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Ásia meridional busca coordenar política climática
Amantha Perera
Katmandu, Nepal, 20/5/2013 (IPS) - A particular variação climática que apresenta a combinação de pobreza e uma classe média com grande capacidade de consumo torna a Ásia meridional uma região complicada para mitigar as consequências de eventos meteorológicos extremos.

As previsões indicam que a população regional duplicará até 2030. Somente a Índia contará com mais 90 milhões de habitantes em suas cidades, em relação a 2000. Aproximadamente 75% dos 1,7 bilhão de habitantes atuais vivem em áreas rurais e a agricultura concentra 60% da força de trabalho, segundo as últimas estatísticas do Banco Mundial.

Isto faz com que o impacto das variações climáticas sejam impressionantes na região. No Sri Lanka, país insular com 20 milhões de habitantes, quase dois milhões de pessoas fora afetadas no ano passado por prolongada seca e intermitentes, embora mortais, inundações. Quando o furacão Nilan atingiu o sul da Índia, em novembro, destruiu meio milhão de hectares de terras cultiváveis e deixou sete mil quilômetros de estradas em estado de urgente necessidade de reparação, tudo isto após quatro dias de fortes chuvas.

O pesquisador Pramod Aggarwal, que lidera o programa regional de agricultura e segurança alimentar da aliança mundial CGIAR (Consultative Group on International Agricultural Research), disse que 70% da região é propensa a sofrer secas, 12% inundações, e 8% furacões. "O estresse climático sempre foi normal aqui e a mudança climática só vai piorar as coisas", afirmou.

O quarto informe de avaliação do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC) alerta que os possíveis impactos de longo prazo na região são derretimento das geleiras do Himalaia, o que gerará inundações, erosão costeira pelo aumento do nível do mar, e um enorme estresse sobre os limitados recursos naturais para manter uma população urbana em expansão.

"A Ásia meridional é uma região muito complexa e vulnerável", disse Ganesh Shah, ex-ministro de Ciência e Tecnologia do Nepal, em entrevista à IPS, destacando que, na medida em que aumenta a variabilidade climática, ele e outros criadores de políticas serão obrigados a deixar de lado os mútuos receios para conseguir um plano de ação comum. W. L. Sumathipala, ex-chefe da unidade nacional de mudança climática do Sri Lanka e atual assessor do Ministério do Meio Ambiente disse à IPS que a região sofre "uma mudança de política muito significativa", tendente a melhorar a comunicação e compartilhar conhecimentos técnicos para encontrar soluções comuns ao aquecimento global.

Na medida em que o clima se torna mais quente e os desastres naturais cada vez frequentes assolam a região, a população é obrigada a improvisar e inovar para sobreviver. Aggarwal deu como exemplo produtores indianos de maçã, que descobriram novas terras de cultivo em zonas altas do Estado de Himachal Pradesh, forçados pelas temperaturas em elevação a abandonarem as terras tradicionais. O pesquisador também disse que o aumento moderado das concentrações de dióxido de carbono pode gerar uma produção entre 20% e 30% maior nas chamadas plantas "C3", como trigo, arroz, batata e batata-doce, que constituem grande parte da dieta na Ásia meridional.

No entanto, essas "vantagens" somente se manifestarão no curto prazo, até por volta de 2030, depois deve-se "esperar um grande impacto negativo", ressaltou Aggarwal. O aumento da temperatura poderá causar perda entre 7% e 10% das colheitas de outras plantas menos resistentes. Os prognósticos mais desanimadores preveem que a produção de muitos cultivos desta região diminuirá 30% em meados deste século. Para evitar esta situação, Aggarwal acredita ser necessário compartilhar a informação de estudos de órgãos como o Instituto de Pesquisa Agrícola da Índia, com sede em Nova Délhi.

O Instituto conta com laboratórios e ambientes controlados nos quais são recriados possíveis cenários climáticos e é avaliado em tempo real o impacto sobre os cultivos. Aggarwal acrescentou que é provável que o impacto da variabilidade climática seja mais pronunciado nos países tropicais, que também sofrem escassez de alimentos. Durante anos a Ásia meridional esteve à beira de uma crise alimentar. O diretor de desenvolvimento sustentável do Banco Mundial para a região, John Stein afirmou que nela já vive metade das crianças com atraso no crescimento e no desenvolvimento do mundo. Isto vai se agravar mais com a mudança climática.

Aggarwal também destacou que são necessárias "ações preventivas", como identificar cultivos que suportem melhor as temperaturas mais quentes e encontrar novos lugares para aqueles mais resistentes. É preciso disseminar rapidamente essa informação, ressaltou. A gestão da água é outro assunto de grande importância nesta região, e exige urgente atenção devido ao "variável padrão das moções", advertiu Sumathipala. Da população da Ásia meridional, 25% carece de água potável. A gestão do recurso se torna mais complexa porque os rios atravessam fronteiras nacionais. O Ganges, por exemplo, nasce no Himalaia, corre até Bangladesh e desemboca na baía de Bengala.

O especialista afirmou que compartilhar as previsões sobre as monções, geradas principalmente na Índia, seria um primeiro passo para uma maior segurança climática. O Departamento de Meteorologia da Índia anunciou em abril que estava melhorando suas capacidades de prognósticos. A Ásia meridional também sofre ameaça de agentes climáticos de curta duração (SLCP), como o carbono negro, responsável pela fuligem, com uma vida menor que a do dióxido de carbono, mas que causa um terço do aquecimento global.

Segundo o Banco Mundial, o carbono negro "também incide na formação de nuvens e tem impacto na circulação regional e na variabilidade de chuvas, como a monção na Ásia meridional", bem com na contaminação ambiental. "Os quatro países onde o impacto da contaminação sobre a saúde humana é maior estão na Ásia meridional: Índia, Bangladesh, Nepal e Paquistão", afirmou Maria Sarraf, economista do Banco Mundial. A Ásia meridional é responsável por 10% das emissões contaminantes do mundo, e a Índia lidera com 7% a 8% delas. Envolverde/IPS (END/2013)