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Imigrantes abrem caminho no extremo leste da Rússia
Evgeny Kuzmin*
Moscou, Rússia, 8/8/2013 (IPS) - Tradicionalmente, o grosso dos trabalhadores imigrantes no extremo leste da Rússia procedia da China, embora também houvesse alguns poucos norte-coreanos.

Porém, nos últimos tempos chegam da Ásia central e tiram seus competidores chineses do mais baixo escalão trabalhista na Sibéria oriental.

Os cidadãos chineses continuam sendo a maioria dos trabalhadores na região siberiana de Amur, bem como em outras áreas da Federação da Rússia fronteiriças com a China. Entretanto, nos últimos anos a proporção de trabalhadores chineses em relação aos da Ásia central passou, de quatro para um, para dois para um na região de Amur, segundo dados oficiais.

Os empregadores da capital regional, Blagovéshchensk, com 220 mil habitantes, dizem que as expectativas de salário maior dos trabalhadores chineses fazem com que seja mais rentável contratar imigrantes de ex-repúblicas soviéticas como Uzbequistão e Kirguistão.

A crescente prosperidade da China exerce pressão para que os cidadãos chineses ganhem mais e mandem mais dinheiro para suas famílias. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho tradicional para os imigrantes da Ásia central na parte ocidental da Rússia, especialmente Moscou e São Petersburgo, fica saturado, e muitos preferem explorar o extremo leste.

"Claro, a melhor opção para fazer dinheiro é Moscou", reconheceu Batyr, procedente do Uzbequistão e que há seis meses trabalha asfaltando ruas em Blagovéshchensk. "Mas é muito difícil encontrar trabalho lá. Está cheia de uzbeques", acrescentou.

Atualmente, não é raro ver muitos cidadãos da Ásia central na cidade, principalmente na área da construção. Em outras localidades do distante leste, como Vladivostok e Petropávlovsk-Kamchatski, os imigrantes procedentes dessa região encontraram trabalho como motoristas de ônibus. Os funcionários locais estão contentes pelo fato de cidadãos da Ásia central substituírem os chineses, especialmente no setor agrícola. As autoridades explicam que em muitas ocasiões estes últimos não respeitam as normas vigentes.

Tatiana Yakimenko, diretora do Departamento de Regulamentação de Migração Trabalhista Exterior do governo da região de Amur, citou vários exemplos em que o uso indevido de fertilizantes causou degradação do solo. Além das expectativas salariais menores dos imigrantes da Ásia central, estes têm uma vantagem comparativa: não precisam de visto para entrar na Rússia.

Já os trabalhadores chineses devem se ater a um regime de visto que desestimula muitos futuros imigrantes ilegais de cruzar a fronteira. Para os que querem ter os documentos em dia, o processo de aprovação demora meses.

A demanda por trabalhadores ilegais em Amur é significativa, sugerem as estatísticas oficiais. O escritório local do serviço federal de migrações emitiu em 2013 um cota de 13 mil imigrantes, que representa 1,5% da população da região.

No entanto, os funcionários regionais estimam que a demanda chegue a 37 mil trabalhadores imigrantes. A brecha é maior no setor agrícola. Um estudo estima que, até 2014, para cada quatro empregos que se acredita exista em uma fazenda haverá apenas um imigrante legal disponível.

O desequilíbrio regional entre oferta e demanda faz com que a vida seja um pouco mais fácil para os imigrantes da Ásia central sem documentos em dia no distante oriente, em comparação com seus conacionais nas cidades europeias da Rússia, onde, por outro lado, a extorsão de funcionários e policiais locais é a norma.

Para melhor se integrar, Batir, do Uzbequistão, adotou o nome russo de Dimitri. Seus gestos e aspectos físicos não denunciam sua origem quando anda pelas ruas. Enquanto não falar, tudo bem. Mas quando precisa falar seu russo vacilante delata que é estrangeiro.

O fluxo de imigrantes da Ásia central chegou a tal ponto que a relativa maior tolerância que os funcionários tinham com eles pode começar a se dissipar. Na região de Kamchatka, por exemplo, os funcionários já mostram sinais de querer impor normas mais rígidas. Está prevista para setembro uma reunião na Câmara Pública, órgão consultivo adjunto ao Kremlin, na região. Um dos pontos da agenda é a superpopulação dos jardins de infância, informou a imprensa local.

Habitantes do lugar dizem que as crianças russas devem ter um lugar garantido no jardim de infância antes dos filhos de imigrantes. Outros se queixam de que grávidas da Ásia central viajam ao extremo leste para dar à luz em hospitais públicos, o que supõe uma carga adicional para os serviços de saúde que já estão no limite. Envolverde/IPS

* Nota do editor: Evgeny Kuzmin é jornalista independente e trabalhou como editor associado na EurasiaNet.org em 2012. (END/2013)