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Sudão arremete contra mulheres ativistas
Reem Abbas
Cartum, Sudão, 4/7/2013 (IPS) - Cada vez mais mulheres militantes políticas e ativistas pelos direitos humanos são detidas e presas no Sudão, como parte da repressão que o governo exerce contra os partidos opositores.

Asma Ahmed, advogada e integrante do proibido Movimento de Libertação Popular do Sudão-Norte (SPLM-N), foi libertada em 14 de junho após ficar cinco semanas detida. Ela acredita que as autoridades sudanesas se voltam cada vez mais contra as mulheres porque nos últimos anos se tornaram mais ativas na arena política e social.

"Tomar por alvo as ativistas acontece porque continuamos enviando nossas mensagens de maneira efetiva. Se não o fizéssemos, não nos deteriam. No entanto, as detenções não farão com que as mulheres fiquem menos dispostas a continuar no ativismo", declarou Ahmed à IPS. O rebelde SPLM-N foi proibido em 2011, quando pegou em armas contra as forças do governo nos Estados sudaneses de Kordofan do Sul e Nilo Azul.

"Minha casa já era vigiada alguns dias antes de minha detenção. Oficiais dos Serviços Nacionais de Inteligência e Segurança (Niss) disseram à minha família que eu havia sido intimada, assim, fui ao interrogatório no norte de Cartum e nesse dia não voltei para casa", contou Ahmed. Segundo a Anistia Internacional, a Lei de Segurança Nacional do Sudão, de 2010, "dá aos agentes dos serviços de segurança amplos poderes de prisão e detenção". Torturas e outros abusos são práticas generalizadas.

Em abril, a Human Rights Watch informava em um comunicado que, "nos últimos meses, o governo sudanês aumentou a repressão a grupos políticos e da sociedade civil. as autoridades fecharam quatro organizações da sociedade civil em dezembro, acusando-as de receberem fundos estrangeiros, também fecharam organizações culturais em Nuba, e ultimamente reimpuseram as restrições aos meios de comunicação".

Não está claro quantas mulheres estão detidas. O independente Conselho Sudanês para a Defesa dos Direitos e das Liberdades, integrado por ativistas, advogados e políticos, declarou que o SPLM-N tem 600 integrantes na prisão, muitos deles mulheres. Estas não estão livres das táticas atemorizantes usadas pelos serviços de segurança.

Os fatos que culminaram na prisão de Entisar Al-Agali são quase como um filme de ação de Hollywood. No dia 7 de janeiro, enquanto ela se dirigia para casa, voltando de uma reunião, um automóvel do Niss começou a segui-la até ela chegar à rua África, em Cartum. "Tentaram parar meu carro, mas acelerei e procurei fugir. Eles me alcançaram e bateram por trás no meu automóvel e, como eu tentava evitar um acidente, parei o carro", contou Al-Agali à IPS.

Al-Agali retornara de Kampala, em Uganda, onde participou das conversações que levaram à redação do rascunho da Carta do Novo Amanhecer, um documento assinado por partidos opositores sudaneses, bem como por grupos rebeldes e organizações da sociedade civil, que aborda os métodos para derrubar o regime sudanês e instaurar um governo de transição neste país devastado pela guerra.

"Passei 87 dias na Prisão de Mulheres de Omdurman, dos quais 75 na solitária", disse Al-Agali, integrante da direção do opositor Partido Socialista Unionista Nasserista. Ela foi a única mulher detida após a assinatura da Carta do Novo Amanhecer em 6 de janeiro, ocasião em que houve uma onda de detenções de líderes políticos. Porém, ela não é a única mulher que nos últimos dois anos passou semanas ou meses detida.

Em novembro de 2012, 34 supostos membros do SPLM-N, a maioria deles funcionários governamentais, foram detidos em Kadugli, capital do Estado de Kordofã do Sul. No dia 26 de abril, foram libertados 14 deles, e os outros continuam detidos na prisão dessa cidade.

Jadiya Mohammad Badr foi uma das detidas e libertadas, e agora permanece com a família em Cartum. "Ela sofreu ferimentos graves e fraturou dois discos da coluna vertebral ao escorregar enquanto estava presa. Agora, precisa pagar o tratamento de seu próprio bolso", disse à IPS uma ativista que arrecada fundos para ajudar Badr, e que pediu para não ser identificada, pois teme por sua segurança. Porém, a governamental Comissão Nacional de Direitos Humanos tenta colocar-se como órgão de defesa dos presos políticos.

Abdelmoniem Mohammad, advogado de direitos humanos que vigiou a Comissão em outros casos, disse à IPS que esta não é receptiva aos de opressão política, como o de Yalila Jamis. "A Comissão pediu que apresentássemos casos de presos políticos. Mas sou cético, pois foram lentos para agirem no caso de Jamis", acrescentou. Jamis, professora e ativista pelos direitos humanos, foi detida em março de 2012 por causa de um vídeo que gravou sobre a guerra em sua terra natal, as montanhas de Nuba, em Kordofã do Sul.

Os combates entre o exército sudanês e o rebelde SPLM-N acontecem nessa região desde junho de 2011. Jamis foi condenada a prisão perpétua, mas acabou solta em janeiro, após um longo julgamento. "Fui submetida a longos interrogatórios. O pior foi quando me disseram que matariam meu filho. Naquela época, fui diagnosticada com hipertensão arterial ", disse Jamis à IPS. Apesar de ter sido libertada, continua sob controle da segurança estatal.

Embora seja difícil dizer quantas mulheres militantes há na prisão, uma, que pediu para não ser identificada, disse à IPS que, "quando os familiares de uma detida em Kosti (cidade ao sul de Cartum) a visitaram na prisão, lhes deram uma longa lista de nomes para que escolhesse. Isto significa que há muitas outras presas sobre as quais nada sabemos". Fatima Ghazzali, ativista pela democracia e jornalista que trabalha para a editoria de política do jornal Al-Jareeda, informou que as mulheres estão na primeira linha dos que reclamam democracia e liberdade no Sudão.

"É de mulheres a maioria dos refugiados deste país. Elas ficam com a pior parte da guerra. São as que mais sofrem sob regimes autoritários, por isso não me surpreende ver que são as mais ansiosas para ter democracia no Sudão", observou Ghazzali à IPS, acrescentando que só a democracia dará às mulheres seus plenos direitos e as protegerá das forças de segurança. A participação cada vez maior de mulheres ativistas nos recentes protestos e campanhas fez com que inclusive a polícia notasse a presença feminina nas reclamações por democracia, contou Ghazzali, que em 2011 foi detida por escrever um artigo sobre a violação de uma manifestante nas mãos de uma gangue. Envolverde/IPS (END/2013)