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Drones para a paz
Emilio Godoy*
Cidade do México, México, 8 de abril de 2013 (IPS) - (Terramérica).- Engenheiros mexicanos se dedicaram a desenvolver veículos aéreos não tripulados para fins pacíficos e produtivos.

Ofuscados pelo polêmico uso que os Estados Unidos lhes dão em sua "guerra ao terrorismo", os drones (veículos aéreos não tripulados) têm um potencial quase ilimitado de usos em pesquisa científica. A palavra inglesa "drones" se refere a aviões teledirigidos, os mesmos que os Estados Unidos utilizam, fortemente armados, para assassinar supostos terroristas e que causam muitas mortes civis no Afeganistão, Paquistão, Iêmen e Somália.

Mais de 40 países utilizam ou fabricam estes dispositivos, segundo diversos informes consultados para um artigo publicado pela IPS. Contudo, com estes aviões e helicópteros autônomos é possível traçar mapas, inspecionar o fundo marinho, medir a temperatura ou os níveis de contaminação, monitorar fenômenos climáticos e vigiar zonas de alto risco ou sítios arqueológicos. No mês passado, a agência espacial norte-americana, Nasa, enviou drones para inspecionar a composição química da fumaça do vulcão Turrialba, na Costa Rica.

"A tecnologia está surgindo, estão sendo feitas apenas as primeiras aplicações. A mesma sociedade aprendeu a aceitar os drones além dos usos militares, pois percebeu seus diferentes usos. É apenas questão de tempo", para ganharem maior desenvolvimento, disse ao Terramérica o mexicano Jordi Muñoz, fundador da empresa 3D Robotics, prioneira na fabricação desses artefatos no México.

Sua história é semelhante ao surgimento desses aparelhos, que começaram a ser produzidos com US$ 500 fornecidos pelo físico norte-americano Chris Anderson, em 2007. "Me deram confiança pura. Foram os US$ 500 melhor investidos da minha vida. Me ocorreu construir um drone. Eu desenvolvia o piloto automático e 'googleava' em busca de informação quando encontrei um fórum, entrei, me registrei e vi que postavam informações sobre drones feitos em casa", recordou Muñoz, que está para se formar engenheiro em computação na estatal Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Em 2007, Anderson criou o blog DIY (sigla em inglês para "faça você mesmo") Drones, um fórum para que interessados trocassem experiências, códigos eletrônicos e mapas de componentes. "Comecei a postar vídeos, escrever códigos, documentava e publicava o que fazia", contou Muñoz, cujo trabalho chamou a atenção de Anderson, até janeiro editor-chefe da revista norte-americana Wired e agora sócio na 3D Robotics.

A empresa não vende aparelhos para uso militar. Os projetos são criados na cidade de San Diego, sudoeste dos Estados Unidos, e a montagem acontece em Tijuana, norte do México. Diariamente chegam entre cem e 150 pedidos de clientes de Brasil, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Austrália, Alemanha, Israel e Japão.

A 3D Robotics emprega 60 pessoas e pretende fechar o ano com cem. Desde sua fundação, em 2009, vendeu cerca de US$ 10 milhões e captou outros US$ 5 milhões de três fundos norte-americanos que financiam empresas tecnológicas. "Em 2013, queremos profissionalizar todos os produtos. Houve avanços enormes, tudo já é muito simplificado, e queremos fazer do drone um objeto mais fácil de usar. Porém, precisamos de engenheiros para escrever códigos, para manufatura", indicou Muñoz.

Ao trabalhar com o esquema de licenças abertas, construiu uma rede de engenheiros por todo o mundo, que melhoram os códigos e dessa forma geram produtos avançados. "Quando isto evoluir, poderá surgir uma aplicação tecnológica possível de ser comercializada. Houve aproximação de empresas, mas ainda não tínhamos um protótipo pronto", informou Muñoz.

Sete estudantes de mestrado em mecatrônica entraram desde 2007, e atualmente trabalham na iniciativa dois candidatos a mestre e dois a doutorado. Muñoz foi selecionado em 2012 entre os dez melhores inovadores menores de 35 anos do México pela revista norte-americana Technology Review, do Instituto Tecnológico de Massachusetts.

Um drone consta de um processador rápido, uma bateria, um receptor do sistema de posicionamento global (GPS), uma bússola e sensores, como um acelerômetro e um giroscópio. Um avião pode voar por três horas e um helicóptero por meia hora. Conectado a um modem, pode ter alcance de até 60 quilômetros, transmitindo dados em tempo real.

No México não há normas sobre o uso de drones, embora o governo os use para combater o narcotráfico, algumas empresas para supervisionar construções e as universidades para testes científicos. No Centro de Pesquisa e de Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional, três pesquisadores equipam protótipos para vigilância e segurança, com vistas a dar-lhes escala comercial.

"Perdemos um pouco de tempo. Se tivéssemos feito há cinco anos, estaríamos junto com outros países. Não foi dada muita importância, não havia pesquisa. Temos muitas possibilidades, e o ponto principal é que os estudantes que formamos partam de uma consciência mais avançada", afirmou ao Terramérica o pesquisador em mecatrônica do Centro, Hugo Rodríguez.

"Os novos modelos vão melhorando, vamos ganhar experiência, resolvendo novos problemas. Em pouco tempo, poderemos ter um protótipo para comercializá-lo, com formação de recursos humanos", pontuou Rodríguez, doutor em automatização e tratamento de sinal pela Universidade de Paris XI. Desde 2007, estes especialistas projetaram um avião quadrimotor, duas aeronaves de asas fixas e dois helicópteros, e testaram com seus controles automáticos.

Embora nos Estados Unidos esteja proibido o uso comercial de drones (só é permitido para utilização científica ou lazer), o governo projeta integrá-los ao seu espaço aéreo em 2015, e a Administração Federal de Aviação estima que até o final desta década haverá cerca de 30 mil veículos voando para múltiplas aplicações.

O estudo The Economic Impact of Unmanned Aircraft Systems Integration in the United States (O Impacto Econômico da Integração de Veículos Aéreos não Tripulados nos Estados Unidos) estima que nos primeiros três anos será possível criar 70 mil empregos. O informe divulgado em março pela AUVSI, a associação internacional destes sistemas, prevê que, entre 2015 e 2017, seu impacto econômico vai superar os US$ 13 bilhões, chegando aos US$ 82 bilhões entre 2015 e 2025, incluindo venda de novos produtos, impostos, renda para os fabricantes, as comunidades e as lojas locais. Envolverde/Terramérica

* O autor é correspondente da IPS. (END/2013)