pode garantir para onde foi o dinheiro destinado aos salários.

O informe indica ainda que há "empregados fantasmas", que simplesmente não vão trabalhar ou que recebem cheques sob diferentes nomes. A auditoria também aponta que há importantes dúvidas sobre a capacidade do governo para manter mais de 800 instalações destinadas ao exército e à polícia, que estão sendo construídas com US$ 11,4 bilhões doados pelos Estados Unidos.

Por exemplo, quando em 2012 inspetores visitaram uma instalação policial construída com US$ 7,3 milhões na província de Kunduz, e na qual deveriam ser abrigados 173 funcionários, foram encontradas apenas 12 pessoas. Outras instalações estavam fechadas, a polícia não tinha as chaves e ninguém sabia ao certo a destinação dos edifícios.

Em fevereiro, auditores do Sigar revelaram que a polícia afegã não tinha meios para manter os 30 mil veículos que os Estados Unidos doaram para essa força em oito províncias. O Sigar informou que US$ 63 milhões destinados a reparos de veículos policiais foram malversados entre abril de 2011 e setembro de 2012. Segundo notícias da imprensa confirmadas por entrevistas, policiais afegãos usavam veículos fornecidos pelos Estados Unidos para uso pessoal.

A auditoria encontrou deficiências nos inventários de peças de veículos e também descobriu que a Agência para a Administração de Contratos de Defesa nem sempre fez supervisões mensais às instalações, entre outras numerosas falhas. Enquanto isso, conforme a presença norte-americana diminui a segurança se deteriora. Uma das equipes de inspeção foi notificada de que uma localidade no norte do país estava além da "bolha" de segurança e que, portanto, "era inseguro visitá-la".

O inspetor-geral, John Sopko, disse em novembro no Stimson Center, uma organização de estudos de Washington, que a falta de segurança impediu que fossem examinadas 38 instalações, num total de US$ 72 milhões. "Estamos nos dando conta de que nem sempre podemos ter a proteção que precisamos para realizar nosso trabalho", afirmou, ainda que Cabul se encontre dentro da "bolha". E acrescentou que "sem uma adequada segurança a reconstrução será suspensa ou continuará sem a supervisão necessária". Por outro lado, milhares de milhões de dólares terminaram em contas de políticos afegãos que viajaram ao exterior e nunca regressaram, dissera à IPS ex-funcionários de inteligência norte-americanos. Envolverde/IPS (END/2013)