:
Rebeldes congolenses sem apoio popular
Taylor Toeka Kakala
Goma, República Democrática do Congo, 25/4/2013 (IPS) - Os rebeldes do Movimento 23 de Março (M23) organizaram marchas de protesto contra o envio de uma força internacional para o leste da República Democrática do Congo (RDC), mas tiveram que suspendê-las pela falta de participação popular.

Em Kibumba, 25 quilômetros ao norte de Goma, capital da província de Kivu do Norte, os moradores não só se negaram a participar da marcha como muitos abandonaram a localidade. Os rebeldes foram forçados a suspender as duas marchas, convocadas para os dias 10 e 15 deste mês.

Para o especialista em política Janvier Nkinamubanzi, da Universidade de Goma, seria um absurdo esperar que a população apoiasse o M23 e marchasse contra a resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), que estabelece o envio de uma força de combate internacional para o leste da RDC.

O M23 leva o nome da data em que foi assinado um acordo de paz, em 2009, entre o governo congolense e os líderes do antigo grupo rebelde Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNPD). O M23 é uma cisão do CNDP, e a maioria de seus membros pertence à etnia tutsi. "Os habitantes de Kibumba e das regiões controladas pelo M23, inclusive os que vivem em Goma, têm a impressão de serem vítimas de uma ocupação estrangeira", explicou Nkinamubanzi à IPS.

A ONU acusou Ruanda e Uganda de terem apoiado os rebeldes do M23 quando estes tomaram Goma, em dezembro passado. Os insurgentes estiveram por uma semana nessa cidade e depois se retiraram. Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, desde o início da rebelião do M23, em abril de 2012, mais de meio milhão de pessoas abandonaram suas casas em Kivu do Norte.

"Pedir aos residentes para protestarem contra uma brigada que vem para libertá-los desta situação é uma dupla humilhação, enquanto o exército nacional é incapaz de protegê-los", pontuou Nkinamubanzi. O M23 já fez vários protestos contra a resolução 2098 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que autoriza o envio de uma força de combate para o leste da RDC, para neutralizar o avanço rebelde.

Os insurgentes organizaram diferentes mobilizações de protesto, e sequestraram por cinco dias 11 veículos da Missão de Estabilização das Nações Unidas na RDC (Monusco) na localidade de Rutshuru, ao norte de Goma. "Nossos homens não duvidarão em responder se forem atacados. O bloqueio dos veículos da ONU é uma forte mensagem que deixa claro o quanto estamos falando sério", disse à IPS o porta-voz militar do M23, Vianney Kazarama.

Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores da RDC, Raymond Tshibanda, disse em entrevista coletiva, no dia 1º deste mês, que o único futuro para o M23 é o desarmamento. Se o grupo rebelde não se render, a força internacional o desarticulará, afirmou. "O governo finge dialogar com o M23 quando, na realidade, quer destruir os rebeldes", opinou à IPS o analista Godefroid Kä Mana, presidente do Pole Institute, centro de estudos da região dos Grandes Lagos.

Por outro lado, os líderes locais exortam o governo a integrar ao exército nacional os milicianos da Aliança de Patriotas para um Congo Livre e Soberano (APCLS). Bahati Kahembe, um dos quatro chefes tradicionais que integram a assembleia provincial de Kivu do Norte, disse que tanto os rebeldes como os soldados do exército são responsáveis por violações dos direitos humanos. "Contudo, a APCLS é menos violenta com a população do que outras forças", afirmou à IPS.

A APCLS é uma das milícias melhor organizada da região. Seu líder, Janvier Karairi, a criou em protesto contra o acordo de 23 de março de 2009. Segundo a Monusco, a APCLS conta com entre 500 e mil combatentes, a maioria pertencente à etnia hunde. Atacam especialmente tutsis, às vezes em colaboração com hutus das rebeldes Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda, refugiados no leste da RDC desde 1994.

Os combatentes da APCLS também apoiaram as forças armadas congolenses em seu enfrentamento com o CNDP, e agora contra o M23. "Estamos apenas defendendo nossa terra dos invasores", argumentou Karairi à IPS. Porém, o governador de Kivu do Norte, Julien Paluku, afirmou que "não há rebeldes bons nem rebeldes maus". Envolverde/IPS (END/2013)