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Revolução ou gatopardismo no Vaticano?
Fabiana Frayssinet
Rio de Janeiro, Brasil, 2/8/2013 (IPS) - "Negociamos bem: o papa é argentino e Deus é brasileiro", brincou Francisco quando jornalistas lhe perguntaram sobre como é ser tão amado neste país, onde reuniu milhões de pessoas, tendo em conta a histórica rivalidade futebolística entre os dois povos.

No entanto, analistas religiosos se perguntam até onde a Igreja Católica está disposta a "negociar", como instituição, em temas tabus para sua tradição, como a ordenação sacerdotal de mulheres, a integração dos divorciados e a rejeição aos homossexuais.

O cardeal argentino Jorge Bergoglio, hoje papa Francisco, teve especial cuidado de deixar esses assuntos fora do protocolo da Jornada Mundial da Juventude, motivo de sua visita ao Brasil, entre 22 e 28 de julho. Em resposta aos jornalistas durante seu voo de retorno ao Vaticano, respondeu em entrelinhas o que agora muitos leem como uma "revolução" do "papa que chegou da terra de nascimento de Che (Ernesto) Guevara", ou, no mínimo, o início de uma abertura da Igreja Católica.

"Se uma pessoa é gay e busca o senhor com boa vontade, quem sou eu para julgá-la? O catolicismo ensina que não se deve discriminar, mas acolher", acrescentou ao condenar, no entanto, o "lobby gay" que, como outros grupos de pressão, não são "coisa boa". O escritor e teólogo dominicano Frei Betto disse, em entrevista à IPS, que se trata de um chefe da Igreja Católica disposto a fazer concessões, um homem de diálogo e não de disciplina. "Já não temos um papa conservador como os que o antecederam", opinou.

No entanto, são concessões e não revoluções, segundo o sociólogo Luiz Alberto Gomes de Souza, diretor do Programa de Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes. Ele não vê na figura do papa a de um "rebelde" que chegou ao Vaticano para mudar a doutrina. "Eu diria que o papa não mudou a doutrina tradicional sobre uma série de temas, mas que, ao evitar uma condenação, de certo modo emitiu um silêncio que é libertador. Ou seja, um silêncio que permite que se comece a discutir estes temas", pontuou Souza à IPS.

O bispo de Roma, como Francisco prefere ser chamado nesta nova postura de humildade papal, fechou uma porta para outros assuntos como aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo, aos quais se opôs ferreamente como cardeal na Argentina. A Igreja já se expressou perfeitamente sobre isso. Não havia necessidade de retornar ao assunto, respondeu aos jornalistas. Contudo, Souza entende que o papa teria aberto outra porta: a de um novo "clima" propício ao debate em questões "congeladas" nas paróquias, como celibato obrigatório de sacerdotes, moral sexual, castidade dos jovens, condenação aos métodos anticoncepcionais e diversidade sexual.

"As pessoas (da Igreja) tinham medo de discutir esses assuntos. Agora, de certo modo, ele os descongelou", apontou o sociólogo. "Ele não fechará o debate dentro da Igreja sobre os temas de teologia moral que estão congelados desde o século 16, e que os teólogos não podem abordar sem correr o risco de censura ou sanção", afirmou Frei Betto. O papa não se referiu a esses temas "congelados", mas a outros quentes abordados pelos jornalistas no avião, como divórcio e participação das mulheres dentro da Igreja.

"Creio que chegou o tempo da misericórdia. Quando se reunir o grupo de oito cardeais, nos primeiros dias de outubro, discutiremos como seguir adiante na pastoral do matrimônio", respondeu o papa ao se referir à demanda de católicos divorciados, que não podem realizar uma segunda união pelos ritos católicos. Deste modo, deixou também aberto o tema da ampliação do conceito de "nulidades" do matrimônio.

Além disso, abriu uma porta para as mulheres. "Deve-se seguir adiante, não se pode entender uma Igreja sem mulheres ativas nela. Não temos ainda uma teologia da mulher. É preciso fazê-la", acrescentou Francisco. Porém, para que não haja confusão, o papa esclareceu que, "quanto às ordenações das mulheres, a Igreja diz não. João Paulo II se pronunciou com uma formulação definitiva. Essa porta está fechada", enfatizou.

Dentro de um novo clima de "alegria" e otimismo, e não de "quem parece em constante luto", como disse em sua homilia em Aparecida, o papa preferiu destacar o "positivo", como ressaltou aos jornalistas ao regressar a Roma. Paulo Carneiro de Andrade, da Pontifícia Universidade Católica, define esse novo ambiente eclesiástico "otimista" não como uma "mudança doutrinária, mas na relação pastoral". Um clima necessário em meio a uma Igreja Católica que perde terreno diante de grupos evangélicos mais festivos em seus cultos e com pastores mais perto de seus seguidores.

O que mudou, segundo Carneiro de Andrade, foi "o contexto pastoral no qual agora se fala". Como Souza, este teólogo destaca que não há "inovação" em temas como a integração dos homossexuais na sociedade e na condenação à homofobia. Tampouco no dos divorciados, que já foi discutido na era de seu predecessor, Bento 16. "Surpreende porque antes o tom era negativo, de condenação, de desconfiança do mundo moderno. Este papa mostra uma visão mais positiva e construtiva da fé cristã. Por isso o que diz ganha outra dimensão", afirmou Carneiro de Andrade à IPS.

Uma nova dimensão cuidadosamente tecida na escolha do perfil do novo papa. É "um papa necessário, que foi eleito devido à renúncia de Bento 16, que admitiu não poder tomar conta dos problemas que a Igreja enfrenta", destacou Frei Betto. Na entrevista à TV Globo, "Francisco deixou claro que houve uma articulação dos cardeais reunidos para o conclave, e que a decisão foi a de que o papa a ser eleito deveria ser alguém capaz de transformar a Igreja", acrescentou.

Carneiro de Andrade coincide quanto ao colégio cardinalício "querer uma pastoral que tivesse essa relação e um evangelizador com um modelo mais propositivo, mais otimista sobre o futuro". O constante sorriso e o toque de humor deixados pelo papa Francisco no Rio de Janeiro mostram esse caminho. O qual, ante o rosto sempre adusto e sério de Bento 16, não deixa de ser uma revolução.

"Em sua visita ao Brasil, o papa se mostrou aberto, inclusive em temas que, até agora, eram proibidos na Igreja Católica, como a homossexualidade e o papel da mulher", recordou Frei Betto. "Foi muito importante o que disse na viagem de volta sobre os gays e a necessidade de uma teologia da mulher, o que, espero, seja o primeiro passo para que no futuro se permita a ordenação sacerdotal feminina. E, certamente, ele terá que reverter a proibição de que os divorciados tenham acesso aos sacramentos", acrescentou.

"Podemos entender que ele não fechará o debate na Igreja sobre os temas da teologia moral", mas também se deve considerar que, "na Igreja, tudo caminha devagar. Não é fácil mover um elefante que pesa dois mil anos de tradição", observou Frei Betto. Envolverde/IPS (END/2013)