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Arriscando a vida para fugir de Gaza
Mel Frykberg
Ramalá, Cisjordânia, 24/5/2013 (IPS) - O severo bloqueio de Israel imposto à Faixa de Gaza está levando muitos jovens palestinos desempregados a adotarem medidas cada vez mais extremas para conseguirem um meio de vida.

Em busca de trabalho, alguns tentam entrar em Israel saltando a cerca que separa este país de Gaza.

Os poucos que procuram plantar na terra próximo da cerca recebem disparos dos soldados israelenses do outro lado da fronteira. Outros tentam emigrar para o Egito por túneis subterrâneos, mas muitos morrem quando estes desabam.

Um acordo entre o Hamás (Movimento de Resistência Islâmica) e a israelense Cogat (Coordenação de Atividades Governamentais nos Territórios) permite aos moradores de Gaza acesso à maior parte da terra árabe na chamada zona de contenção. Esse limite, criado por Israel e que impede que se chegue a 300 metros da fronteira, diminuiu para cem metros graças a este convênio.

A zona de contenção inclui algumas das terras mais férteis de Gaza, um dos territórios mais densamente povoados no mundo, com mais de 1,5 milhão de pessoas em uma área de 41 quilômetros de comprimento por entre seis e 12 de largura. Mas, apesar do acordo Hamás-Cogat, "a situação é instável e imprevisível, e os agricultores são extremamente vulneráveis", contou à IPS o ativista Muhammad Suliman, da organização de direitos humanos Al Mezan, de Gaza. "Os palestinos continuam recebendo disparos e são assassinados quando estão dentro da zona de contenção", acrescentou.

Por outro lado, marinheiros palestinos que trabalham dentro da zona autorizada para pesca, que esta semana foi ampliada de três para seis milhas náuticas da costa, em algumas ocasiões também são atacados ou presos pelas forças israelenses. Embora o desespero econômico dos moradores de Gaza seja aliviado em parte pelo aumento da ajuda internacional, o desemprego continua em alta. A Faixa se converteu em um dos lugares do mundo mais dependentes de assistência externa. "Mais de 85% dos habitantes dependem da ajuda para sobreviverem, enquanto o desemprego atinge 55%" da população economicamente ativa, afirmou Suliman.

"A Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina no Oriente Médio (UNRWA) pede doações a toda comunidade internacional para ajudar economicamente a população de Gaza", explicou Chris Gunnes, porta-voz dessa entidade. "Não seria melhor Israel levantar o bloqueio e permitir a Gaza ser autossuficiente?", questionou. "A menos que se levante o bloqueio e seja permitido a algumas das pessoas mais empreendedoras saírem de Gaza para fazer negócios, o território continuará sendo cada vez mais dependente da ajuda internacional", afirmou à IPS.

Segundo a Al Mezan, os ataques contra os pescadores da Faixa aumentaram, paradoxalmente, desde que Hamás e Israel acordaram um cessar-fogo em novembro. Na primeira semana deste mês, Israel afundou seis barcos palestinos, danificou nove geradores de energia e 41 faróis usados pelos pescadores para trabalhar à noite. No total foram 13 incidentes separados de ataques contra embarcações palestinas.

A Al Mezan apontou que, na terceira semana deste mês, israelenses dispararam com metralhadoras contra um grupo de barcos pesqueiros quando estavam perto da costa Beit Lahiya, no norte da Faixa de Gaza. Os israelenses detiveram dois homens, Mahmoud Zayid, de 27 anos, e seu irmão Khalid, de 25, que se encontravam em uma pequena embarcação dentro da zona permitida para a pesca, a apenas três milhas náuticas da costa.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários informou que, segundo os Acordos de Oslo de 1993, os pescadores palestinos podem navegar a até 20 milhas náuticas da costa. Desde que Israel impôs o bloqueio em 2006, a área diminuiu para seis milhas náuticas, com um efeito devastador. Naquele ano foram capturadas 2.500 toneladas de sardinha, enquanto em 2012 foram apenas 234 toneladas.

Segundo a organização internacional Oxfam, as restrições econômicas impostas por Israel estão levando os moradores de Gaza a arriscarem suas vidas tentando vencer o obstáculo fronteiriço para cruzar com destino a Israel em busca de trabalho, ou atravessando os quebradiços túneis que levam ao Egito. Em um estudo, realizado em colaboração com a Oxfam, o grupo Al Mezan diz que, no ano passado, 101 palestinos tentaram cruzar a fronteira entre Gaza e Israel, sendo que 53 eram menores de 18 anos. Também em 2012, 18 palestinos morreram e 26 ficaram feridos quando pretendiam atravessar pelos túneis que levam ao Egito.

No ano passado, o pescador Mahmoud e dois amigos tentaram pular a cerca. Seus amigos morreram por disparos israelenses, mas ele conseguiu escapar com um ferimento de bala na perna. O jovem havia perdido seu emprego de tempo parcial em um café, onde ganhava US$ 4 por dia. Desesperado para manter sua família, arriscou a emigrar para Israel. Noventa palestinos, incluindo 11 crianças e três mulheres, morreram na zona de contenção nos últimos três anos e, como apontou Suliman, "embora alguns fossem combatentes, a maioria era de civis". Envolverde/IPS (END/2013)