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Meninas camponesas e pobres, as mais marginalizadas da educação
Joan Erakit
Nações Unidas, 17/4/2013 (IPS) - A iniciativa Educação Primeiro, um projeto do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, é o tema central das reuniões ministeriais que acontecem na sede do Banco Mundial em Washington, o que revela a importância do ensino na economia internacional.

Ban, junto com o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, e do ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown (2007-2010), enviado especial da ONU para a Educação Primeiro, preside as reuniões que começaram ontem e terminarão amanhã.

O encontro reúne ministros das Finanças e da Educação de países como República Democrática do Congo (RDC), Haiti, Sudão do Sul, Iêmen, Índia, Nigéria, Etiópia e Bangladesh. Josephine Borune, diretora associada e chefe mundial de educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), conversou com a IPS sobre este encontro e os desafios que enfrenta o ensino no planeta.

IPS: No contexto da iniciativa global Educação Primeiro, qual o papel do Unicef e como serão usados seus recursos para esta campanha?

Josephine Bourne: A iniciativa fornece uma oportunidade única para promover maiores vontade e compromisso político em vários níveis, convocando os principais atores no campo da educação e assegurando fontes financeiras sustentáveis. O Unicef apoia e continuará apoiando os objetivos da iniciativa, por meio de uma série de ações para fortalecer o trabalho com crianças que não vão à escola, e garantindo que sejam dadas oportunidades de estudo aos mais vulneráveis, particularmente as meninas, os menores com limitações e os que vivem em situações de conflito. A agência também trabalha para mobilizar os jovens e fazer com que sejam ouvidas suas vozes e opiniões sobre temas de educação, bem como sobre assuntos relacionados com o trabalho infantil, o casamento precoce e a capacitação de professores.

IPS: Qual é o grande fator que reduz as oportunidades de obter educação?

JB: A combinação de nascer menina, na pobreza e em uma área rural diminui as chances de receber educação. Uma menina no Sul em desenvolvimento cursa sete anos de escola, se casa quatro anos mais tarde e tem uma média de 2,2 filhos. As meninas de grupos em desvantagem são, em geral, as mais marginalizadas. As meninas que receberam educação, em geral, têm menos filhos e estes são mais sadios e melhor educados, o que, por sua vez, contribui para reduzir a pobreza em nível comunitário e para melhorar o crescimento econômico nacional. Isto também permite que haja mais lideranças, menos níveis de aumento populacional e maior desenvolvimento sustentável.

IPS: Como podem trabalhar juntos sociedade civil e setor privado de forma efetiva em cada país?

JB: O Unicef mantém fortes relações com a sociedade civil e o setor privado, embora estas só tenham se fortalecido nos últimos anos. Por exemplo, com o projeto Escolas para a África, o Unicef trabalha com governos, autoridades locais, comunidades e outros sócios em 11 países para criar as condições necessárias para atrair crianças às escolas e mantê-las ali, em um ambiente seguro e protetor no qual posam aprender, brincar e crescer. Outra nova e única iniciativa é Play (acrônimo em inglês de Atividades Lúdicas e de Aprendizagem para os Jovens), que distribui jogos para armar, com o objetivo de as crianças desenvolverem sua imaginação, curiosidade e expressão, e que colaborem com seus colegas. Trata-se de uma associação entre Unicef, The Walt Disney Company e organizações no Haiti e em Bangladesh para fornecer formas seguras de recreação para meninos e meninas que vivem em condições de recuperação de desastres e em extrema pobreza.

IPS: Para os professores e líderes comunitários que trabalham em nível local é difícil quantificar resultados. Estas reuniões no Banco Mundial lhes darão um mapa a seguir?

JB: O progresso em um país, em geral, está determinado pelas políticas do governo e de seus sócios para o desenvolvimento. Tudo o que fazemos, cada decisão que tomamos, cada programa que lançamos e cada dólar que gastamos deve ser julgado pelo modo como impacta nas crianças e nas comunidades às quais servimos. O sucesso das reuniões do Banco Mundial dependerá de as ações prioritárias ali identificadas terem realmente melhorado as oportunidades educacionais dos mais vulneráveis em cada um desses países: as crianças de áreas rurais, que vivem em zonas de conflito ou que sofrem limitações. Também precisamos melhorar a forma como quantificamos os resultados para as crianças mais vulneráveis. Isto é algo em que o Unicef está trabalhando, por intermédio de seu Instituto de Estatísticas. Os professores, os líderes comunitários e os pais devem continuar colaborando no terreno para que seus filhos se matriculem nas escolas, permaneçam nelas e aprendam, enquanto os governos e seus sócios para o desenvolvimento devem adotar políticas que promovam e protejam o direito de todos à educação.

IPS: Pode-se usar o recente documentário norte-americano Girl Rising, que apresenta história de meninas de diversos países buscando oportunidades educacionais, para expor esta situação nas reuniões de Washington?

JB: As meninas de grupos em desvantagem, em geral, são as mais marginalizadas de todas e requerem especial atenção. Ser menina em uma família pobre ou em um grupo étnico ou linguístico minoritário, viver em uma região rural, isolada ou em um país afetado por conflitos, aumenta enormemente o risco de não poder frequentar a escola. Girl Rising mostra a experiência de meninas que enfrentam barreiras para ter acesso à educação. O filme apresenta uma forte imagem da grande promessa que representa a escola, e também revela a desigualdade na distribuição das oportunidades para milhões de meninas no mundo. O filme é uma importante contribuição para a criação de consciência sobre os temas relacionados às meninas e ao seu empoderamento. Mas apenas seu empoderamento não basta para a mudança social. Proteger e promover os direitos humanos à educação para todos os menores, incluindo as meninas, exige o envolvimento e o compromisso de todos os responsáveis: indivíduos, pais, comunidades, instituições e organismos internacionais, como Unicef e o sistema das Nações Unidas. Envolverde/IPS (END/2013)