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Presidente egípcio acossado por onda de renúncias e pressão mundial
Correspondentes da IPS
Doha, Catar, 3/7/2013 (IPS) - O presidente do Egito, Mohammad Morsi, está sob pressão internacional para se comprometer com um "diálogo nacional sério", horas após ter rejeitado um ultimato do exército para encontrar uma solução para a crise política.

O escritório de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) insistiu ontem junto ao governo de Morsi para que ouça as reclamações do povo egípcio e participe desse diálogo para distender a crise.

Rupert Colville, porta-voz da Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, também afirmou que o papel das forças armadas do Egito é crucial. "Não deveria fazer nada que prejudique os processos democráticos", afirmou. Antes, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, conversou por telefone com Morsi. Segundo comunicado da Casa Branca, Obama "enfatizou que a democracia é mais do que eleições, pois tem a ver com garantir que sejam ouvidas as vozes de todos os egípcios e que estes estejam representados por seu governo, incluindo os muitos cidadãos que se manifestam em todo país".

O exército declarou, no dia 1º, que intervirá se não for encontrada uma solução para a crise em 48 horas. A Praça Tahrir, no Cairo, permanecia repleta de gente ontem, no terceiro dia consecutivo de protestos contra Morsi, enquanto os partidários do presidente realizaram sua própria manifestação na cidade de Nasr. Um comunicado divulgado nove horas depois de anunciado o prazo, esclarece que "o presidente da República não foi consultado sobre o comunicado emitido pelas forças armadas. A Presidência vê que algumas das declarações incluídas nele contêm significados que podem causar confusão no complexo contexto nacional".

Morsi se reuniu com o comandante das forças armadas, general Abdel Fattah al-Sisi, pelo segundo dia consecutivo, informou ontem, o escritório do presidente. Pelo menos 14 milhões de pessoas saíram às ruas para protestar. Muitas pedindo a renúncia de Morsi. "A cada hora que passa a aposta fica mais alta", destacou Sherine Tadros, informando, do Cairo, para a rede de televisão árabe Al Jazeera.

A crise desatou uma série de renúncias de ministros, deixando Morsi isolado. Entre os altos funcionários que se demitiram figuram o chanceler, Mohammad Kamel Amr, que renunciou ontem. Outros são os ministros do Turismo, Hisham Zaazou, de Tecnologias da Informação e Comunicação, Atef Helmi, de Assuntos Legais e Parlamentares, Hatem Bagato, de Água, Abdel Qawy Khalifa, e do Meio Ambiente, Khaled Abdel-Aal. Morsi também perdeu apoio de Sami Enan, seu assessor militar que renunciou e disse que o exército "não abandonará a vontade do povo".

Os que se opõem a Morsi viram o comunicado do exército como uma aprovação e continuaram inundando as ruas para pressionar o presidente a deixar o cargo. Já os seus partidários criticaram o ultimato como uma tentativa de golpe de Estado. Um grupo de partidos pró-Morsi, autodenominados "coalizão para defender a legitimidade", convocaram protestos em massa para apoiar o presidente, durante uma conferência de imprensa. "Rechaçamos as tentativas de usar o exército para atentar contra a legitimidade do presidente", afirmou Safwat Abdel Ghani, alto membro da organização islâmica Gamaa al-Islamiyya.

Gehad el-Haddad, assessor do Partido Liberdade e Justiça, da Irmandade Muçulmana de Morsi, pontuou que as forças armadas tentam dissimular o mau desempenho que tiveram no período de transição após a queda de Hosni Mubarak (1981-2011). "O direito do povo de eleger o líder do país não será colocado em risco por ninguém, nem mesmo pelos que portam armas", enfatizou em uma entrevista. O Tamarod (Rebelião), o movimento da sociedade civil que está por trás dos protestos contra Morsi, elogiou o comunicado, dizendo que este mostra que as forças armadas estão do lado do povo. Envolverde/IPS (END/2013)