REPORTAGEM:
Chile busca energia em vulcões e gêiseres
Marianela Jarroud
SANTIAGO, Chile, 6 de maio de 2013 (IPS) - (Tierramérica).- O território chileno possui 20% dos vulcões ativos do planeta, segundo o Centro de Excelência em Geotermia dos Andes.

O Chile é um dos países com maior potência para desenvolver a energia geotérmica na América Latina. Contudo, sem incentivos para os investimentos, ainda não passou da fase exploratória. Uma aliança estratégica com a Nova Zelândia busca mudar esse cenário. A energia calórica do interior da Terra, em zonas de água de alta pressão, sistemas de vapor e de água ou rochas quentes, é transmitida por condução térmica para a superfície. A força gerada pelo vapor é aproveitada para movimentar uma turbina capaz de mover um gerador elétrico.

O território longo e estreito deste país sul-americano se estende por 4.270 quilômetros pelas partes baixas da cordilheira dos Andes, a maior cadeia vulcânica da Terra, segundo um centro especializado da Universidade do Chile. Este país "tem 10% dos vulcões do mundo, o que, em termos geológicos, é um potencial interessante", disse ao Terramérica o especialista da Associação Chilena de Energia Geotérmica (Achegeo), Gonzalo Salgado.

O território faz parte do Cinturão de Fogo do Pacífico, que na América inclui Peru, Equador, Colômbia, América Central, México e partes de Argentina, Bolívia, Estados Unidos e Canadá. Esse cordão vulcânico possui territórios virgens para a exploração desta energia, explicou Salgado. A geotermia é um caminho para o autoabastecimento energético deste país, que atualmente importa 70% de sua energia. "As soluções (para a dependência energética) são múltiplas: é preciso falar de eficiência energética e de muitas coisas, mas evidentemente a geotermia é um dos insumos que ajudaria a resolver este problema", afirmou Salgado.

Segundo relatório do Centro de Energias Renováveis do Ministério de Energia, em 2012 as fontes renováveis não convencionais representaram uma capacidade instalada de 5% da matriz elétrica nacional. Em uma comparação, as energias renováveis contribuíram com 77% do fornecimento elétrico da Nova Zelândia em 2011. O governo chileno pretende chegar a 10% em 2024, embora o Congresso legislativo discuta um projeto de lei para elevar essa meta a 15% ou mesmo 20%.

O Chile foi pioneiro em estudar o potencial geotérmico. A primeira exploração foi em 1907 no El Tatio, um campo de gêiseres no norte do país, e em 1931 se materializou a perfuração de dois poços nessa região. No final da década de 1960, o governo, apoiado por fundos internacionais, realizou explorações mais sistemáticas em El Tatio, que, no entanto, acabaram suspensas. Em 2008, a empresa Geotérmica do Norte iniciou uma exploração na Quebrada do Zoquete, a poucos quilômetros de El Tatio.

Em setembro do ano seguinte, uma coluna de vapor de água de 60 metros de altura se levantou de um dos poços onde a empresa extraía e reinjetava fluidos geotérmicos para avaliar o potencial energético do setor. Esta anomalia, que se manteve por mais de três semanas, levou o governo a revogar a permissão. Apesar do alarme provocado na população, que na época demonstrava interesses na energia geotérmica, Salgado garantiu que o episódio "não afetou o desenvolvimento" desta energia.

Luis Mariano Rendón, diretor da Ação Ecológica, disse ao Terramérica que, embora toda geração de energia tenha efeitos daninhos, "a geotermia é uma forma de geração de relativo baixo impacto" que o Chile deve aproveitar. O mais relevante seria a disponibilidade de água, que poderia limitar sua exploração em regiões áridas, detalhou.

Estudos da Universidade do Chile estimam que este país poderia gera 16 mil megawatts (MW) de energia geotérmica, enquanto a capacidade elétrica instalada é de 16.970 MW e a demanda máxima gira em torno dos nove mil MW, segundo dados oficiais de fevereiro de 2012. No momento, há 76 concessionárias vigentes para a exploração de geotermia em todo o país, 42 em trâmites e 24 em análises. Porém, não é produzido um único MW desta fonte.

Diante desta realidade, a Achegeo organizou, nos dias 11 e 12 do mês passado, o II Congresso Internacional de Geotermia, no qual se debateu legislação, mercado elétrico, aspectos ambientais e a necessidade de ser implantado no Chile um seguro de perfuração frustrada. "O que falta é a exploração profunda", para a qual se exige este tipo de seguro, que seria um incentivo "concreto e tangível" para o investimento, argumentou Salgado.

Para potencializar o desenvolvimento geotérmico, o Chile anunciou uma aliança estratégica com a Nova Zelândia, onde essa fonte fornece 15% da eletricidade. A central elétrica Wairakei, construída em 1957 no centro da Ilha Norte, foi a primeira usina geotérmica do mundo que operou com vapor úmido, e hoje continua funcionando.

"Nos últimos sete anos foram desenvolvidos na Nova Zelândia sete projetos que somam 550 MW. Graças a eles, todos de sucesso, foi possível conseguir bastante conhecimento e experiência", informou ao Terramérica o presidente da Geothermal New Zealand, Bernard Hill, cuja empresa atua como consultora e agência de promoção internacional desta fonte. Segundo Hill, o Chile é o segundo país com maior potencial geotérmico depois da Indonésia.

"A indústria geotérmica mundial é pequena, por isso as pessoas envolvidas se conhecem. O Chile é visto como um lugar importante para a geotermia, e isto se materializa no número de empresas que estudam investir aqui", afirmou Andrea Blair gerente de desenvolvimento de negócios da GNS Science, outra firma neozelandesa dedicada a fornecer informação científica ao setor.

As empresas da Nova Zelândia buscam desenvolver um apoio mútuo, que inclua a transferência de conhecimento tecnológico com o Chile, disse Blair ao Terramérica. "Ninguém conhece melhor o Chile do que os próprios chilenos, e nós conhecemos muito bem o que é o desenvolvimento geotérmico, por isso trabalhamos juntos para podermos conseguir êxito nos projetos", ressaltou.

Além da ciência e da tecnologia, a Nova Zelândia pode contribuir com sua própria experiência de relação com os povos indígenas na hora de pensar um projeto. "Deve-se ter um compromisso genuíno com as comunidades e tentar compreender qual é o ponto de vista do outro, saber do que necessitam, o que querem e manter uma discussão transparente a todo o momento", explicou Blair. "Na Nova Zelândia os maoris são parte do projeto e muitas vezes também recebem lucros", acrescentou.

Essa realidade contrasta com a do Chile, onde vários planos foram paralisados pela justiça devido à oposição de comunidades nativas que exigem a aplicação do Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre consulta aos povos indígenas. Já na Nova Zelândia, "antes de desenvolver o projeto, a empresa deve ir conversar com o dono da terra, que quase sempre é um indígena, e se este não estiver de acordo o projeto não seguirá", finalizou Blair. (END/2013)