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"O desafio da Venezuela é consolidar a democracia"
Fabíola Ortiz
Rio de Janeiro, Brasil, 24/4/2013 (IPS) - O desafio da Venezuela é aprofundar a democracia, e o de seu novo presidente, Nicolás Maduro, vencer um potencial referendo revogatório e responder aos interesses de sua força política, disse à IPS o brasileiro Marcelo Serpa, da Associação Latino-Americana de Pesquisadores em Campanhas Eleitorais.

O chavismo, "movimento político que despertou a Venezuela", continuará vigente por muitos anos, mas "não governará eternamente", afirmou este economista e doutor em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Porém, não será possível outro tipo de governo que não aquele que presta atenção aos setores mais pobres", ressaltou.

Maduro foi eleito no dia 14 deste mês pelo governante Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), fundado por Hugo Chávez (1954-2013), que governo desde 1999 e morreu no dia 5 de março. O mandatário tem o desafio de se consolidar como governante e enfrentar riscos com o surgimento de uma dissidência do chavismo dentro da esquerda bolivariana, opinou Serpa, que trabalhou em vários processos eleitorais nesse país e acaba de publicar no Brasil o livro Eleições Espetaculares - Como Hugo Chávez Conquistou a Venezuela.

IPS: Como Chávez conseguiu conquistar a Venezuela e o carinho que tantas pessoas lhe dedicam mesmo depois de morto?

Marcelo Serpa: Tentou por duas vias: pelo velho estilo latino-americano do golpe de Estado (1992) e, depois de preso, foi anistiado e converteu seu Movimento Bolivariano Revolucionário - 200 em um partido para chegar ao poder pelo caminho democrático e quase como um salvador da pátria.

IPS: Qual era o contexto venezuelano quando Chávez surgiu no cenário político?

MS: Além do golpe de Chávez, houve várias tentativas de golpe. O que marca a história recente da Venezuela é a instabilidade política. O perfil sociodemográfico quando Chávez chegou ao poder se forma assim: as classes A, B e C juntas constituíam 4% da população, e o restante pertencia às classes D e E, em uma economia que vivia somente do petróleo.

IPS: Por que foi capaz de atrair tantos seguidores?

MS: Nos dois anos em que esteve preso, redigiu um plano de governo e várias propostas, entre elas uma reforma do sistema que desse conta dos privilégios de quem vivia de rendas. O modelo econômico do país se centrava, então, no petróleo nas mãos de uma pequena elite. Chávez quis acabar com a economia rentista e afirmou que todo o lucro das operações da PDVSA (a estatal do petróleo) deveria ser destinado a investimentos no próprio país para acabar com a pobreza. Com a Constituição de 1999, Chávez se apropriou desses recursos para os programas sociais e conseguiu, por exemplo, erradicar o analfabetismo.

IPS: Muito se especulou sobre a pouca transparência com que foi manejada a informação a respeito da doença e morte do líder. Como analisa esse processo de comunicação?

MS: Estive várias vezes na Venezuela, trabalhei em suas eleições como profissional da comunicação, e, na minha opinião, o fluxo de informação sempre chegou muito bem. Chávez tinha um problema com a mídia internacional, em especial, e depois com o fechamento da RCTV, a principal emissora de televisão venezuelana. Isso foi polêmico, mas nunca vi maior liberdade de imprensa do que na Venezuela. Dizer que lá não há liberdade de imprensa não é verdade. Chávez recebia todos os jornalistas e dava coletivas todos os domingos. Foi muito incompreendido pelos meios de comunicação internacionais.

IPS: Que legado ele deixou ao seu sucessor?

MS: Antes de Chávez, a Venezuela estava empobrecida, prosperava a renda com petróleo, mas nada era dirigido para as classes necessitadas. Hoje, a Venezuela continua com muitos problemas, mas estas classes estão de algum modo atendidas. Recebem enorme assistência do Estado em função dos recursos petroleiros. A iniciativa privada retrocedeu, o que obrigou o Estado a assumir determinadas funções e certos compromissos, além de suas possibilidades.

IPS: Como avalia as eleições presidenciais de 14 de abril?

MS: A vitória do chavismo se deu com base em um discurso espetaculoso, de franco domínio da emoção sobre a razão. Quando Chávez comunicou que deveria se ausentar para uma nova cirurgia e que, caso fosse impedido de governar, o povo deveria eleger Maduro, as pesquisas indicavam que 35% dos venezuelanos não sabiam quem era Maduro. Em outubro de 2012, Chávez venceu (o opositor Henrique Capriles) com diferença de 10%. Mas, nesta eleição dificilmente todo o prestígio de Chávez seria transferido para Maduro. Eu já apostava em uma diferença de 2% entre os candidatos.

IPS: Como vê o papel da oposição neste processo?

MS: A oposição cometeu o mesmo erro de Chávez: tentou chegar ao poder primeiro pela força e depois de forma democrática. A política venezuelana é agressiva. A oposição nunca esteve silenciada. O próprio Capriles foi preso e anistiado por Chávez. Mas a oposição esteve ausente por muito tempo e agora tenta se reconstruir e está pagando um alto preço por isso, o que permitiu a vitória de Maduro.

IPS: O que prevê para o futuro?

MS: Começa uma nova era, a do chavismo sem Chávez. O caminho da Venezuela é fortalecer a democracia. O chavismo não permanecerá eternamente no poder. Com tantos anos de gestão, há um problema de desgaste de imagem. Contudo, não será possível outro tipo de governo que não seja o que dá atenção aos setores mais pobres. Há uma série de programas instalados que devem ser mantidos. O chavismo deixou sua marca e continuará presente por muitos anos. Definitivamente, foi o chavismo que despertou a Venezuela. O mandato presidencial é de seis anos, e há um dispositivo constitucional que permite propor um referendo revocatório a partir da metade do mandato, havendo certas condições. É provável que a oposição tente o referendo contra Maduro. O que está em jogo é se Maduro será capaz de se sustentar, tanto para manter seu mandato como para responder aos interesses de seu partido. Poderia, inclusive, haver uma dissidência do chavismo dentro do pensamento de esquerda do socialismo bolivariano. Envolverde/IPS (END/2013)