COLUNA:
Imagem e conhecimento da União Europeia na América
Joaquín Roy*
Miami, Estados Unidos, maio/2013 (IPS) - Eu me pergunto o que pode ser do interesse dos cidadãos latino-americanos com relação aos temas europeus em geral, e qual deveria ser o foco de atenção em assuntos específicos para os consumidores dos meios de comunicação hispânicos nos Estados Unidos.

Confesso a complexidade da pergunta geral e me declaro um tanto incompetente para oferecer uma prescrição com alguma base sólida. Este diagnóstico é, de certa forma, uma admissão de fracasso por ter praticado durante mais de quatro décadas essa profissão de fim de semana, colaborando em meios de comunicação em espanhol nos dois continentes e cumprindo as frequentes perguntas desses mesmos veículos.

Um princípio da avaliação do conhecimento e da imagem da Europa nesses meios é que não é muito diferente da oferecida pela imprensa, a televisão e o rádio em inglês nos Estados Unidos e pelos próprios latino-americanos do outro lado do rio Grande e Cayo Hueso.

Em contraste com o impacto da história europeia nas Américas, nos meios de comunicação hispânicos nos Estados Unidos se observa uma mescla de desinteresse, domínio do estereótipo e umas lacunas verdadeiramente preocupantes de conhecimento básico. Esta percepção é mais aparente quando se trata de comentar sobre a União Europeia (UE) em si, que se confunde com a Europa.

Este diagnóstico negativo é levemente corrigido em alguns focos excepcionais. O primeiro é quando a atualidade incide diretamente nas experiências dos consumidores de informação (emigração latino-americana na Europa).

O segundo, dependendo da região do território norte-americano, quando os fatos europeus se relacionam diretamente com alguns países concretamente (Cuba em Miami, por exemplo).

A terceira causa de certo interesse é quando alguma pauta europeia é vista diretamente ligada a conjunturas comuns nos Estados Unidos (crise financeira , tráfico de drogas).

Mas a União Europeia em si é uma desconhecida. Quais são as causas?

A resposta reside não em uma culpabilidade da própria UE, mas precisamente pelo próprio cumprimento de sua missão original. A Europa não interessa porque não escandaliza. Dá-se por descontada.

Por um lado, além de esporádicas atitudes populistas, a Europa já está despojada do pecado imperialista na América Latina. Praticamente, desde após a independência dos Estados Unidos, a Europa é uma aliada natural (com exceções que confirmam a regra, como o enfrentamento entre Espanha e Cuba).

Quando um cachorro morde um homem, não é notícia; quando um homem morde um cão, é notícia, segundo o código do jornalismo. Há tempos que a Europa não morde.

Paradoxalmente, os que acusam a UE de ter fracassado e estar perto de seu desaparecimento deveriam admitir que caso morra terá obtido êxito. Cumpriu todas e cada uma das missões impostas democraticamente e por consenso.

Primeiramente, cumpriu o mandato de "fazer da guerra algo impensável, e materialmente impossível", segundo a doutrina de Robert Schuman e Jean Monnet.

Em segundo lugar, construiu o maior e mais efetivo mercado comum da história. Conseguiu que hoje (apesar da crise) nunca tantos europeus de três gerações vivam melhor por maior espaço de tempo. Mas não morde, embora a crise do euro ajude um pouco a atrair a atenção.

Em terceiro lugar, o interesse em relação à UE se choca com uma desvantagem intrínseca do organismo: é extremamente complicado.

Além de se confundir com a Europa (uma realidade histórica e cultural não reduzida à geografia), a União Europeia ainda é um "objeto político não identificado (OPNI)", segundo feliz metáfora de Jacques Delors, não esclarecida pelas diversas teorias (funcionalismo, intergovernamentalismo, supranacionalismo, realismos).

Para profanos e especialistas, a UE é um emaranhado de instituições, legislações, pactos e múltiplos protagonistas, "governo multinível". Nada tem de estranho que, diante da complicada agenda de uma visita a Bruxelas, Madeleine Albright (secretária de Estado de Bill Clinton e catedrática em relações internacionais) exclamasse com sarcasmo que para entender a UE é preciso ser "francês ou muito inteligente".

Para compreender a UE deve-se ter a paciência asiática, o entusiasmo latino-americano, o pragmatismo norte-americano e uma persistência muito alemã.

Deve-se insistir que a UE utilize meios econômicos, mas que seu fim sempre foi político.

Deve-se esclarecer que é uma organização voluntária formada por Estados soberanos, que não renunciarão à sua identidade cultural ou política.

A UE não é um superEstado em formação. Deve-se admitir que os europeus talvez não saibam quem são e onde termina a Europa, mas sabem perfeitamente quem não são e quem não compartilha de seus valores ou experiências.

Deve-se interiorizar que a UE não tenta impor seu modelo de integração nacional, mas procura compartilhá-lo e oferecê-lo para sua adoção, adaptação, correção ou rejeição, segundo os erros cometidos.

Deve-se aceitar, enfim, que a UE, reescrevendo Winston Churchill com sua descrição da democracia liberal, é "o pior sistema de governança interestatal, descartados todos os demais". Envolverde/IPS

* Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu). (END/2013)